Mostrando postagens com marcador Socialização. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Socialização. Mostrar todas as postagens

domingo, 6 de maio de 2012

Animais

      O desenvolvimento urbano de uma região geralmente resulta num desequilíbrio ambiental, comprometendo as espécies animais e vegetais, porém com a permanência de alguns exemplares mais adaptáveis. Lá na Barra Nova a destruição da capoeira pela expansão imobiliária vem destruindo o habitat de mamíferos, aves e répteis, além da vegetação nativa. Porém, alguns pássaros e mamíferos continuam no território, resistindo bravamente à invasão humana. Um deles é um inquilino ágil e travesso, que se move pela fiação elétrica e antenas de tv das casas, pula muros e telhados, procurando os pés de caju, manga e goiaba das residências: o sagui. Hoje, quando voltei ao povoado, na expectativa de encontrar frutas bem madurinhas em casa, mais uma vez cheguei tarde: os pequenos macacos já tinham feito a festa e só encontrei o resto no chão. Enquanto apanhava as sobras da farra da macacada, escutei os guinchos e assobios emitidos de longe; em seguida, mais próximos, presenciei uma briga barulhenta entre dois machos, provavelmente por ascensão social ou competindo por uma fêmea (dizem que o sagui demonstra sua superioridade na hierarquia mostrando seu traseiro ao outro). Entre residências e automóveis, o primata sobrevive e mantém seus antigos hábitos. É o convívio do primitivo com o novo, do rudimentar com o civilizado.
         Um pouco frustrado por não fazer a colheita desejada, não demorei muito e fui almoçar com  familiares. No final da tarde, regressando para Maceió, encontrei os rotineiros malabaristas no semáforo, tentando descolar um trocado. Um pouco mais a frente, numa marquise de uma grande loja, um amontoado de adolescentes me chamou a atenção: maltrapilhos e com uma aparência pré-histórica, eles se envolviam numa briga feroz. Uma mão segurando um garrafa de plástico com cola de sapateiro e a outra com uma grande pedra, dois garotos se ameaçavam intensamente. A agressividade estampada nos olhos e corpos imundos, o jeito como se movimentavam e a excitação do grupo para ver quem seria o mais forte foi algo chocante! Uma bizarra situação que parecia mais uma cena de documentário do History sobre  civilizações primitivas. Só que estava acontecendo no século vinte e um e eu estava presenciando. Estava testemunhando pessoas - como eu e meus filhos - vivendo e se comportando como animais selvagens; usando substâncias psicoativas, que causam danos até irreversíveis nos circuitos cerebrais responsáveis pela aprendizagem e pelo controle dos impulsos; eu estava assistindo à ausência total do Estado e o resultado de décadas de irresponsabilidade e desumanidade dos nossos representantes e gestores públicos (referendados pela nossa conveniente conivência), numa disputa eterna para ser o macho alfa.
        Gostaria muito de poder continuar presenciando cenas de comportamento selvagem apenas nos saguis e não em pessoas, que as disputas ficassem nos estádios e quadras esportivas, que a urbanidade predominasse no ambiente urbano, e que pudéssemos ser mais eficientes em identificar nuances de condutas animalescas, extinguindo-as civilizada e democraticamente.

