Hoje amanhecemos bastante apreensivos com a hospitalização de uma pessoa muito amiga da família - um adolescente que, numa dose elevada de imprudência, sofreu um traumatismo craniano. Felizmente as primeiras notícias indicam uma melhora e estamos torcendo muito para uma rápida recuperação. Mas, diante do ocorrido, de outras situações caseiras e de ter presenciado esta semana, num mercadinho do bairro, uma mãe com grandes dificuldades para administrar os desejos dos filhos na compra do lanche da escola, novamente surgiram algumas perguntas: o que estamos fazendo com os nossos filhos? Como distinguir entre o que é fundamental, interessante e irrelevante para estimular na educação dos nossos meninos?
As pessoas de mais idade dizem a uma só voz que "a educação das crianças está muito mudada". Segundo eles, antigamente, menino mal falava diante dos adultos. Quase não manifestava a sua preferência e muito menos decidia alguma coisa. Cabiam aos pais tomar todas as decisões que envolviam a vida do menor, seja na alimentação, vestimenta, passeios e hábitos (estudo, sono, brincadeira, boas maneiras). De quebra, um sistema disciplinar muito presente, que incluía palmadas, surras com cinto, castigos, estudo em colégio interno, entre outros. Havia a compreensão de que uma criança era incapaz de tomar decisões e, por isso, necessitava da experiência e autoridade do adulto. Além disso, os pais transferiam sua autoridade às escolas e professores, que também mantinham um rígido controle dos alunos, podendo utilizar até castigos físicos (palmatória, ajoelhar-se no milho). Entretanto havia também importantes limitações afetivas nas relações, com uma reduzida demonstração de carinho entre os familiares.
Não sei se influenciada pelo fortalecimento da democracia no país e pelas mudanças econômicas e sociais ocorridas nas últimas décadas, mas a realidade é que a família mudou. Antes verticalizada, as relações passaram a ser horizontais, com uma maior distribuição das necessidades, desejos, opiniões e autoridade. O temor e o distanciamento deram lugar ao companheirismo e à cumplicidade. A reciprocidade afetiva entre pais e filhos foi construída. Progressivamente a prole vem tendo uma participação cada vez maior nos acontecimentos e decisões familiares - sem falar das decisões que lhe dizem respeito! Em casa e na rua, menores estão decidindo o que e como fazer. É crescente a dificuldade dos pais em estabelecerem um cardápio cotidiano diante da recusa dos filhos em se alimentar de frutas, verduras e até carnes. O local das refeições, pelo gosto deles, tem se tornado itinerante - na sala, no quarto, na varanda - e, a companhia mais frequente, é a televisão. O sono, embora fartamente demonstrada a sua importância no equilíbrio físico e mental, vem perdendo relevância nos lares, com as crianças dormindo muito tarde. Nas festas, eles decidem e comunicam aos pais o entretenimento a ser utilizado, a roupa que irá vestir, a maquiagem desejada e a hora de começar e terminar (sem esquecer o consumo precoce de bebidas alcoólicas pelos adolescentes que, na impotência ou concordância dos pais, potencializa a impulsividade peculiar da idade, deixando-os mais inclinados a atitudes inconsequentes e, algumas vezes, desastrosas). Com o poder de compra que adquiriram, os pequenos são vistos pelos anunciantes da tv como um novo nicho de mercado e, nas lojas, são tratados como clientes especiais, sendo-lhes oferecida uma quantidade interminável de produtos. É um pequeno adulto.
Se as gerações anteriores cometeram alguns exageros e conseguimos, agora, que nossas famílias tenham se tornado mais descontraídas e carinhosas, permitindo, entre outras coisas, que o pai desenvolvesse um contato mais próximo e afetivo com o filho - antes restrito à mãe -, parece também que estamos exagerando. Se antes havia intransigência com o comportamento pueril, hoje há permissividade, passando de uma ditadura adulta para uma infantil; se o controle era ostensivo, atualmente nos aproximamos da omissão, deixando que menores de idade tomem decisões as quais não estão preparados biológica e emocionalmente; se a valorização da autoestima não era uma prioridade no passado, passamos a estufar o ego das nossas crianças, deixando-as exageradamente vaidosas, também por não as repreender oportunamente; se algumas vezes o sofrimento era utilizado de forma desnecessária como um instrumento pedagógico, invertemos a situação e estamos ensinando a nossos filhos serem fóbicos a tudo o que os incomode e lhes cause frustração, impedindo-os de vivenciarem sofrimentos naturais da vida. O momento está exigindo reflexão de todos nós - pais, avós, tios, primos, filhos, amigos. Precisamos pensar mais, para não sermos apenas repetidores do que está acontecendo. É prudente desfrutarmos os avanços recentes sem esquecermos a experiência passada. Mas é fundamental estarmos sempre lembrados de que, ao evitarmos um incômodo necessário no presente, corremos um risco de uma dor maior no futuro.
