Acordar, escovar os dentes, tomar banho, trocar de roupa, tomar café, usar um transporte (carro, ônibus, metrô), estudar (trabalhar ou outras providências), usar novamente o transporte, almoçar, estudar (trabalhar ou outras providências), mais um transporte, retornar para casa, trocar de roupa, tomar banho, jantar, desenvolver uma leitura, ver tv e, finalmente dormir. Não sendo necessariamente nesta sequência, estas são - dentre outras - tarefas que realizamos diariamente, ao longo de 70, 80 ou 90 anos. Seja uma criança, adulto ou idoso, temos sempre que ocupar o nosso tempo, na maioria das vezes com as mesmas tarefas, fazendo uso de habilidades cognitivas, como a memória - curta duração (de trabalho) ou longa duração (declarativa, implícita) - e as funções executivas. Mas durante a nossa vida frequentemente reclamamos da monótona repetição dessas atividades - quase insuportável para os adolescentes -, precisando incluir o lazer nos finais de semana, como praia, cinema, passeio, com o objetivo de evitar o stress da rotina diáriar (só Roberto e Erasmo Carlos conseguiram transformar a rotina em algo apaixonante). Além disso, anualmente necessitamos de umas férias, para também amenizarem o cansaço, os aborrecimentos e as preocupações do cotidiano, como mais uma estratégia para modificar a monótona cadência daquelas atividades. Os dias vão se passando, os anos seguindo e somos surpreendidos com as viroses, pequenos acidentes e até cirurgias, abalando a nossa saúde e nos obrigando a permanecer em casa ou no hospital, impedidos temporariamente de realizar o roteiro de sempre. Curiosamente também ficamos ansiosos e estressados nestes períodos, não vendo a hora da rotina retornar. O tempo passa e, à medida que envelhecemos, aumentamos a possibilidade de desenvolvermos quadros demenciais - como Alzheimer - e, com isso, uma progressiva limitação na realização das atividades cotidianas. O déficit na memória, principal prejuízo cognitivo nos quadros degenerativos, começa a comprometer o desempenho funcional, ao ponto de não lembrar de escovar os dentes ou tomar banho, de vestir a mesma roupa após a higiene, esquecer os horários da medicação, programas de tv assistidos, conversas com familiares ou eventos presenciados. Uma filha ou esposa precisam lembrar o idoso que ele não tomou banho naquele dia, que está vestindo uma roupa suja, que não faz muito tempo que seu filho o visitou e que teria lhe falado várias vezes da consulta médica do dia seguinte (se antes o que aprisionava o indivíduo era a rotina, agora é a dificuldade de segui-la; para a saúde, o que a colocava em risco na juventude é indicativo de plenitude, na velhice). Situação complicada para o paciente e familia, não só pelas modificações que serão cada vez mais necessárias no gerenciamento das tarefas (financeiras, controle de medicamentos, saídas de casa), possibilidade de um cuidador profissional, adaptações físicas na residência (ou até mesmo mudança), mas, principalmente, pelas alterações nas relações, ocasionando sentimentos incômodos para todos. Daí a importância da participação dos que estão ligados legal e afetivamente - filhos, cônjuge, irmãos, sobrinhos - no diagnóstico e tratamento, bem como no atendimento das necessidades diárias, não só de alimentos, remédios, higiene e consultas, mas também de interação e de bons momentos; de preferência, rotineiros.domingo, 26 de fevereiro de 2012
A rotina nossa de cada dia...
Acordar, escovar os dentes, tomar banho, trocar de roupa, tomar café, usar um transporte (carro, ônibus, metrô), estudar (trabalhar ou outras providências), usar novamente o transporte, almoçar, estudar (trabalhar ou outras providências), mais um transporte, retornar para casa, trocar de roupa, tomar banho, jantar, desenvolver uma leitura, ver tv e, finalmente dormir. Não sendo necessariamente nesta sequência, estas são - dentre outras - tarefas que realizamos diariamente, ao longo de 70, 80 ou 90 anos. Seja uma criança, adulto ou idoso, temos sempre que ocupar o nosso tempo, na maioria das vezes com as mesmas tarefas, fazendo uso de habilidades cognitivas, como a memória - curta duração (de trabalho) ou longa duração (declarativa, implícita) - e as funções executivas. Mas durante a nossa vida frequentemente reclamamos da monótona repetição dessas atividades - quase insuportável para os adolescentes -, precisando incluir o lazer nos finais de semana, como praia, cinema, passeio, com o objetivo de evitar o stress da rotina diáriar (só Roberto e Erasmo Carlos conseguiram transformar a rotina em algo apaixonante). Além disso, anualmente necessitamos de umas férias, para também amenizarem o cansaço, os aborrecimentos e as preocupações do cotidiano, como mais uma estratégia para modificar a monótona cadência daquelas atividades. Os dias vão se passando, os anos seguindo e somos surpreendidos com as viroses, pequenos acidentes e até cirurgias, abalando a nossa saúde e nos obrigando a permanecer em casa ou no hospital, impedidos temporariamente de realizar o roteiro de sempre. Curiosamente também ficamos ansiosos e estressados nestes períodos, não vendo a hora da rotina retornar. O tempo passa e, à medida que envelhecemos, aumentamos a possibilidade de desenvolvermos quadros demenciais - como Alzheimer - e, com isso, uma progressiva limitação na realização das atividades cotidianas. O déficit na memória, principal prejuízo cognitivo nos quadros degenerativos, começa a comprometer o desempenho funcional, ao ponto de não lembrar de escovar os dentes ou tomar banho, de vestir a mesma roupa após a higiene, esquecer os horários da medicação, programas de tv assistidos, conversas com familiares ou eventos presenciados. Uma filha ou esposa precisam lembrar o idoso que ele não tomou banho naquele dia, que está vestindo uma roupa suja, que não faz muito tempo que seu filho o visitou e que teria lhe falado várias vezes da consulta médica do dia seguinte (se antes o que aprisionava o indivíduo era a