domingo, 25 de março de 2012

Dor de cabeça

        Durante a minha infância e adolescência presenciei a preocupação dos meus pais – e outros adultos – quando alguém levava uma pancada na cabeça: rapidamente colocavam gelo para o galo não crescer. Quando vinha acompanhada de sonolência e vômito o temor aumentava bastante, sendo o garoto geralmente conduzido ao serviço de urgência. Embora estes sinais venham sendo minimizados pelos neurologistas – não indicando necessariamente um agravamento do acidente – a cabeça continua a ocupar o primeiro lugar no ranking de cuidados com ferimentos, tanto pelos médicos, quanto pelas famílias. E não é à toa, pois abriga a maior concentração de células muito complexas, especializadas em conduzir e transmitir impulsos: os neurônios.
       No adulto são aproximadamente 100 bilhões de unidades que, desde a gestação, passam por várias fases, iniciando com a proliferação controlada, continuando com a migração para regiões específicas do cérebro, ocorrendo em seguida a diferenciação celular, formando os circuitos neurais, eliminando as células e circuitos redundantes (“poda”) e mielinizando o axônio (terminação transmissora do neurônio, envolvida pela bainha de mielina, que é a responsável pela rápida condução do impulso nervoso). São etapas iniciadas no útero e continuadas após o nascimento. Com uma adequada alimentação e estimulação (afetiva e cognitiva), a mielinização se espalha no cérebro mais intensamente nas duas primeiras décadas de vida, de trás para frente (das regiões posteriores do cérebro, essencialmente perceptivas, para as anteriores, executivas). O desenvolvimento pleno resulta no andar, falar, ler, aprender e muitos outros comportamentos que tanto encantam e emocionam os pais ao longo do crescimento do filho. Mas, por outro lado, se nos circuitos relacionados com a cognição houver alterações nas etapas (forma e função), haverá também limitações na linguagem, atenção, interação com pessoas ou no controle dos impulsos, ocasionando desvantagens na socialização e na aprendizagem.
       Nas crianças, as modificações relevantes no código genético se destacam na origem dos transtornos de aprendizagem, enquanto nos adultos o uso de drogas, infecções, AVE (acidente vascular encefálico), síndromes demenciais e TCE (traumatismo cranioencefálico) respondem pelas limitações cognitivas (esquecimento, desatenção) e comportamentais (agitação, agressividade), ao ponto de comprometerem gravemente o desempenho social e profissional. Apesar da existência de sistemas de proteção do sistema nervoso – crânio, líquor e as meninges – o tecido nervoso torna-se vulnerável diante de estímulos mecânicos intensos e/ou repetidos, devido ao impacto da massa encefálica contra as paredes do crânio. Já fiz avaliação neuropsicológica em vários pacientes que desenvolveram mudanças profundas da personalidade, prejuízos significativos da memória de trabalho e das funções executivas após quedas, acidentes com veículo, moto e até bicicleta. A reabilitação cognitiva nestes casos é um processo longo, penoso e com resultados nem sempre animadores.
       Infelizmente parece que este grupo de pacientes vai aumentar, com a globalização do MMA, pretensa prática esportiva, cuja "vitória" resulta sempre no intenso sofrimento físico do adversário (não seria mais adequado chamá-lo de vítima?), tem como um dos principais alvos a cabeça e como lance mais desejado (gol de placa)  o nocaute - concussão cerebral.  Como é possível, diante da complexidade, importância e vulnerabilidade do funcionamento cerebral, considerar o MMA um esporte (atividade que surgiu inicialmente com fins militares, mas que progrediu como uma fantástica maneira de sublimar tendências humanas primitivas)? Assim como nas propagandas dos cigarros, a divulgação desta luta deveria informar aos gladiadores a possibilidade de desenvolverem a Demência do Pugilista - processo neurodegenerativo que cursa com declínio cognitivo acentuado e outras alterações motoras.  
       Para uma sociedade tão agredida pela violência urbana como a nossa, certamente o MMA (e semelhantes) terá uma enorme popularidade (com grandes lucros, é claro), confirmando a idéia que  o desenvolvimento de uma pessoa, comunidade ou espécie não significa sempre passos à frente. E como o aumento do número de praticantes com lesões físicas e mentais não terá a mesma publicidade que os bizarros e sanguinolentos combates, teremos também que entrar no coliseu e lutar! Usando a cabeça, lutaremos contra a falta de informação, a desinformação e a tentativa de tornar natural comportamentos arcaicos e desnecessários que, como dito no dia 11/03 (“Cutucando a onça com vara curta”), precisam ser sublimados e não estimulados.