Se as gerações anteriores cometeram alguns exageros e conseguimos, agora, que nossas famílias tenham se tornado mais descontraídas e carinhosas, permitindo, entre outras coisas, que o pai desenvolvesse um contato mais próximo e afetivo com o filho - antes restrito à mãe -, parece também que estamos exagerando. Se antes havia intransigência com o comportamento pueril, hoje há permissividade, passando de uma ditadura adulta para uma infantil; se o controle era ostensivo, atualmente nos aproximamos da omissão, deixando que menores de idade tomem decisões as quais não estão preparados biológica e emocionalmente; se a valorização da autoestima não era uma prioridade no passado, passamos a estufar o ego das nossas crianças, deixando-as exageradamente vaidosas, também por não as repreender oportunamente; se algumas vezes o sofrimento era utilizado de forma desnecessária como um instrumento pedagógico, invertemos a situação e estamos ensinando a nossos filhos serem fóbicos a tudo o que os incomode e lhes cause frustração, impedindo-os de vivenciarem sofrimentos naturais da vida. O momento está exigindo reflexão de todos nós - pais, avós, tios, primos, filhos, amigos. Precisamos pensar mais, para não sermos apenas repetidores do que está acontecendo. É prudente desfrutarmos os avanços recentes sem esquecermos a experiência passada. Mas é fundamental estarmos sempre lembrados de que, ao evitarmos um incômodo necessário no presente, corremos um risco de uma dor maior no futuro.



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Frequentemente quando estou iniciando uma avaliação neuropsicológica em crianças ou adolescentes, com problemas na aprendizagem, escuto os pais - principalmente o pai - afirmarem enfaticamente: "mas meu filho é muito inteligente!" Num processo avaliativo, seja ele acadêmico, profissional ou psicológico, é natural que ocorra um estado de apreensão, de ansiedade, levando a um comportamento de proteção dos genitores. Mas além desta e outras possíveis considerações subjetivas, percebo também em muitas famílias a crença que a atividade mental se resume na inteligência, e que ela é a protagonista da qualidade do comportamento humano. É como se o fato de ser inteligente fosse o mais importante para o sucesso do filho na vida. Mas a inteligência - geralmente a habilidade lógico-matemática - não é a única responsável por uma vida de realizações e feliz. Todos nós conhecemos ou ouvimos falar de pessoas "bem inteligentes", mas que não se deram muito bem. O comportamento humano adequado resulta da harmonia de várias habilidades emocionais e cognitvas, como a percepção, atenção, linguagem, funções visuoespaciais, memória, funções executivas, e inteligência. O refinamento funcional destas ferramentas mentais depende de fatores genéticos e ambientais, podendo - em algumas crianças - apresentar-se isoladamente ou amplamente prejudicadas. A dislexia, discalculina, disortografia, déficit de atenção, dentre outros, são transtornos focais, que envolvem uma ou poucas habilidades (leitura, cálculo, escrita e atenção, respectivamente), mas com a maioria das demais funções cognitivas preservadas. O retardo mental, por sua vez, apresenta comprometimento na maioria das funções (percepção, inteligência, funções executivas, funções visuoespaciais), com poucas habilidades sem manifestar déficit (memória e/ou linguagem). Mas, mesmo em pessoas que não apresentam transtorno ou retardo mental, a disposição das funções cognitivas é personalizada e não homogênea, ou seja, Marina pode ter a atenção e memória medianas, a inteligência superior e a linguagem diminuídas, enquanto que Júlio a inteligência mediana, a atenção, funções executivas e memória superiores e funções visuoespaciais diminuídas. Uma outra característica fundamental do funcionamento mental é "hierarquia" das funções, onde um estímulo - uma aula - antes de ser memorizada, precisa da motivação, atenção e da compreensão (percepção). Percebe-se então a complexidade do comportamento humano e o fato de que, ser apenas inteligente não é suficiente para um desempenho satisfatório no ambiente familiar, escolar, social e profissional. Inúmeras pessoas, bem dotadas intelectualmente, com transtorno apenas na atenção e/ou na leitura, muitas vezes rotuladas de preguiçosas, tem sido excluídas pelo desconhecimento e pelo preconceito. O pior rótulo, o que causa dano efetivo à vida de uma pessoa, não é o de hiperativo ou disléxico, mas o de fracassado e incapaz. Sejamos então inteligentes o suficiente para percebermos o problema, lidarmos com a frustração decorrente e buscarmos o conhecimento adequado.