rotina, agora é a dificuldade de segui-la; para a saúde, o que a colocava em risco na juventude é indicativo de plenitude, na velhice). Situação complicada para o paciente e familia, não só pelas modificações que serão cada vez mais necessárias no gerenciamento das tarefas (financeiras, controle de medicamentos, saídas de casa), possibilidade de um cuidador profissional, adaptações físicas na residência (ou até mesmo mudança), mas, principalmente, pelas alterações nas relações, ocasionando sentimentos incômodos para todos. Daí a importância da participação dos que estão ligados legal e afetivamente - filhos, cônjuge, irmãos, sobrinhos - no diagnóstico e tratamento, bem como no atendimento das necessidades diárias, não só de alimentos, remédios, higiene e consultas, mas também de interação e de bons momentos; de preferência, rotineiros.segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012
A perda de uma inteligência privilegiada
Desde o final da minha adolescência vinha escutando suas músicas, inicialmente em disco de vinil e fita K7, depois em cd, DVD e pen drive. Apesar de gostar da música nacional - Roberto Carlos (preferencialmente as músicas antigas), Djavan, Fagner, Luis Gonzaga, Kid Abelha, Martinho da Vila e vários outros -, a música internacional sempre teve um lugar de destaque nos meus momentos de ouvir um som. Mesmo considerando a histórica e intensa influência da cultura norte-americana no nosso país e, consequentemente, nas nossas preferências, a minha inclinação em escutar faixas numa língua pouco ou até desconhecida – correndo o risco de está perdendo o tempo com uma peça textualmente rudimentar - é também uma necessidade de fazer da música mais um momento de contemplação do que de reflexão: esvaziar a mente e preenchê-la com o arranjo harmônico da voz humana com os instrumentos musicais. A maneira como ela manipulava os sons parecia que estava brincando, com tanta versatilidade e refinamento vocal que poderia até dispensar o acompanhamento e, mesmo assim, hipnotizava quem a escutasse. Numa voz extraordinária, o seu cantar arrepiava - como em "I Will Always Love You" -, modificando as ondas elétricas cerebrais de qualquer um. Era o canto de uma sereia!. Estou falando de Whitney Houston, artista norte-americana falecida no último dia 11, aos 48 anos de idade e sepultada ontem em Nova Jersey (EUA). Uma cantora que teve a morte antecipada possivelmente pelos problemas com o uso de drogas - assim como outras milhares de pessoas em todos os continentes, menos famosos, mas também muito queridas pelos seus familiares e amigos. Uma diva da música que espantou os males de milhões de ouvintes com destreza nas cordas vocais, com a sua inteligência particular, mas afogou-se nas próprias dificuldades. Passamos bons momentos juntos e, em vários deles, fui compreendendo (acho) o fenômeno da inteligência - assim também quando acompanhava o desempenho de pessoas no esporte, nas artes, na ciência. Um tema que tem provocado divergências ao longo da história, com entendimentos ora mais ora menos abrangentes mas, nos últimos anos, tem se fortalecido na hipótese da existência de inteligências múltiplas (Gardner, 1985): linguística, lógico matemática, cinestésica, interpessoal, intrapessoal e musical. Entretanto, seja com movimentos, números, emoções, palavras ou sons, compreendo que um ato inteligente precisa obrigatoriamente envolver duas etapas: compreensão e manipulação. A compreensão, com uma ampla e eficiente capacidade de percepção e discriminação de estímulos (visuais, auditivos, táteis, olfativos, gustativos, cinestésicos, emotivos) e a manipulação, com o manuseio criativo destes estímulos, transformando-os num drible desconcertante, na elaboração de um texto emocionante ou na interpretação musical impecável. É improvável que uma pessoa com inteligência cinestésica tenha restrições na percepção das nuances dos movimentos corporais, que um exímio escritor ou jornalista tenha déficit em diferenciar semântica e fonologicamente as palavras ou que uma cantora como Whitney não conseguisse discriminar, explícita ou implicitamente, as notas musicais, com suas oitavas e sustenidos. Não se pode manipular com excelência (e com isso resolver problemas) o que não é compreendido, discriminado. Mas, como compreender a perda prematura de W.H. e de outros que contribuíram para o nosso bem estar? Minha limitada capacidade intelectual não é suficiente para resolver um problema desta dimensão, restando apenas continuar me deleitando com suas músicas, e que ela descanse em paz...sábado, 11 de fevereiro de 2012
Pequenas escolas, melhores oportunidades, grandes cidadãos
domingo, 29 de janeiro de 2012
2012
Após trinta dias de férias – também da internet -, estou retornando aos rabiscos, extremamente ansioso com o também retorno do meu filho da imersão nos EUA, por eternos 27 dias. Embora neste período não tenham faltado fatos e questionamentos que pudessem ser transformados em postagens - principalmente a ausência e a saudade de um ente querido -, o contato com a terra, o mar, os nativos e com os animais (entenda-se cavalo) foi providencial, após o final de mais um ano de vida. Hoje, voltando da Barra Nova com o carro abarrotado de roupas, eletrodomésticos e outros apetrechos, cheirando e contemplando o coqueiral e o mangue ao longo da estrada, senti uma agradável sensação de preenchimento. No percurso de despedida, à medida que a rodovia me tingia de verde, crescia o convencimento de que estava pronto para 2012: que venham a rotina e os desafios, as alegrias e as decepções, as lamentações e as comemorações. Mas que eu não perca a cor nos próximos 336 dias, com abundância de pensamentos clorofilados para os novos conhecimentos científicos e acontecimentos do cotidiano que virão. E que, mesmo quando incomodado com algumas novidades (repetidas) do comportamento moderno, as teclas consigam expressar a esperança na humanidade. domingo, 25 de dezembro de 2011
Ho, ho, ho não, ui, ui, ui!