domingo, 11 de março de 2012

Cutucando a onça com vara curta

       No final da manhã dia 29 de fevereiro, quarta-feira, precisamente às 11:30h, recebi um telefonema da minha esposa: com a voz embargada, disse que tinha sido assaltada naquele momento, na entrada do banco, e que eu fosse imediatamente para lá. No trajeto, aprisionado entre um semáforo e outro, tentava imaginar a situação ocorrida com ela, lembrando de outros episódios ocorridos com familiares e amigos. Ao entrar na agência, encontrei Adriana sentada na cadeira, angustiada, com a gerente ao lado confortando-a e tomando algumas providências - bloqueando os cartões, sustando os cheques. Outras pessoas em volta, solidários, lamentavam mais um assalto a mão armada e criticavam a falta de segurança em nosso estado (embora o desenvolvimento das grandes cidades - infraestrutura, maior oferta de serviços e empregos - demore décadas para iniciar, suas mazelas chegaram rapidamente). Quando saímos, passando pela cena do crime e conversando com algumas testemunhas, comecei a vivenciar emoções e pensamentos bem pouco civilizados, perdendo a tranquilidade no resto do dia.
       Uma semana depois, durante a entrevista inicial de uma avaliação neuropsicológica, os pais de um paciente relataram, após se queixarem do prejuízo escolar do garoto, que a residência deles havia sido invadida por três indivíduos fortemente armados. Por várias horas ficaram sob a mira de pistolas - mãe, pai, filho - sendo ameaçados de morte constantemente. Embora não seja delegado nem trabalhe num ambiente policial, não é raro que assaltos, furtos e assassinatos sejam comentados pelos pais e pacientes nas consultas, misturando-se às queixas de dificuldades de atenção ou de memória. Se acrescentar as notícias diariamente divulgadas pela imprensa, tendo a violência como arma principal, chegarei facilmente a conclusão que estamos vivendo novamente num ambiente selvagem, como há milhares de anos. Cada vez mais amedrontados, desconfiados e ansiosos, estamos perdendo gradativamente o direito de ir e vir; nossos filhos estão trancafiados em apartamentos, casas eletrificadas ou televisionadas; forçosamente temos que aumentar os gastos com serviços e equipamentos de segurança e, acima de tudo, somos obrigados a conviver com uma intensa e patológica sensação de insegurança.
       Como se não bastasse, este estado psicológico implica em intensas alterações hormonais e de neurotransmissores que, se prolongadas, resultam ou intensificam doenças (hipertensão, diabetes, acidente vascular encefálico, cancer, gastrite, dermatite, dores em geral) e transtornos (ansiedade, humor, stress pós-traumático). Além disso, desperta tendências comportamentais bizarras, utilizadas nos primórdios da humanidade. A agressividade é tão antiga no ser humano quanto o seu cérebro, e foi essencial na sobrevivência da espécie num ambiente hostil; ambos têm uma longa história de mudanças e adaptações, mas a tendência animalesca continua potencialmente presente em cada um de nós. Existem áreas e redes neurais relacionadas com a brutalidade das nossas condutas: giros temporais e o sistema límbico, região presente nos mamíferos em geral, onde são processadas as emoções e formada pelo tálamo, hipotálamo, hipocampo, amígdala e giro do cíngulo. São estruturas como a amígadala, sentinela cerebral que confere conteúdo emocional aos estímulos captados - classificando-os como perigosos ou não -, e o hipotálamo, responsável também pela expressão e manifestação somática da emoção. A visão de uma pessoa desconhecida, a percepção de que se trata de um assaltante, a sensação de medo, o aumento dos batimentos cardíacos e as reações de lutar, fugir ou fingir-se de morto acontecem em segundos, nessa área profunda do sistema nervoso, antes mesmo que possamos refletir sobre o assunto (fenômeno que envolve principalmente o córtex cerebral, cujo trajeto neuronal é mais longo e, consequentemente, mais lento).
       O problema é que o sistema límbico foi desenvolvido para um contexto primitivo, perigoso, desprovido de linguagem verbal e de princípios éticos, com relações interpessoais provavelmente pouco cordiais. Permitir que nas esquinas, ônibus, metrôs, morros e residências prolifere a insegurança e o medo é atiçar tendências que devem ser sublimadas. A História está repleta de períodos de intensa violência e crueldade, praticada isolada ou coletivamente - o holocausto na segunda guerra, atentados terroristas, matança atual de civis na Síria,  tortura e morte do ex ditador da Líbia, Muamar Kadafi, e os milhares de homicídios praticados em Alagoas nos últimos anos.
       Precisamos urgentemente reagir de alguma forma, senão cedo ou tarde seremos vítimas ou agressores! E pouco adianta blindar veículos, comprar equipamentos com alta tecnologia, contratar seguranças 24h, ter direito a proteção policial, pois o predador tem tempo e sempre aguarda um momento de descuido da presa ou do filhote que, em algum momento, acontecerá. Poderíamos então utilizar uma outra área cerebral, o córtex, em especial as áreas pré frontais (região essencialmente humana), para reconhecer o problema, identificar as possíveis causas do aumento da criminalidade - como a também primitiva e desenfreada sede de poder presente na maioria dos nossos políticos, semelhante à dos macacos, lobos e leões -, com o objetivo de planejar  e executar estratégias (aprimorar os critérios de escolha dos nossos representantes e monitorá-los sistematicamente, preferir açoes coletivas às individuais, provocar as secretarias de estado, Ministério Público, OAB, imprensa nacional e internacional, etc). Nos últimos milênios o homem vem adquirindo conhecimentos, criando novas tecnologias e transformando o mundo. Está na  hora de priorizar as mudanças no meio interno, abandonando tendências desnecessárias e inadequadas. Mas, para isto, temos que deixar o bicho quieto!

