Mostrando postagens com marcador Orientação Familiar. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Orientação Familiar. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Os exageros na educação dos nossos filhos


    Hoje amanhecemos bastante apreensivos com a hospitalização de uma pessoa muito amiga da família - um adolescente que, numa dose elevada de imprudência, sofreu um traumatismo craniano. Felizmente as primeiras notícias indicam uma melhora e estamos torcendo muito para uma rápida recuperação. Mas, diante do ocorrido, de outras situações caseiras e de ter presenciado esta semana, num mercadinho do bairro, uma mãe com grandes dificuldades para administrar os desejos dos filhos na compra do lanche da escola, novamente surgiram algumas perguntas: o que estamos fazendo com os nossos filhos? Como distinguir entre o que é fundamental, interessante e  irrelevante para estimular na educação dos nossos meninos? 
      As pessoas de mais idade dizem a uma só voz que "a educação das crianças está muito mudada". Segundo eles, antigamente, menino mal falava diante dos adultos. Quase não manifestava a sua preferência e muito menos decidia alguma coisa. Cabiam aos pais tomar todas as decisões que envolviam a vida do menor, seja na alimentação, vestimenta, passeios e hábitos (estudo, sono, brincadeira, boas maneiras). De quebra, um sistema disciplinar muito presente, que incluía palmadas, surras com cinto, castigos, estudo em colégio interno, entre outros. Havia a compreensão de que uma criança era incapaz de tomar decisões e, por isso, necessitava da experiência e autoridade do adulto. Além disso, os pais transferiam sua autoridade às escolas e professores, que também mantinham um rígido controle dos alunos, podendo utilizar até castigos físicos (palmatória, ajoelhar-se no milho). Entretanto havia também importantes limitações afetivas nas relações, com uma reduzida demonstração de carinho entre os familiares.
     Não sei se influenciada pelo fortalecimento da democracia no país e pelas mudanças econômicas e sociais ocorridas nas últimas décadas, mas a realidade é que a família mudou. Antes verticalizada, as relações passaram a ser horizontais, com uma maior distribuição das necessidades, desejos, opiniões e autoridade. O temor e o distanciamento deram lugar ao companheirismo e à cumplicidade. A reciprocidade afetiva entre pais e filhos foi construída. Progressivamente a prole vem tendo uma participação cada vez maior nos acontecimentos e decisões familiares - sem falar das decisões que lhe dizem respeito! Em casa e na rua, menores estão decidindo o que e como fazer. É crescente a dificuldade dos pais em estabelecerem um cardápio cotidiano diante da recusa dos filhos em se alimentar de frutas, verduras e até carnes. O local das refeições, pelo gosto deles, tem se tornado itinerante - na sala, no quarto, na varanda - e, a  companhia mais frequente, é a televisão. O sono, embora fartamente demonstrada a sua importância no equilíbrio físico e mental, vem perdendo relevância nos lares, com as crianças dormindo muito tarde. Nas festas, eles decidem e comunicam aos pais o entretenimento a ser utilizado, a roupa que irá vestir, a maquiagem desejada e a hora de começar e terminar (sem esquecer o consumo precoce de bebidas alcoólicas pelos adolescentes que, na impotência ou concordância dos pais, potencializa a impulsividade peculiar da idade, deixando-os mais inclinados a atitudes inconsequentes e, algumas vezes, desastrosas).  Com o poder de compra que adquiriram, os pequenos são vistos pelos anunciantes da tv como um novo nicho de mercado e, nas lojas, são tratados como clientes especiais, sendo-lhes oferecida uma quantidade interminável de produtos. É um pequeno adulto.
      Se as gerações anteriores cometeram alguns exageros e conseguimos, agora, que nossas famílias tenham se tornado mais descontraídas e carinhosas, permitindo, entre outras coisas, que o pai desenvolvesse um contato  mais próximo e afetivo com o filho - antes restrito à mãe -,  parece também que estamos exagerando. Se antes havia intransigência com o comportamento pueril, hoje há permissividade, passando de uma ditadura adulta para uma infantil; se o controle era ostensivo, atualmente nos aproximamos da omissão, deixando que menores de idade tomem decisões as quais não estão preparados biológica e emocionalmente; se a valorização da autoestima não era uma prioridade no passado, passamos a estufar o ego das nossas crianças, deixando-as exageradamente vaidosas, também por não as repreender oportunamente; se algumas vezes o sofrimento era utilizado de forma desnecessária como um instrumento pedagógico, invertemos a situação e estamos ensinando a nossos filhos serem fóbicos a tudo o que os incomode e lhes cause frustração, impedindo-os de vivenciarem sofrimentos naturais da vida. O momento está exigindo reflexão de todos nós - pais, avós, tios, primos, filhos, amigos. Precisamos pensar mais, para não sermos apenas repetidores do que está acontecendo. É prudente desfrutarmos os avanços recentes sem esquecermos a experiência passada. Mas é fundamental estarmos sempre lembrados de que, ao evitarmos um incômodo necessário no presente, corremos um risco de uma dor maior no futuro.