Na cavalgada do papai Noel ocorrida nos povoados de Barra Nova e Massagueira, há sete dias, tive como presente, além do sorriso marcante dos meninos, um edema no joelho, ocasionado por uma forte pancada acidental. Apesar da intensa dor, limitação dos movimentos por uns dias, compressas diárias e tratamento medicamentoso, não houve fratura da patela (osso do joelho), nem lesão nas articulações. A satisfação em promover - junto com outros amigos cavaleiros da região - a alegria das crianças das favelas foi muito mais intensa e anestesiou a dor e a chateação das conseqüências do acidente, estimulando ainda a vontade do grupo no planejamento de novos eventos. No entanto, nos dias seguintes o entusiasmo da participação foi se transformando numa estranha inquietação e provocando questionamentos: qual o efetivo impacto da entrega dos brinquedos na vida dessas pessoas? Por que parece que nos sentimos mais motivados a realizar atos voluntários no natal? Haveria, além do espírito de solidariedade, outros interesses menos altruístas? Seria possível vivenciarmos intensamente o que se define como espírito do natal sem nos incomodarmos com a miséria bem próxima de nós? Precisaríamos do ato voluntário natalino para expurgar algum sentimento de culpa do resto do ano? De que maneira poderíamos ser também solidários em outras situações, nos outros onze meses? Não seria também um ato de solidariedade realizar uma adequada escolha dos candidatos a cargos eletivos (vereador, prefeito, governador, etc)? A indignação, reivindicação e a manifestação diante dos escândalos com a coisa pública também não significaria o espírito de coletividade? E a diminuição do desperdício e do consumo irracional? Afinal de contas, por que a tendência de demonstrarmos, nas festas de fim de ano, comportamentos pouco repetidos durante os outros 335 dias do ano, sejam com os mais pobres, conhecidos e até familiares? Deveria o natal representar não apenas o nascimento de uma nova atitude, mas o aprimoramento e a permanência dela? Decididamente, não me lembro de ter vivido um natal com tantos e significativos incômodos e, apesar do joelho já está praticamente recuperado, algo ainda dói. Ainda bem que tenho um novo ano pela frente, para recuperar e aprender.domingo, 11 de dezembro de 2011
Self service
Hoje pela manhã, enquanto a turma dormia, fui ao supermercado fazer umas comprinhas para o café: pão, queijo, frutas, iogurte e achocolatado. Na fila do caixa, enquanto aguardava a minha vez, buscava alguma revista para ajudar a passar o tempo. Normalmente nestes momentos tenho encontrado apenas faces, fofocas, finanças, moda e temas do cotidiano, recheadas principalmente com informações de festas, crimes, tragédias, crises econômicas, denúncias e corrupção. Mas hoje foi diferente: conheci a primeira edição da revista "por exemplo", vendida nas lojas do Extra, cujo editorial firma o propósito de divulgar experiências que sirvam de exemplo para as pessoas, com dicas e relatos de superação de barreiras e realização de sonhos. Folheando o exemplar fui gostando das matérias, não só pela utilidade e relevância, mas sobretudo pela leveza da publicação. O fato de ter custado R$ 2,50 (dois reais e cinquenta centavos) e o compromisso da doação da arrecadação para projetos sociais colaboraram com a percepção.Há algum tempo venho observando, de forma entusiasmada, o despertar da divulgação progressiva da boa notícia (revista Vida Simples, Programa Ação, etc) - não sendo ela apenas aquela última informação do noticiário, usada como tira gosto. Parece que estamos começando a nos interessar - de modo mais significativo - por informações positivas, de realizações, que nos animem e nos deixem esperançosos. Será que está diminuindo a tendência primitiva do ser humano de privilegiar os acontecimentos trágicos (estratégia biológica de aumentar a probabilidade de sobrevivência)? Será que estamos tornando a amígdala civilizada (estrutura cerebral antiga e essencial na adaptação do homem numa realidade anterior, mas que ainda policia todos os acontecimentos de forma rápida e as vezes imprecisa, conferindo a conotação afetiva e sendo uma das principais responsáveis pelos transtornos de ansiedade)? Anseio pelo dia que consigamos escolher, assim como os produtos nos supermercados, informações também saudáveis, satisfazendo não apenas a necessidade de ingerir, mas de se alimentar.