domingo, 20 de novembro de 2011

Contágio social - segunda parte

      Após uma manhã ensolarada, com direito a banho de mar na bela praia do Francês, resolvemos almoçar uma saborosa peixada de arabaiana, acompanhada de uma deliciosa fritada de camarão, à beira da lagoa Mundaú. Ao final,  quando recebemos a conta do garçom, vieram também  alguns confeitos - para os estrangeiros, balas - e começamos a disputá-los, quando um dos amigos levantou a hipótese de que aquela doce oferta teria como objetivo  amenizar uma possível indigestão do pagamento. Nos despedimos, cada um tentando ainda convencer o outro da sua tese sobre as intenções do restaurante com aquele mimo. Chegando em casa, a fim de facilitar o atendimento a outra necessidade, pego uma velha revista Mente e Cérebro e encontro um artigo que me deixou peristáltico: uma pesquisa do psicólogo social David Strohmetz, em 2002 (Nova Jersey), realizada num restaurante, para verificar a relação entre a distribuição de doces com os clientes e o tamanho da gorjeta. Sem muita surpresa, o grupo que foi premiado pelo garçom com um bombom deu gorjeta com um aumento de, em média, 3,3 % em relação aos clientes que não receberam o doce; o segundo grupo que recebeu duas guloseimas aumentou suas gorjetas em  14,1%. No entanto, o interessante foi o crescimento de 23% demonstrado pelas pessoas que receberam um bombom e outro em seguida, após alguns instantes. Com o título "O poder da persuasão", o artigo também relatou a pesquisa de outro psicólogo  - Robert Cialdini (Universidade Estadual do Arizona) -, sobre a influência social, afirmando que tomamos os outros como exemplo quando não temos certeza do que fazer e que valorizamos a opinião dos que estão em posição de poder. Algumas páginas à frente, um estudo descobriu que, "quando um arrecadador de doações mostrava aos moradores uma lista de vizinhos que haviam dado contribuições para uma instituição de caridade, o número de contribuições aumentava significativamente; quando maior a lista, maior o efeito". Algumas dessas tendências já tivemos oportunidade de sentir ou observar em crianças, copiando comportamentos nem sempre adequados de colegas de escola, adolescentes imitando o jeito de vestir e falar de seus ídolos, adultos tomando algumas "decisões" semelhantes às pessoas do seu grupo, seja no vestuário, lazer, compras ou filosofia de vida, e até idosos numa velada disputa pelo ranking de caridades. Não é a toa que restaurantes, hotéis e outros presenteiam seus clientes, que empresas de marketing e propaganda continuam a expor celebridades ou multidões utilizando um produto ou  serviço. Será que somos então uns ratos de laboratório, limitados a fugir de uns estímulos e se aproximar de outros? Ainda acredito que não, e que temos a possibilidade de aprender a realizar algumas escolhas. A ciência, entretanto, tem fornecido evidências de que a capacidade de tomar decisões imparciais é menor que imaginávamos ou gostaríamos (até neurônios especializados em imitar o comportamento de outra pessoa - seja no movimento, na linguagem e nos sentimentos - foram identificados em humanos, denominados neurônios espelho. Estas células, espalhadas em várias regiões do cérebro, são essenciais à aprendizagem). Mas, quem sabe assim - considerando a real, inevitável e nem sempre consciente influência social - poderemos aceitar o confeito do garçom, assistir ao comercial condicionante e ouvir a estratégia do vendedor ou do orador e, com serenidade, aprimorar a liberdade de escolha.