domingo, 4 de novembro de 2012

Parabéns


         Na quarta-feira passada, 31 de outubro, fui comemorar com familiares os oitenta anos do meu pai. Embora eu não tenha testemunhado praticamente a metada de sua vida - quando eu nasci ele tinha 37 anos - sei que foram anos de muitas dificuldades: família de poucos recursos financeiros e muitos filhos (mais de 10), com uma mãe especializada nos cuidados maternos e um pai muito habilidoso nos números e nas palavras - orgulhosamente, foi um dos pioneiros no jornalismo alagoano -, mas que precisava trabalhar os três horários para sustentar a casa. Sendo o mais velho dos homens, a responsabilidade com as necessidades do lar foram precocemente assumidas pelo meu velho, que transbordava de disposição e compromisso familiar. Num ambiente com fartura de informações, entusiasmou-se progressivamente pelas leituras diversas, culminando nas graduações de Filosofia e Direito. Nos últimos quarenta anos os desafios e obstáculos continuaram, com significativas perdas (emocionais) e alguns ganhos, mas ele sempre enfrentando com um imenso senso de honestidade e responsabilidade - suas principais características. Sem falar da admirável e inquietante inclinação pelas coisas simples e naturais, e do desapego a ideologias e modismos.
         Tirando as peculiaridades e outras limitações pessoais, a história de meu pai é semelhante à de muitos pacientes idosos por mim atendidos: um início de vida com muitas restrições, em famílias numerosas e geralmente pobres, longos momentos de sofrimento, participação precoce nos serviços de casa, forte espírito de coletividade entre os familiares, a honestidade como vaidade e o sucesso obtido de forma lenta e gradual. Entretanto, num outro grupo de pacientes, tenho escutado o relato de experiências familiares bem diferentes: lares com poucas crianças, com a geladeira e armários abarrotados de alimentos, parentes e funcionários geralmente tentanto satisfazer imediatamente a maioria dos desejos dos menores, um esforço acentuado para manter o filho alegre e impedir o seu sofrimento, pouca (ou nenhuma) colaboração das crianças e adolescentes nas atividades caseiras, a colocação da inteligência e da competitividade como objetivos maiores na formação da prole, e o ato de comprar adquirindo status de principal fonte de prazer.
        Pelo que percebo - e dizem os especialistas - as significativas mudanças econômicas ocorridas nas últimas décadas no país vêm, gradativamente, modificando o nosso comportamento. Embutidos nos novos produtos e serviços, estão os recentes valores sociais: a intensidade, a velocidade e a comodidade. Na relação com as pessoas, objetos e acontecimentos, temos sido influenciados a considerar como positivas as vivências intensas, rápidas e cômodas. Mas, qual o verdadeiro impacto destas modificações no nosso comportamento? Quais habilidades e dificuldades serão fortalecidas? A que tipo de distúrbios ou transtornos estaremos vulneráveis com tais alterações? Contribuirão para favorecer a serenidade e sabedoria, ou a ansiedade e a angústia? Com todos os exgeros e equívocos, parabéns a você meu pai, e a sua geração!
 

     