domingo, 4 de dezembro de 2011
Refazendo as malas
Acabamos de chegar de uma viagem de Gravatá (Pernambuco), no Resort Villa Hípica. Com um imenso e bem cuidado gramado, repleto de pássaros, cavalos e vários outros animais, além de manhãs ensolaradas e noites suaves, refeições com novos e diferentes sabores, foram três dias de muitas brincadeiras para as crianças, atividades para a família e momentos para o casal, num ambiente de beleza, harmonia e conforto. Sem falar das cantorias após o jantar, que eram como cantigas de ninar, adormecendo gostosamente e nos conduzindo à cama. Sem dúvida foram dias que facilmente serão recordados no futuro, com uma agradável lembrança. Entre os inúmeros hóspedes do resort houve dois grupos que se destacaram: ao chegarmos encontramos uma turma de crianças, provavelmente num passeio de final de ano, acompanhadas dos professores, frequentemente gritando e correndo para cima e para baixo, com uma energia invejável, mas também com um palavreado e maneiras preocupantes. Quando estes foram embora, chegou o grupo de idosos, também bastante entusiasmados e alegres, sempre conversando, dançando, cantando e aproveitando o encontro com os amigos. Foi aí que me lembrei de outros dois grupos de idosos que encontro com certa frequência no consultório: aqueles pacientes que acham que a velhice é uma desgraça, que não tem nada de melhor idade e que, de lucro, só as dores e problemas, e o outro grupo dos que afirmam da possibilidade de descobertas e novas experiências, da realização de antigas aspirações, da sensação de liberdade e vontade de viver. Mas afinal de contas a velhice é a melhor idade mesmo? Não sendo grande conhecedor dos aspectos subjetivos do envelhecimento, pretendo apenas fazer alguns questionamentos. Sempre vejo pais e responsáveis preocupados com a formação acadêmica de seus queridos, investindo em boas escolas, professores particulares, aulas de línguas, monitorando as amizades dos garotos e, quando necessário, encaminhando-os para psicoterapia e outros tratamentos. Tudo isto para torná-los profissionais competentes, capazes de resolver problemas de maneira eficiente, seja como advogado, médico ou engenheiro. Quando crescem, continuam a incrementar a própria formação técnica, realizando cursos de pós graduação - especialização, mestrado, doutorado. Ou seja, o sucesso na vida adulta depende da formação desenvolvida na infância e adolescência. E no envelhecimento também não seria necessário o desenvolvimento de competências? Quantos, durante a 1a. e 2a. idades, dedicam-se na capacitação para a 3a idade? Quais habilidades são necessárias nesta fase da vida? Diante do que venho acompanhando em pessoas nesta faixa de idade, arrisco-me a dizer que o envelhecimento também necessita de preparação, desenvolvida principalmente nas escolhas realizadas nas primeiras cinco décadas de vida e que poderão resultar na competência física (manter-se ativo e saudável fisicamente, através de uma alimentação adequada e atividade física regular), competência subjetiva (manter-se saudável emocionalmente, aprimorando estratégias para lidar com a frustração, raiva, medo e tristeza, resultantes das realizações - ou não - pessoais e profissionais) e competência existencial (identificar e aperfeiçoar o significado da própria existência, através do aprendizado nas experiências da vida, religião, leituras e reflexões). Fico na expectativa de que estas competências se desenvolvam, esperando intensamente conseguir avançar na velhice como um turista, fotografando os belos momentos, deletando os desnecessários, encontrando algumas coisas e pessoas, afastando-se de outras, mas lembrando sempre que é apenas uma viagem e que, inevitavelmente, retornarei...
domingo, 27 de novembro de 2011
A lembrança da demência
"Eu não quero continuar vivendo assim; dessa forma não vale a pena viver!" Estas frases foram ditas por um paciente esta semana mas, de alguma forma, continuo a escutá-las. Ele tem 67 anos e vem - há uns dois anos - apresentando mudanças significativas na sua personalidade, com ênfase na impulsividade e agressividade. Discussões frequentes com familiares, amigos e até com estranhos nas ruas, por motivos insignificantes, mas com intensidade, segundo ele, preocupante - "vontade de agredir qualquer um que me chame de feio". Alterações na alimentação (excesso), dificuldade acentuada para se concentrar e desenvolver leituras também foram mencionadas, assim como limitações recentes em algumas atividades cotidianas (gerenciamento das contas bancárias). Angustiado, disse ainda que a esposa e os familiares não mereciam seu comportamento e que estava evitando situações sociais. Trata-se de uma pessoa com trinta anos de casado - com aparente qualidade -, intelectualmente diferenciada, com alta escolaridade (mestrado), tendo desenvolvida atividade profissional de elevada complexidade, sem histórico psiquiátrico e com uma aposentadoria que incluía frequentes viagens. Na avaliação neuropsicológica seu desempenho cognitivo foi adequado à idade e escolaridade, exceto nas funções executivas (funções relacionadas às regiões anteriores do cérebro - frontais - e que envolvem o planejamento, execução, monitoramento e flexibilidade mental). A disfunção executiva, associada às modificações acentuadas da personalidade e outros sintomas sugerem, segundo as avaliações (médica, neuropsicológica) uma síndrome demencial - fronto temporal (apesar dos raros momentos de insight). Muito menos frequente que a Demência de Alzheimer, destaca-se pela preservação inicial das funções cognitivas, mas com mudanças acentuadas no comportamento. Apesar dos avanços científicos no diagnóstico e no tratamento, como toda síndrome demencial, ela também cursa no comprometimento cognitivo progressivo e irreversível, relacionado com as alterações patológicas