domingo, 6 de novembro de 2011

A excelência está no ar

      Com muita velocidade ele passou com um estrondo sobre a multidão e subiu vertiginosamente até quase a vista não alcançar: parecia um foguete em direção ao infinito; fiquei acompanhando, admirado, pra ver o seu limite e, de repente, ele despencou, dando várias cambalhotas, como se estivesse descontrolado e mais uma vez voltou a cortar os ares bem próximos de nós. Realmente valeu a pena cancelar uma hora do consultório para assistir à apresentação da Esquadrilha da Fumaça nesta terça-feira, 01 de novembro. Tendo como cenário a bela praia da Avenida, presenciamos um grande espetáculo: aviões surgiram de todos os lados, isolados ou em formação - dois, quatro, seis -, escrevendo, desenhando e dançando nos céus de Maceió. Com meu filho e outras centenas de pessoas, ficamos encantados com as proezas dos pilotos e das aeronaves em realizar aquelas  coreografias aéreas, manifestando perícia e ousadia extremas. Foi um final de tarde arretado! No retorno para o consultório não consegui descer das nuvens e, ainda impressionado, lembrei da última apresentação em 2004 e da alegria vivenciada. Mais uma vez me encantei não só com a beleza e a técnica apresentadas mas, sobretudo, pela excelência demonstrada e o bem estar proporcionado a tantas pessoas naquele local. Embora quando se fala nisso lembra-se logo dos esportes, pela fascinação que despertam em milhões de pessoas nos estádios e ginásios na espera do movimento perfeito  - chute, salto ou lançamento -, no ambiente profissional somos também cada vez mais solicitados a aprimorar nossos procedimentos em termos de diagnósticos e resultados para continuarmos empregados. E até no convívio social, condutas que há pouco tempo atrás eram consideradas normais - fumo, bullying, desperdício dos recursos naturais, liderança bruta, autossuficiência, consumo desenfreado - vêm sendo questionadas, modificadas, aperfeiçoadas e globalizadas. É claro que o requinte de um comportamento necessariamente não é sempre construtivo e pode ser direcionado para a destruição, sofrimento e morte (postagem de 11/09 - "Pessoas inteligentes, mas indiferentes?"), mas naqueles minutos que fiquei olhando para o céu acompanhando os ases, senti um grande orgulho de ser humano e bastante estimulado a ser melhor; em desenvolver com perícia e ousadia a minha excelência, para contribuir com o bem estar de algumas pessoas.

domingo, 2 de outubro de 2011

Idoso, vá procurar a sua turma!

      No auditório da Santa Casa de Misericórdia de Maceió, dezenas de pessoas, a maioria entre sessenta e setenta anos, demonstraram disposição juvenil no Curso de Envelhecimento Ativo, perguntando sobre memória, atenção, Alzheimer e outros distúrbios psiquiátricos. Isto ocorreu na quarta-feira passada, quando apresentava a disciplina Memória e Envelhecimento. Como professor do curso de psicologia que fui, sempre me entusiasmei com a motivação da turma, mas o interesse manifestado por esses alunos foi tão numeroso quanto a idade deles. Durante a apresentação uma estudante me perguntou como evitar a perda da memória e aproveitei para dizer que, entre outras coisas, o fato de estarem ali buscando conhecimento já seria também um comportamento protetor para a retenção, permanecendo conectados à vida. Lembrei que há pouco tempo atrás a realidade do idoso era outra: para a maioria com mais de sessenta anos, a vida se apagava rapidamente na aposentadoria, restando apenas algumas visitas a familiares e médicos e sentar no trono do apartamento, com a boca escancarada, cheia de dentes, esperando a morte chegar (Raul Seixas). Nos últimos cinquenta anos não só a expectativa de vida aumentou (em 1960 era de 54 anos e 2010 de 73 anos), mas principalmente a expectativa da vida também cresceu, ou seja, as pessoas fazem mais planos, estudam, viajam e trabalham (embora, como toda turma, existem os que ficam alheios ao novo conhecimento e se isolam nos seus pensamentos e frustrações). E apesar de enfrentarem dificuldades - familiares, financeiras, na saúde -, estão vivendo mais e com melhor qualidade. Assim é a minha turma do Envelhecimento Ativo, que faz parte do grupo que mais cresceu na última década, segundo os resultados do Censo de 2010 (IBGE), correspondendo a 12 % da população brasileira, sendo mais de 20 milhões de pessoas. Detalhe: muitos deles são responsáveis financeiramente pelo domicílio que residem, tendo sob seus cuidados filhos, netos e outros parentes. A tendência é que assumam, cada vez mais, um papel de destaque na sociedade brasileira, transformando-se numa força trabalhadora, eleitoral e de consumo, influenciando mais decisivamente não só nas decisões políticas, mas também na produção e serviços oferecidos. Provavelmente teremos então produtos mais saudáveis nas prateleiras dos supermercados, programas de televisão com entretenimento e informação responsáveis, edificações e vias públicas adaptadas, além de uma maior cobrança das políticas públicas (saúde, educação, transporte, segurança). Isso não quer dizer o envelhecimento santifica as pessoas e que seremos felizes para sempre, até porque existem aqueles que, segundo minha mestra gaúcha Mirna Português, "apodrecem mas não amadurecem" - Paulo Maluf foi acusado, ao setenta anos, de desviar cerca de um bilhão de reais de obras; no interior de Alagoas um grupo de idosos foi preso acusado de pedofilia. Mas acredito intensamente que o aumento da população idosa venha favorecer os avanços sociais no Brasil e atitiudes mais consequentes no mundo  - já que é um fenômeno que vem acontecendo em vários países. Por isso, jovens que cresceram sem veículos na garagem, televisão, celular, computador e internet, juntem-se, continuem aprendendo e sendo atuantes, porque nós precisamos de vocês!