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Proclamação da família

      Desde domingo a imprensa vem divulgando mais um capítulo da terrível realidade social  do Rio de Janeiro, com a ocupação - pela polícia militar - de mais uma monarquia da droga, a Favela da Rocinha. No balanço oficial, apreensão considerável de armas (fuzis, mísseis, submetralhadoras, pistolas, granadas, espingardas), veículos, drogas (maconha, pasta base de cocaína, cocaína refinada, crack, ecstasy), e a descoberta de um  laboratório de refino de cocaína. É o resultado de décadas de omissão do Estado e dominação dos traficantes pela força, insegurança e medo, com o poder soberano de decidir, controlar e punir os moradores da favela . Segundo o secretário de segurança pública carioca existe um plano para o Rio de 40 áreas com UPP (Unidade de Polícia Pacificadora). Ele disse ainda que só na Rocinha serão 900 policiais na UPP. Com bem menos recursos econômicos e vontade política, nosso estado também se destaca quando o assunto é violência, com várias cidades alagoanas nas primeiras colocações no ranking nacional de homicídios por habitantes. A violência, irmanada com as drogas, tem sido uma das maiores preocupações da sociedade brasileira, e os seus cidadãos, como eu, inclinamo-nos a acreditar que a presença de policiais nas ruas amenizaria a situação. No entanto, observando as mudanças que vêm ocorrendo dentro das nossas casas, no ambiente familiar, talvez seja possível inferir uma correlação entre estes grupos sociais. Inicialmente, de maneira lúcida, é interessante considerar o aspecto evolutivo do ser humano, não só na dimensão física, mas também na psicológica. A mente, assim como o corpo, vem se adaptando a mudanças ambientais extremas há milhares de anos, desenvolvendo comportamentos que aumentem a probabilidade de sobrevivência da espécie, como a sexualidade e a agressividade.  Detalhe: o cérebro de que nossos antepassados dispunham há 100 mil anos atrás é praticamente igual ao meu e ao seu. Sendo assim, fisiológica e subjetivamente não faz muita diferença a ansiedade despertada ao andar na savana (há milhares de anos) e apresentar-se numa seleção profissional com outras centenas de pessoas.  Por mais que tenhamos conseguido modificar  a realidade externa, delimitando áreas, construindo cidades e equipamentos com alta tecnologia, manipulando seres, estabelecendo conceitos e regras, a realidade interna é a mesma, com os mesmos objetivos. Não se trata de justificar e se conformar com os atos inadequados a que assistimos diariamente nas ruas e nos noticiários, mas de compreender e aceitar que, de bicho e de gente, todos temos um pouco (alguns têm mais). Da criança com feições angelicais à doce vovozinha, do assassino ao homem santificado, temos todos tendências primitivas de buscar o prazer e agredir quem nos impede. São comportamentos universais (presentes em todo ser humano), mas que variam de intensidade e manifestação de acordo com as outras variáveis do comportamento humano - genética, fatores ambientais, sociais, maturidade. Com o processo da civilização, o homem precisou controlar e direcionar os impulsos agressivos e sexuais, e a família - primeiro grupo social - passou a ter novamente um papel decisivo nessa nova necessidade social. Nos últimos vinte ou trinta anos, entretanto, a família vem sofrendo modificações no seu formato e nas relações entre os membros. Coincidência ou não, a individualidade e a violência também se intensificaram neste período. Sem nenhuma pretensão saudosista, é urgente que consigamos distinguir o essencial do irrelevante na estrutura familiar, para que este ambiente continue a ser a maior possibilidade de aprendizagem do espírito coletivo e da consequente importância do respeito a algumas normas e regras para - como numa república - prevalecer o interesse de todos.

domingo, 23 de outubro de 2011

São só garotos...

     Ontem e hoje foram realizadas as provas do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), onde milhares de jovens em Maceió - além de outros milhões no país -  finalizaram uma longa e penosa jornada, com meses de estudo, deixando de lado alguns prazeres cotidianos e arrastando o peso da concorrência. Com eles, os pais também percorreram ansiosos a trajetória, relembrando em alguns momentos a própria história. Na terra dos marechais, como em outros estados do nordeste, a ansiedade foi maior pela desvantagem de estarem numa região brasileira desfavorecida academicamente, tendo que disputar vaga para a universidade pública federal com  estudantes de centros privilegiados em termos educacionais. E nestes dois dias, enquanto os alunos usavam suas ferramentas cognitivas - linguagem, memória, inteligência - por várias horas,  compreendendo enunciados, recuperando informações  e resolvendo problemas, seus familiares torciam bastante, exercitando suas ferramentas emocionais - fé, controle da ansiedade e dos pensamentos automáticos.  As escolas, por outro lado, pressionadas pelos seus próprios resultados e pelos pais, tentaram corresponder os anseios dos seus clientes e diminuir a desigualdade regional, intensificando os conteúdos e tornando as avaliações mais complexas. Para incrementar a situação, o restrito leque de opções de trabalho que Alagoas oferece, com uma iniciativa privada incipiente, contribui para estreitar o funil de oportunidades, conferindo muitas vezes ao curso universitário o status ilusório de garantia de sucesso profissional. Quem já passou dos 30 sabe que a realidade é bem diferente e que, perto de outras situações que enfrentamos e que eles enfrentarão na busca do lugar ao sol, a prova do ENEM não é nada mais que uma prova. Precisando considerar estes e outros aspectos, os estudantes têm que optar rapidamente. Mas eles são muito jovens! São menores decidindo a vida profissional do adulto! Uma atitude que implica em autoconhecimento, desejo, compreensão da realidade, planejamento, controle de impulsos e flexibilidade mental. Habilidades associadas às regiões frontais do cérebro e raramente desenvolvidas plenamente antes dos 20 anos. Isso não quer dizer que a reflexão e o compromisso não devam ser estimulados e solicitados dos adolescentes, mas que não se pode exigir que eles realizem imediatamente escolhas desta complexidade sem dúvidas e correções, porque são só garotos... 