que acontecem nos neurônios (formação de placas senis). No final, com a perda neuronal excessiva, evidencia-se uma atrofia cerebral difusa acentuada, com um prejuízo cognitivo devastador, onde a pessoa "esquece" não só as lembranças (episódios da vida, conhecimento acumulado, nome de parentes), mas também as crenças, os hábitos e até os movimentos. Como aquele meu paciente, que vivenciou milhares de momentos alegres e tristes na vida, estudou anos a fio, trabalhou por décadas, criou os filhos e, agora na velhice, provavelmente esquecerá de tudo. A demência aparentemente destrói um dos principais patrimônios (ilusões?) do ser humano: sua individualidade. O indivíduo perde as características que o tornaram único no mundo, ao ponto dos familiares dizerem: "este não é o meu pai", "ela não é a pessoa com quem casei". E como ainda não podemos evitar ou prevenir a demência, é possível pelo menos ter alguma proteção, monitorando a pressão arterial, realizando atividade física regular, tomando um bom vinho e querendo aprender coisas novas, mas sempre lembrando que desta vida não se leva nada, nada mesmo!domingo, 20 de novembro de 2011
Contágio social - segunda parte
terça-feira, 15 de novembro de 2011
Proclamação da família
domingo, 6 de novembro de 2011
A excelência está no ar
domingo, 30 de outubro de 2011
Conhecendo a memória
"Meu filho tem uma ótima memória, ele lembra de cada coisa"; "não me esqueço do nome das ruas, nem das coisas que leio, por isso não posso dizer que sou esquecido". Afirmações como estas costumam ser ditas como garantias que não há prejuízo na memorização, mesmo quando algumas atividades diárias, como o estudo e o trabalho estão prejudicadas. E geralmente refletem uma compreensão do funcionamento da mente humana: se uma pessoa tem habilidade para desenvolver uma atividade de forma adequada, consequentemente tem para realizar outras aparentemente semelhantes. É como se cada função mental - memória, inteligência, linguagem, etc - fosse uma unidade, um monobloco. No entanto os estudos têm demonstrado que o juízo da gente é bem mais complicado e que esses instrumentos cognitivos se manifestam funcionalmente em módulos semi independentes e estão associados preferencialmente a determinadas regiões ou circuitos do cérebro. Em relação à memória, por exemplo, as áreas laterais profundas do encéfalo, próximas às orelhas, chamadas de regiões temporais mesiais, têm um papel decisivo na retenção de novas informações. O fato das funções cognitivas não serem totalmente dependentes umas das outras torna possível um idoso apresentar um déficit na memória com a inteligência e linguagem preservadas (fase inicial da Demência de Alzheimer) e uma criança com retardo mental ter uma satisfatória capacidade de memorização, com a linguagem restrita (espectro autista). Além disso, para uma compreensão um pouco mais detalhada da mente humana, é importante acrescentar que cada modalidade cognitiva é composta por sub modalidades: a habilidade de fixar estímulos e evocá-los ocorre de maneira temporária (memória de curta duração ou de trabalho) e duradoura (memória de longa duração). Manter mentalmente e por alguns instantes um número do telefone de um conhecido e lembrar dos acontecimentos do último natal, respectivamente, ilustram tais fenômenos. Também podemos ter uma performance satisfatória na memória de longa duração com a de trabalho diminuída. Quando acontece com crianças, favorece à desorganização, lentifica a aprendizagem - leitura, idiomas, problemas matemáticos - e, nos adultos diminui a produtividade, dificulta a execução de algumas atividades diárias e atenua a capacidade de formar novas lembranças. Stress, débito de sono, ansiedade e depressão geralmente são as responsáveis por estas alterações. Mas quando, ao invés da memória de trabalho, a pessoa tem a diminuição ou incapacidade na memória de longa duração (também chamada de memória declarativa) as desvantagens são bem maiores, com prejuízos sociais e funcionais importantes. E mais uma vez podemos ter duas situações distintas: diante de um acidente com trauma craniano, um paciente não consegue evocar acontecimentos anteriores ao acidente (amnésia retrógrada) e outro indivíduo, num processo neurodegenerativo, não consolida novas lembranças e esquece rapidamente os acontecimentos ocorridos após o problema (amnésia anterógrada). O primeiro não lembra do passado e o segundo não grava o presente. Apesar de existirem vários outros aspectos a considerar sobre esse assunto, eles serão cenas dos próximos capítulos. No momento o importante é que da próxima vez que comentarmos que temos uma boa memorização ou que um filho, pai, mãe ou sogra estão esquecidos, lembremo-nos de que temos vários tipos de memória e que a resolução do problema depende também da identificação de qual está comprometida.domingo, 23 de outubro de 2011
São só garotos...
domingo, 9 de outubro de 2011
Como será?
quando vivermos mais tempo no mundo da lua,
quando soubermos observar melhor,
quando pudermos refletir destemidamente,
quando aceitarmos a nossa evidente ignorância,
quando compreendermos nossas motivações mais íntimas,
quando soubermos realmente escolher,
quando pudermos agir sem a imperiosa necessidade de conciliar tantos desejos,
quando conseguirmos desvencilhar de sentimentos e impulsos desnecessários,
quando soubermos distinguir claramente o que é agradável do que faz bem,
quando aprendermos a buscar o que é melhor e não só o que mais nos agrada,
quando tivermos mais tempo para menos ocupações,
quando precisarmos consumir menos,
quando conseguirmos desenvolver o desapego do corpo e da mente,
quando não precisarmos temer para ajudar,
quando, ao invés de amor pelos nossos, tivermos cuidado com tudo e com todos,
como será?
domingo, 2 de outubro de 2011
Idoso, vá procurar a sua turma!