domingo, 11 de setembro de 2011

Pessoas inteligentes, mas indiferentes?

     Há vários dias a imprensa vem divulgando repetidamente  os atentados terroristas do dia 11 de setembro de 2001, nos EUA, apresentando detalhes dos sequestros dos aviões, da destruição total das torres gêmeas e parcial do pentágono. Desde as características dos sequestradores, com a preparação (técnica e emocional) até o planejamento e execução das ações. Foi realmente impressionante! Como um grupo de pessoas consegue invadir a casa do inimigo e, com as suas próprias armas, ocasionar tamanho estrago? Como uma organização consegue causar um dano tão intenso na maior potência econômica e bélica do planeta? Como superar um país com a maior tecnologia do mundo e com um check in tão rigoroso nos aeroportos? Com inteligência! Quanto mais nos informamos dos bastidores dos atentados, mais evidente fica a refinada elaboração dos planos de Bin Laden e cia. Com criatividade, capacidade de planejamento, flexibilidade mental, operacionalidade, controle de impulsos e monitoramento, eles executaram uma das ações  mais audaciosas dos últimos tempos. Sim, realmente eles foram muito espertos! Com inteligência, eles mataram quase três mil pessoas, afundaram os americanos num gasto de bilhões de dólares em dez anos e intensificaram o medo na população (pesquisas indicaram um aumento dos casos de transtornos depressivos e de ansiedade após os atentados nos EUA). Para muitos estas considerações podem ser absurdas e insensíveis - "isto não é inteligência, e sim maldade!" - mas, infelizmente isso é inteligência, ou pelo menos corresponde a alguns tipos, já que parece que temos vários (Gardner identificou a existência de múltiplas inteligências, como a lógico-matemática, linguística, cinestésica, interpessoal, intrapessoal, entre outras). 
      Assim como a inteligência, as outras habilidades cognitivas - memória, linguagem, funções executivas - são amorais, ou seja, destituídas de valores de conduta. São ferramentas a serviço de algo estrutural no comportamento humano: as emoções. Sendo assim, podem ser usadas tanto para construtir como para destruir, agregar ou separar, criar ou matar, apaziguar ou aterrorizar. Historicamente as habilidades cognitivas têm servido ao primitivo e intenso desejo de poder da humanidade, não só nas grandes batalhas, guerras, roubos e atentados, mas também no cotidiano de muitos adultos e crianças. Da África ao nordeste brasileiro, milhões de pessoas sofrem diariamente com a miséria, a violência e a indiferença de homens inteligentes. Aqui, bem perto da gente, mais de um milhão de alagoanos sobrevivem sem alimentação adequada, assistência médica e educação. E muitos dos nossos representantes e gestores têm altas habilidades cognitivas - inteligência privilegiada, memória prodigiosa, fluência verbal invejável -, com passagem em bons colégios e um currículum impecável. Outros, menos afortunados nestas capacidades, possuem um carisma contagiante ou um espantoso poder de articulação. Com tudo isso, os frequentes desvios de verbas e merendas, os assassinatos, os serviços públicos sucateados e a corrupção fazem com que o nosso estado permaneça eternamente na turma do fundão nas avaliações sociais e econômicas, sendo comparado pela revista inglesa The Economist com o Afeganistão, país devastado e acusado de ter abrigado Osama Bin Laden. Em nossas casas também nos deparamos com as brigas e mentiras dos nossos habilidosos e promissores filhos, pelo poder da nossa atenção. Na escola comportamentos agressivos, apelidos constrangedores com colegas, a chacota com o diferente, a resistência em obedecer regras, o desinteresse pela história. E nós, pais, estimulando cognitivamente nossos filhos com aulas particulares, cursinhos, intercâmbio, escola de línguas,  para que eles fiquem bem preparados para o competitivo mercado de trabalho. Mas, o que estamos realmente preparando? Será que estudantes, profissionais, gestores inteligentes, mas pessoas indiferentes? Determinados e competentes em progredir e atingir metas, em detrimento do prejuízo e sofrimento alheio? Empreendedores, porém descontrolados? Desejo ardentemente que esta postagem xiita se exploda pelos exageros cometidos!