domingo, 14 de agosto de 2011

Preservando a família

     Saboreando os olhares e  os abraços carinhosos dos meus três filhos neste domingo dos pais, fiquei quieto e me divertindo ao ver alguns comportamentos neles que acredito serem meus: o interesse por instrumentos musicais, a intensa necessidade de frutas na alimentação,  dormir com os olhos vendados, o prazer do contato com cavalos e com a natureza. Ainda bem que na socialização "puxaram à mãe", porque se dependessem da minha habilidade social... É claro que vários outros comportamentos deles têm  influência dos pais - genética ou psicológica -, favorecendo não só as suas virtudes mas também as suas limitações mas, sendo hoje o meu dia, sinto-me no direito de me embriagar com algumas doses de vaidade paterna, comentando apenas algumas influências que considero positivas. Mesmo morando na cidade, em apartamento, o gosto pelo ambiente rural - contato com animais e plantas - é uma das características mais marcantes da minha família. Já no meu tempo de criança o quintal da casa e as árvores eram o playground, e os animais - galinhas, cágado, mocó, peixe, cachorro, sagui - faziam parte do entretenimento, mas também das responsabilidades (alimento, banho, limpeza). Possivelmente nesta fase nasceu o meu interesse em observar comportamentos. Lembro que certo dia, querendo enfeitar o aquário com vários peixes e ornamentos, um criador experiente me falou da importância de se criar um ambiente equilibrado quimicamente (evitasse materiais e objetos que tornassem a água muito ácida ou muito alcalina) e no relacionamento entre os peixes (optasse por espécies que convivessem sem agressividade). Foi a primeira vez que ouvi alguém destacar a dificuldade e a importância de se criar e manter um ambiente em harmonia. Mais tarde, iniciando o curso de biologia, o equilíbrio e a influência mútua voltaram a ser os destaques no estudo  da biodiversidade. Nesses últimos anos, assistindo aos vários documentários sobre mamíferos e primatas, a complexidade das relações entre os membros num determinado habitat, seja nas árvores, em tocas ou num determinado território da savana africana tem me deixado perplexo. Comportamentos tradicionalmente classificados como exclusivos de pessoas, dos mais egoístas aos altruistas,  são cada vez mais identificados nos animais.
     Como pai e psicólogo, acompanhando as inúmeras mudanças que vêm acontecendo na família, tenho frequentemente me questionado sobre aquele equilíbrio e as repercussões nesse primeiro núcleo social formado, primeiramente, por duas pessoas com histórias de vida diferentes, condutas distintas, pensamentos e sentimentos nem sempre convergentes, e que precisarão de um tempo para se ajustarem. Quando nasce o filho, uma nova ordem se estabelece em casa, com novos objetivos, desejos e interações, formando então um ambiente complexo - psicodiversidade - que, como todo ambiente, irá buscar o equilíbrio. No entanto, outras situações, às vezes inevitáveis, podem provocar alterações: a saída do pai (ou da mãe) e a entrada do padrasto (ou madrasta) na separação, com a inclusão dos enteados no mesmo ambiente;  a permanência dos filhos na casa de familiares (tios, avós) por turnos, dias e até semanas, num ambiente diferente, com pessoas e costumes próprios; o espaçamento das reuniões familiares diante do excesso de atividades dos responsáveis e da correria do cotidiano; a extinção de hábitos alimentares, de estudo e de sono pela crescente terceirização das responsabilidades do lar. E o equilíbrio da psicodiversidade? Se a capacidade de planejar e modificar o próprio comportamento através da reflexão é uma realidade no comportamento do indivíduo, a história evolutiva da humanidade e a consequente arqueologia mental também  não podem ser ignoradas. Sendo assim, continuemos a procurar um local seguro para os nossos filhotes, a lamber a nossa cria rotineiramente, a coçar sua cabeça e retirar os piolhos, a ensiná-la a caçar, a orientá-la a fugir quando preciso e lutar quando necessário, e procurar uma boa sombra para ficarmos amontoados. E, como pai, deixemos também florescer o sentimento de posse e cuidado: esta é a minha família! Em seguida sejamos decisivos, embora com a colaboração de parentes e até funcionários, na construção do equilíbrio do nosso canto, adaptá-lo quando necessário, mas sobretudo defender, com unhas e dentes, a preservação da intimidade familiar.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

É hora de dormir!