terça-feira, 27 de setembro de 2011
Convivência harmônica
Neste último domingo participei de uma cavalgada com mais 14 pessoas, entre filhos e amigos, nos povoados de Marechal Deodoro, por aproximadamente 30 km. Foi um passeio muito agradável, embora cansativo, ao ponto de não conseguir realizar - embora tentado - a também agradável postagem dominical. Hoje, totalmente recuperado das 6 horas da cavalgada, senti a necessidade de comentar alguns momentos interessantes vividos naquele dia. Selamos os cavalos às 09:00h da manhã e saímos da Barra Nova em direção à praia do Francês, passando por outros povoados do mesmo município. Apesar de conhecer a região há aproximadamente vinte anos, montado no cavalo conheci lugares nunca antes visitados, desde as trilhas na capoeira e galopes com emoção nas dunas, até as paradas rápidas em lugares simples e aconchegantes, para descansar os animais e degustar uma saborosa comida. Tudo isso acompanhado de uma conversa animada e descontraída. Tudo isso proporcionado por uma antiga e intensa parceria: o homem e o cavalo. Uma dupla que desbravou continentes, participou de caçadas, preparou a terra para o plantio, transportou pessoas e enfrentou batalhas sanguinolentas. Ainda hoje, apesar dos avanços tecnológicos e sociais, esse animal ainda é essencial na batalha da vida de muitas famílias, seja na cidade ou no campo. E para crianças com transtornos do desenvolvimento, o movimento rítmico, preciso e tridimensional do equino - frente/trás, direita/esquerda, cima/baixo - permite uma intensa estimulação proprioceptiva (percepção do próprio corpo), favorecendo o aprimoramento das habilidades motoras, cognitivas e emocionais (equoterapia). Não é a toa que o cavalo desperte tanto entusiasmo nas pessoas, demonstrado no olhar curioso e atento de crianças e adultos quando a tropa passa. Não há quem consiga ficar indiferente a ele. A sua imponência, robustez e elegância hipnotizam qualquer espectador. Já para os cavaleiros, a segurança da montada, a força dos seus mais de trezentos quilos, a andadura em todo o tipo de terreno, a excitação do galope e o vento batendo no rosto fazem sentir um prazer sem tamanho, pisoteando todas as preocupações e aborrecimentos, restando apenas o cansaço de uma atividade plenamente satisfeita. É a harmonia entre a força e a sutileza, o concreto e o abstrato, a emoção e a razão...domingo, 18 de setembro de 2011
Como é mesmo o seu nome?
Em Os Sete Pecados da Memória, Schacter explica que o nome de uma pessoa, expontaneamente, revela muito pouco sobre o indivíduo. Saber que fulano é Igor, Artur ou Luciana não indica imediatamente característica alguma delas, dificultando associações e comprometendo a memorização. Consequentemente, não se forma uma exuberante rede semântica, ficando apenas um único e penoso caminho para a recordação. Diferente do substantivo comum - computador, casa -, que é possível estabelecer facilmente uma representação visual e conceitual: computador é algo retangular, resistente, elétrico e serve para digitar dados. Além disso, os substantivos comuns têm os sinônimos, que suprem no esquecimento: na falta de casa, posso falar residência ou moradia. Já Igor é totalmente diferente do Artur, que contrasta com a Luciana. Dois pecados da memória podem explicar este fenômeno: o bloqueio e a distração. No bloqueio o nome foi memorizado mas, por falta de atalhos, sua recordação se torna trabalhosa. Expressões como "tá na ponta da língua" ilustram o ocorrido. Na distração a pessoa, sem perceber, não prioriza a escuta do nome, direcionando sua atenção para outra situação mais urgente ou interessante, tendo como resultado a falha na codificação da informação e a ausência do armazenamento. Ansiedade, alterações do humor, stress e débito de sono podem intensificar tais situações. E pra complicar um pouco mais a busca da palavra, existe ainda o fenômeno chamado "irmãs feias" (em referência à história da Cinderela, quando as irmãs feiosas, filhas da madrasta, tentam impedir que a moça calce o sapato, escondendo-a e se antecipando forçosamente para o principe): quando tentamos arduamente lembrar do nome do conhecido, sugem outras palavras intrusas na cabeça, dando uma falsa sensação de verdadeira. Aí chamamos Amanda de Ana ou João de Adão. Geralmente são palavras com alguma semelhança na forma ou na sonoridade.
Mesmo considerando a imensidão de relacionamentos reais e virtuais estabelecidos atualmente, é possível minimizar esses incovenientes, evitando um possível constrangimento. Inicialmente é necessário prestar mais atenção no momento da apresentação, demonstrando um esforço cognitivo de criar intencionalmente uma associação entre o nome da pessoa com alguma característica dela (física, emocional) ou com algo/alguém conhecido (Adão - bigodão; Ana - mesmo nome de uma tia; João - nome de um grande papa). É essencial também repetir várias vezes o nome do indivíduo durante os primeiros segundos da conversa de apresentação, facilitando a retenção. Desta forma se ativa mais intensamente a região do giro frontal inferior esquerdo do cérebro, aprimorando a codificação e, consequentemente, a memória. Porém, parece que o mais difícil é se conscientizar que é preciso fazer algo e não acreditar - como eu - que os nomes vão surgir por geração espontânea ou fazendo força, para não correr o risco de ser forçado a pronunciar aquela desagradável pergunta: como é mesmo seu nome?
domingo, 11 de setembro de 2011
Pessoas inteligentes, mas indiferentes?