terça-feira, 10 de maio de 2011

Contágio Social - primeira parte

      Há dois dias venho tentando digerir o conteúdo do artigo Contágio Social (Mente Cérebro - maio/2011) que, embora tenha sido publicado numa revista com alguma credibilidade, identificadas as referências bibliográficas que fundamentaram o artigo, comentado sobre alguns detalhes das inúmeras pesquisas, com milhares de pessoas, não tem sido fácli absorver as informações apresentadas. Por isso separei alguns trechos que me impressionaram e que venho, ao longo destas 48 horas, ruminando:
1 -"...não apenas agentes patogênicos são transmitidos de uma pessoa para outra, mas também comportamentos - seja o riso ou atos suicidas, decisões sobre compras ou costumes alimentares. Esse contágio social, domina várias áreas de nossa vida, frequentemente sem que tenhamos consciência disso";
2 - "Que o bem-estar das pessoas depende fortemente de quão os outros que estão à sua volta sejam felizes foi comprovado em 2009 pelos economistas John Knight, da Universidade de  Oxford...";
3 -"... a felicidade individual não podia ser explicada apenas por fatores sociais: condições materiais para o bem-estar, trabalho que trouxesse satisfação e principalmente a saúde física desempenhavam importante papel. A isso, acrescenta-se o fato de que redes sociais são estruturas complexas, nas quais vários sentimentos são transmitidos ao mesmo tempo";
4 -"Não apenas sentimentos, mas desejos e planos de vida aparentemente são também contagiosos";
5 - "Quando as pessoas podem fazer o que querem, em geral imitam as outras";
6 -"O ato de imitação mútua tem como base a semelhança entre os membros de um determinado grupo. Similaridades criam confiança e compreensão mútua. Principalmente por esse motivo, médicos tendem mais a ser amigos de médicos e pedreiros de pedreiros";
7 - "Apesar de quase sempre nos propormos a agir de forma autônoma, frequentemente assumimos o ponto de vista daqueles que estão próximos";
8 - "O objetivo máximo dos membros de uma rede de convivência é provar que pensam, sentem e agem da mesma forma que os outros - embora não tenham consciência dessa tendência. Isso fortalece a identidade do grupo, estimula a cooperação e a sensação de pertenciamento...";
9 - "Inúmeros estudos comprovam que o isolamento social representa um risco à saúde".
     Embora o senso comum já tenha alertado, com os seus ditados populares, para a importância e o impacto das companhias no comportamento do indivíduo("Dizei-me com quem andas e eu te direi quem és"), e a sociologia - de uma maneira mais estruturada - pesquisando sobre os fenômenos sociais e analisando  as relações de interdependência entre os homens, minha ignorância sobre o assunto foi determinante para o estado de perplexidade diante da intensidade e amplitude dos argumentos. A priori vislumbro que, havendo algo de real nesse artigo, as implicações na compreensão do comportamento individual e coletivo são imensas, bem como as possibilidades de  manipulação por entidades públicas e privadas. Espero não ter uma indigestão...