     Não consigo dormir cedo! Dormir é perda de tempo! Afirmações como estas vem sendo pronunciadas não só por adultos, mas também por adolescentes e até crianças, indicando uma mudança nos hábitos noturnos das famílias. A vida moderna, com novos serviços e produtos, avança no horário antes destinado ao sono, adiando cada vez mais o adormecer das pessoas. Apesar de ser suspeito em recomendar dormir bem, porque "sou bom de cama" - gosto de me deitar, adormeço serenamente e amanheço entusiasmado -, as pesquisas mostram que o sono é essencial à sobrevivência humana, porque nele são executados processos biológicos fundamentais à reparação e ao equilíbrio (homeostase) do corpo. O humor e o desempenho cognitivo, principalmente a atenção, memória e a aprendizagem também têm seu funcionamento dependente do que acontece durante as horas em que permancemos dormindo. A Irritabilidade, a distração, o esquecimento e a diminuição da prontidão mental são algumas das consequências da privação do sono.
     A aparência de uma pessoa adormecida - olhos fechados, imobilidade, resposta reduzida a estímulos - parece transmitir uma falsa impressão de marasmo, inoperância e "perda de tempo". Mas se pudéssemos assistir aos fenômenos que se desenvolvem quando fechamos os olhos, ficaríamos impressionados com a complexidade dos acontecimentos ali encobertos. Muita coisa acontece nos bastidores do sono, dividido em fases com ou sem movimentos dos olhos, atividade elétrica cerebral variada, sonhos mais ou menos bizarros, alterações cardíacas, do tônus muscular, etc, repetindo-se em ciclos de aproximadamente 70 minutos, durante toda a noite. Se a arquitetura for executada adequadamente, sem várias interrupções (despertares), acordaremos reparados fisiológicamente, dispostos cognitivamente e tranquilos emocionalmente. Em se tratando de crianças, este processo se torna ainda mais relevante, necessitando elas de um sono em maior quantidade e qualidade (horários regulares, dormir sem tv ligada, sem respirar pela boca, temperatura adequada no quarto).
     Então, como conciliar a necessidade fisiológica de dormir, aprimorada em milhares de anos, com as peculiaridades da modernidade - uma programação "infantil" ininterrupta na televisão, intermináveis conversas na internet, jogos eletrônicos com intrincadas e excitantes estratégias? Como permitir que crianças e adolescentes ocupem as noites com atividades de entretenimento, dormindo após às 22 ou 23:00h, em detrimento de uma necessidade psicobiológica e, no outro dia, acordem às 06:00h, espontaneamente e com disposição para as demandas escolares, esportivas, sociais e  familiares do dia? Como esperar que eles consigam, sem respeitar o próprio funcionamento, tirar o melhor de si para aprender o que é extensamente falado pelos professores?
     Embora ainda não esteja "tirando o meu sono", inquieta-me ver tal situação, pela crescente dificuldade familiar de se estabelecer horários de sono, mas sobretudo de distinguir atividades, eventos e comportamentos infantis, dos adultos. 