Assim como a inteligência, as outras habilidades cognitivas - memória, linguagem, funções executivas - são amorais, ou seja, destituídas de valores de conduta. São ferramentas a serviço de algo estrutural no comportamento humano: as emoções. Sendo assim, podem ser usadas tanto para construtir como para destruir, agregar ou separar, criar ou matar, apaziguar ou aterrorizar. Historicamente as habilidades cognitivas têm servido ao primitivo e intenso desejo de poder da humanidade, não só nas grandes batalhas, guerras, roubos e atentados, mas também no cotidiano de muitos adultos e crianças. Da África ao nordeste brasileiro, milhões de pessoas sofrem diariamente com a miséria, a violência e a indiferença de homens inteligentes. Aqui, bem perto da gente, mais de um milhão de alagoanos sobrevivem sem alimentação adequada, assistência médica e educação. E muitos dos nossos representantes e gestores têm altas habilidades cognitivas - inteligência privilegiada, memória prodigiosa, fluência verbal invejável -, com passagem em bons colégios e um currículum impecável. Outros, menos afortunados nestas capacidades, possuem um carisma contagiante ou um espantoso poder de articulação. Com tudo isso, os frequentes desvios de verbas e merendas, os assassinatos, os serviços públicos sucateados e a corrupção fazem com que o nosso estado permaneça eternamente na turma do fundão nas avaliações sociais e econômicas, sendo comparado pela revista inglesa The Economist com o Afeganistão, país devastado e acusado de ter abrigado Osama Bin Laden. Em nossas casas também nos deparamos com as brigas e mentiras dos nossos habilidosos e promissores filhos, pelo poder da nossa atenção. Na escola comportamentos agressivos, apelidos constrangedores com colegas, a chacota com o diferente, a resistência em obedecer regras, o desinteresse pela história. E nós, pais, estimulando cognitivamente nossos filhos com aulas particulares, cursinhos, intercâmbio, escola de línguas, para que eles fiquem bem preparados para o competitivo mercado de trabalho. Mas, o que estamos realmente preparando? Será que estudantes, profissionais, gestores inteligentes, mas pessoas indiferentes? Determinados e competentes em progredir e atingir metas, em detrimento do prejuízo e sofrimento alheio? Empreendedores, porém descontrolados? Desejo ardentemente que esta postagem xiita se exploda pelos exageros cometidos!
domingo, 4 de setembro de 2011
O cultivo da cognição
Segunda-feira passada estive num colégio infantil para observar um garoto que, segundo seus pais, já apresentava dificuldades escolares no jardim II. Como geralmente faço, após algumas informações com a equipe técnica da escola, permaneci por alguns momentos na sala, acompanhando silenciosamente as atividades desenvolvidas pela professora. À medida que a tia realizava as atividades - rodinha, leitura da estória da Chapeuzinho Vermelho, lanche coletivo -, pude identificar restrições importantes no desenvolvimento do garoto, principalmente na linguagem, atenção e na socialização. Apesar da intensa plasticidade cerebral presente nos primeiros anos da criança, ocasionando mudanças constantes no seu comportamento, bem como do início cada vez mais antecipado da vida escolar do estudante, alguns distúrbios - transtornos globais do desenvolvimento -, principalmente o espectro autista, precisam ser precocemente diagnosticados e estimulados, a fim de diminuir possíveis prejuízos cognitivos, sociais e funcionais. Entretanto, o diagnóstico dos transtornos de aprendizagem - dislexia, tda/h, discalculia, etc - precisa aguardar um pouco mais de tempo, sendo adequado por volta dos sete ou oito anos de idade.sábado, 27 de agosto de 2011
Uma difícil jornada
domingo, 21 de agosto de 2011
Receita - memória à moda da casa
1 situação ou evento completo
300g de motivação
1 litro de atenção
3 colheres de sopa de emoção
pitadas de compreensão
Modo de preparar
Retire toda a parte externa da situação e coloque o miolo numa panela, com 200g de motivação, 1/2 litro de atenção, uma pitada de compreensão e 1 colher de sopa de emoção (preferência agradável). Mexer repetidamente até reter na panela. Deixe a massa adormecer por um bom tempo... Em seguida coloque na forma untada com 2 colheres de emoção e leve ao forno, em fogo brando, por algumas horas. Antes de resgatar do forno acrescente mais 100g de motivação e o restante da atenção. Está pronta a Memória à Moda da Casa!
Retire toda a parte externa da situação e coloque o miolo numa panela, com 200g de motivação, 1/2 litro de atenção, uma pitada de compreensão e 1 colher de sopa de emoção (preferência agradável). Mexer repetidamente até reter na panela. Deixe a massa adormecer por um bom tempo... Em seguida coloque na forma untada com 2 colheres de emoção e leve ao forno, em fogo brando, por algumas horas. Antes de resgatar do forno acrescente mais 100g de motivação e o restante da atenção. Está pronta a Memória à Moda da Casa!
Modo de servir
Deixe esfriar e sirva sozinha ou acompanhada de outros pratos quentes ou frios. Deve ser conservada em lugar aberto e arejado, com prazo de validade indeterminado, porém com algumas alterações no sabor no decorrer do tempo.
Observação
Evite exageros: a abstinência ocasiona alienação e a ingestão exagerada pode provocar mal estar, indigestão, insônia e diminuição dos reflexos.
domingo, 14 de agosto de 2011
Preservando a família
Saboreando os olhares e os abraços carinhosos dos meus três filhos neste domingo dos pais, fiquei quieto e me divertindo ao ver alguns comportamentos neles que acredito serem meus: o interesse por instrumentos musicais, a intensa necessidade de frutas na alimentação, dormir com os olhos vendados, o prazer do contato com cavalos e com a natureza. Ainda bem que na socialização "puxaram à mãe", porque se dependessem da minha habilidade social... É claro que vários outros comportamentos deles têm influência dos pais - genética ou psicológica -, favorecendo não só as suas virtudes mas também as suas limitações mas, sendo hoje o meu dia, sinto-me no direito de me embriagar com algumas doses de vaidade paterna, comentando apenas algumas influências que considero positivas. Mesmo morando na cidade, em apartamento, o gosto pelo ambiente rural - contato com animais e plantas - é uma das características mais marcantes da minha família. Já no meu tempo de criança o quintal da casa e as árvores eram o playground, e os animais - galinhas, cágado, mocó, peixe, cachorro, sagui - faziam parte do entretenimento, mas também das responsabilidades (alimento, banho, limpeza). Possivelmente nesta fase nasceu o meu interesse em observar comportamentos. Lembro que certo dia, querendo enfeitar o aquário com vários peixes e ornamentos, um criador experiente me falou da importância de se criar um ambiente equilibrado quimicamente (evitasse materiais e objetos que tornassem a água muito ácida ou muito alcalina) e no relacionamento entre os peixes (optasse por espécies que convivessem sem agressividade). Foi a primeira vez que ouvi alguém destacar a dificuldade e a importância de se criar e manter um ambiente em harmonia. Mais tarde, iniciando o curso de biologia, o equilíbrio e a influência mútua voltaram a ser os destaques no estudo da biodiversidade. Nesses últimos anos, assistindo aos vários documentários sobre mamíferos e primatas, a complexidade das relações entre os membros num determinado habitat, seja nas árvores, em tocas ou num determinado território da savana africana tem me deixado perplexo. Comportamentos tradicionalmente classificados como exclusivos de pessoas, dos mais egoístas aos altruistas, são cada vez mais identificados nos animais.domingo, 7 de agosto de 2011
Felicidade é poder
domingo, 31 de julho de 2011
Consumidores na vida
segunda-feira, 27 de junho de 2011
É hora de dormir!
A aparência de uma pessoa adormecida - olhos fechados, imobilidade, resposta reduzida a estímulos - parece transmitir uma falsa impressão de marasmo, inoperância e "perda de tempo". Mas se pudéssemos assistir aos fenômenos que se desenvolvem quando fechamos os olhos, ficaríamos impressionados com a complexidade dos acontecimentos ali encobertos. Muita coisa acontece nos bastidores do sono, dividido em fases com ou sem movimentos dos olhos, atividade elétrica cerebral variada, sonhos mais ou menos bizarros, alterações cardíacas, do tônus muscular, etc, repetindo-se em ciclos de aproximadamente 70 minutos, durante toda a noite. Se a arquitetura for executada adequadamente, sem várias interrupções (despertares), acordaremos reparados fisiológicamente, dispostos cognitivamente e tranquilos emocionalmente. Em se tratando de crianças, este processo se torna ainda mais relevante, necessitando elas de um sono em maior quantidade e qualidade (horários regulares, dormir sem tv ligada, sem respirar pela boca, temperatura adequada no quarto).
Então, como conciliar a necessidade fisiológica de dormir, aprimorada em milhares de anos, com as peculiaridades da modernidade - uma programação "infantil" ininterrupta na televisão, intermináveis conversas na internet, jogos eletrônicos com intrincadas e excitantes estratégias? Como permitir que crianças e adolescentes ocupem as noites com atividades de entretenimento, dormindo após às 22 ou 23:00h, em detrimento de uma necessidade psicobiológica e, no outro dia, acordem às 06:00h, espontaneamente e com disposição para as demandas escolares, esportivas, sociais e familiares do dia? Como esperar que eles consigam, sem respeitar o próprio funcionamento, tirar o melhor de si para aprender o que é extensamente falado pelos professores?
Embora ainda não esteja "tirando o meu sono", inquieta-me ver tal situação, pela crescente dificuldade familiar de se estabelecer horários de sono, mas sobretudo de distinguir atividades, eventos e comportamentos infantis, dos adultos.
domingo, 15 de maio de 2011
Lembrar e esquecer: faces de uma mesma memória
Quando alguém comenta que está com problemas de memória sempre imaginamos que ele esteja se queixando de esquecimento, seja do nome de pessoas conhecidas, do local onde guardou algum objeto ou de um compromisso. Estes episódios são incômodos pelo constrangimento, perda de tempo e prejuízos que provocam. Numa escala progressiva podem indicar um processo neurodegenerativo que, além desses e outros esquecimentos, também corrói a individualidade. Precisamos da memória para sabermos e sermos quem somos e, uma vez iniciada a demolição da capacidade de se lembrar, serão identificadas destruições na estrutura da personalidade, com mudanças no jeito de pensar, sentir e agir. A possibilidade de desenvolver uma síndrome demencial tem sido a maior preocupação quando se fa la em esquecimento - para pessoas com mais de 50 anos -, aumentando o interesse por exercícios e estratégias para facilitar as lembranças, como a leitura, palavras cruzadas, cursos, etc. Ter uma memória saudável significaria então demonstrar uma exuberante capacidade de evocar eventos. Mais ou menos. Para realizarmos as atividades diárias - manuais, intelectuais, afetivas, sociais - precisamos realmente ter disponíveis recordações recentes e remotas, e os exercícios cognitivos aumentam a prontidão mental. Porém ter uma memória saudável implica também em...esquecer! Por incrível que pareça o esquecimento, em determinado nível, contribui para uma excelente memória, ou melhor, para uma memória funcional. Pacientes com uma excelente memória conseguem, infelizmente, lembrar-se de quase todos os episódios ocorridos há décadas: propagandas de tv, visitas recebidas, discussões, noticiários, aborrecimentos, refeições realizadas. Tais pessoas, embora poucas, procuram médicos e especialistas para ensiná-las a esquecer. Não conseguem desfrutar o presente por serem inundadas pelo passado, com um fluxo avassalador de lembranças inúteis. Com uma retenção menos prodigiosa, pessoas rancorosas e depressivas também desperdiçam momentos relembrando, detalhadamente, raivas e frustrações. Na memória funcional a habilidade de lembrar (algo relevante) é proporcional à de esquecer (trivialidades). E se pararmos para lembrar e refletir um pouco veremos que, por melhor que tenha sido a nossa história, de um modo geral os fatos irrelevantes, repetitivos ou até mesmo desagradáveis foram mais numerosos. Precisamos, sem maiores preocupações, lembrar de esquecer algumas coisas para que possamos evocar não só lembranças, mas a sensação de estar vivo, para vivenciarmos novas - e de preferência agradáveis - experiências.
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