terça-feira, 5 de abril de 2011

Meninos não são homens e meninas não são mulheres


          Nos finais de semana, feriados e durante as férias, tenho visto, de uma forma crescente e preocupante, crianças e adolescentes realizando atividades de adultos: pilotando moto, jet ski, dirigindo carro, quadriciclo, assistindo a todo tipo de programação e entretenimento, passando a madrugada no computador ou jogando vídeo game, decidindo o que, quando e quanto comer. Como pai de três filhos, sendo um deles adolescente, isso tem me sensibilizado de maneira significativa, não só pelo aspecto legal e pelos riscos à saúde e de acidentes, mas também por perceber a pressão social existente para caracterizar como natural e adequado tais comportamentos. Se estes iniciantes já estão tomando tantas decisões, tão precocemente, a função e a utilidade dos pais precisam ser questionadas e refletidas. Para que, então, servem o pai e a mãe atualmente? Seriam funcionários dos filhos, servindo-os em quase todas as atividades cotidianas? Seriam motoristas, transportando-os confortavelmente paras as inúmeras atividades? Um caixa eletrônico, para bancar suas intermináveis "necessidades"?  Seu "melhor amigo" para, principalmente, compartilhar segredos e intimidades? E será que a tecnologia, a internet, a rapidez do raciocínio e a conectividade desses jovens estão antecipando as etapas do amadurecimento individual, tornando os pais prescindíveis precocemente - como, de uma certa forma já vem acontecendo com os professores? Apesar dos possíveis exageros cometidos nestes comentários,  exagerada e danosa também é a precoce sensação de poder que muitos garotos vem experimentando, e o pior, com os aplausos ignorantes dos pais. O conhecimento neuropsicológico tem  demonstrado que, assim como a memória e a atenção, o controle da inibição se constitui numa  habilidade cognitiva - função executiva -, essencial no desempenho acadêmico, social e profissional. No processo de maturação cerebral é  a última das funções cognitivas a se desenvolver plenamente, ocorrendo - "para aqueles que têm mais juízo" - por volta dos 20 anos. Sendo assim, permitir e/ou estimular atividades adultas em menores é um ato abusivo, ou seja, contrário às leis, à saúde e ao desenvolvimento cerebral da criança!

sábado, 26 de março de 2011

Mais que inteligente

Frequentemente quando estou iniciando uma avaliação neuropsicológica em crianças ou adolescentes, com problemas na aprendizagem, escuto os pais - principalmente o pai - afirmarem enfaticamente: "mas meu filho é muito inteligente!" Num processo avaliativo, seja ele acadêmico, profissional ou psicológico, é natural que ocorra um estado de apreensão, de ansiedade, levando a um comportamento de proteção dos genitores. Mas além desta e outras possíveis considerações subjetivas, percebo também em muitas famílias a crença que a atividade mental se resume na inteligência, e que ela é a protagonista  da qualidade do comportamento humano. É como se o fato de ser inteligente fosse o  mais importante para o sucesso do filho na vida. Mas a inteligência - geralmente a habilidade lógico-matemática - não é a única responsável por uma vida de realizações e feliz. Todos nós conhecemos ou ouvimos falar de pessoas "bem inteligentes", mas que não se deram muito bem. O comportamento humano adequado resulta da harmonia de várias habilidades emocionais e cognitvas, como a percepção, atenção, linguagem, funções visuoespaciais, memória, funções executivas, e inteligência. O refinamento funcional destas ferramentas mentais depende de fatores genéticos e ambientais, podendo - em algumas crianças - apresentar-se isoladamente ou amplamente prejudicadas. A dislexia, discalculina, disortografia, déficit de atenção, dentre outros, são transtornos focais, que envolvem uma ou poucas habilidades (leitura, cálculo, escrita e atenção, respectivamente), mas com a maioria das demais funções cognitivas preservadas. O retardo mental, por sua vez, apresenta comprometimento na maioria das funções (percepção, inteligência, funções executivas, funções visuoespaciais), com poucas habilidades sem manifestar déficit (memória e/ou linguagem). Mas, mesmo em pessoas que não apresentam transtorno ou retardo mental, a disposição das funções cognitivas é personalizada e não homogênea, ou seja, Marina pode ter a atenção e memória medianas, a inteligência superior e  a linguagem diminuídas, enquanto que Júlio a inteligência mediana, a atenção, funções executivas e memória superiores e funções visuoespaciais diminuídas. Uma outra característica fundamental do funcionamento mental é "hierarquia" das funções, onde um estímulo - uma aula - antes de ser memorizada, precisa da motivação, atenção e da compreensão (percepção). Percebe-se então a complexidade do comportamento humano e o fato de que, ser apenas inteligente não é suficiente para um desempenho satisfatório no ambiente familiar, escolar, social e profissional. Inúmeras pessoas, bem dotadas intelectualmente, com transtorno apenas na atenção e/ou na leitura, muitas vezes rotuladas de preguiçosas, tem sido excluídas pelo desconhecimento e pelo preconceito. O pior rótulo, o que causa dano efetivo à vida de uma pessoa, não é o de hiperativo ou disléxico, mas o de fracassado e incapaz. Sejamos então inteligentes o suficiente para percebermos o problema,  lidarmos com a frustração decorrente e buscarmos o conhecimento adequado.