quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Cuidando da mente


Não podemos vê-la nem tocá-la, mas duvido que alguém negue sua existência. Embora diferente do corpo físico e palpável, ela também é bastante verdadeira. É a mente, a psique, a alma. Continuamente nos proporcionando experiências bem efetivas, como os pensamentos, emoções, sentimentos, lembranças, intuições, sonhos e todas as nossas motivações. Mas ainda é um mundo desconhecido e pouco explorado por nós e, talvez por isso, frequentemente o evitamos e tememos. Contudo, assim como o corpo, a mente apresenta uma estrutura e um funcionamento, com necessidades nutritivas e mecanismos de regulação para manter um equilíbrio. Em ambos, com o atendimento ou não das necessidades nos sentiremos saciados (satisfeitos) ou famintos (frustrados). A psique tem uma existência paralela ao corpo, mas com interferências mútuas. Chamam a atenção, entretanto, os momentos em que ocorrem discrepâncias de funcionamento entre eles – quando, embora saciados organicamente, continuamos a comer pela “fome interior”, ou quando satisfeitos na alma, nos interessamos menos pelos “alimentos externos”. Apesar da indiscutibilidade dos fenômenos subjetivos e do seu significativo impacto na nossa vida cotidiana, pouco os consideramos e, não raro, nos referimos a eles com desdém, com comentários do tipo “isso é frescura!”. O interessante é que embora tenhamos uma vida tangível, com casa, comida e roupa lavada, ao mesmo tempo vivemos em outro domínio, onde habita nossa consciência. Nela percebemos e significamos. Nela somos e vivemos! Sendo assim, precisamos considerar os fenômenos da mente, priorizar as necessidades da psique e buscar os verdadeiros alimentos da alma. E aí, desconheço algo que satisfaça mais que a intimidade com o Mestre, método mais simples e eficiente de proporcionar felicidade do que as Bem Aventuranças, e vida mais abundante do que a por Cristo oferecida.

domingo, 1 de dezembro de 2013

Perdas e ganhos

   
     Pesquisas sobre a participação de áreas cerebrais na experiências religiosa foram apresentadas em uma das palestras do XII Congresso Brasileiro de Neuropsicologia, que aconteceu em São Paulo há 10 dias. Denominada neuroteologia, parece que busca analisar, através do método científico, um dos comportamentos mais característicos do ser humano: a fé. Na expectativa de um evento exclusivamente sobre transtornos e disfunções cerebrais, fiquei realmente surpreso com a tentativa de aproximar visões que, desde pequeno, escuto que são antagônicas: ciência e religião. De acordo com o palestrante, apesar dos estudos de neuroimagem funcional de estados contemplativos indicarem alterações em regiões corticais (temporal, parietal e frontal), isto necessariamente não invalida a hipótese da existência de algo que transcenda a existência humana.
     Na viagem de volta, folheando os papeis do congresso e relembrando determinados comentários sobre síndromes demenciais e os transtornos de aprendizagem, o assunto Deus X cérebro várias vezes ocupou meus pensamentos. Ao chegar no aeroporto de Maceió, após quase três horas de viagem, esperando as bagagens na esteira, recebi uma ligação aflita do funcionário, dizendo que há três dias vinha tentando se comunicar comigo para avisar que o Luke estava muito doente, sem querer comer e que precisava ir ao veterinário com urgência. No trajeto para casa, a alegria de voltar e rever os filhos foi alterada pela preocupação com a saúde do nosso cachorro. Comentando com Adriana sobre algumas características marcantes deste animal, destaquei o fato de, embora sua raça não seja considerada cão de guarda (cocker spaniel),  tenho me sentido bem mais seguro com a sua presença na nossa casa da Barra Nova (não fomos mais furtados após a sua chegada, há sete anos). Ao deixarmos as malas e revermos os meninos, fomos socorrer o animal. Quando lá chegamos e abrimos o portão já não fomos recebidos com a costumeira e desajeitada alegria do Luke, vendo apenas o seu filho e companheiro Veludo. Procuramos e chamamos  pelo seu nome algumas vezes até que o encontramos deitado na garagem, mas vivo. Não conseguia levantar-se. Comecei a falar com ele e  acariciá-lo, junto com os meninos, e percebi sua respiração ficar mais ofegante. Rapidamente coloquei nos braços e seguir em direção ao carro para levá-lo ao veterinário, quando ele se esticou e deu o último suspiro.  Morreu diante de todos nós, exatamente cinco minutos após nossa chegada. Passado algum tempo e bastante entristecidos, envolvemos o Luke num lençol, colocamos umas flores sobre ele e o enterramos no quintal de casa. 
      Por que ele morreu? Para onde ele foi agora? O que acontece quando morremos? Cachorro vai para o céu? Eu não quero morrer! Estes foram alguns dos questionamentos e comentários que ouvi enquanto dirigia para Maceió, mas não tive muito o que responder. Silenciosamente, choramos juntos. Como em outras situações já vivenciadas de perda de familiares e amigos, não há como não se inquietar com a violenta interrupção da convivência de um ente querido. Sem falar das explicações nem sempre adequadas que são disponibilizadas. Por isso é essencial que a neuroteologia - ou qualquer outro ramo do conhecimento - venha verdadeiramente contribuir para a comunhão da curiosidade e destemor do pensamento científico com a paz e humildade da vivência religiosa. Porém, percebo que até lá, religião e ciência, enquanto instituições que estabelecem regras e normas, devem ser consideradas com moderação.

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Emagrecimento sustentável

      A diminuição do rendimento escolar, principalmente pela falta de atenção nos estudos, é a reclamação mais frequente dos pacientes e familiares que procuram a avaliação neuropsicológica. Desinteresse, ambiente familiar desfavorável e a presença de transtornos são as causas mais comuns do problema cognitivo, sem esquecer das alterações emocionais.  Foi por este motivo que uma jovem retornou ao consultório, após ter realizado uma avaliação há algum tempo, quando se queixou de dispersão nas aulas e  diminuição da performance na faculdade. Apesar de não ter sido identificado transtorno de aprendizagem, ela demonstrou sintomas de ansiedade e foi encaminhada à psicoterapia - havia uma intensa preocupação e expectativa com o peso do corpo, responsável por grande parte da sua angústia.
      Passado alguns meses ela voltou para reavaliação e a vi de uma maneira bem diferente: entusiasmada. Com um conhecimento maior sobre suas habilidades e dificuldades, além de uma imprescindível cumplicidade consigo mesma. Contou-me porém da árdua missão em se manter na dieta do emagrecimento e persistir nos exercícios físicos: "é uma luta constante entre o anjinho e o diabinho".  À medida que ela falava da sua determinação em resistir às apetitosas tentações cotidianas, da frustração de eventuais recaídas, mas da sua persistência em continuar na batalha, fiquei me perguntando se teria que ser sempre assim e lembrei de tantas outras pessoas que estão no mesmo front. Parece realmente uma grande e interminável batalha, pelo menos para a maioria das pessoas com quem já conversei. Lembrei também que quando tive gastrite e precisei restringir inúmeros alimentos - os mais saborosos -, só vivia pensando... naquilo. Nos restaurantes e eventos sociais, a dificuldade para encontrar algo permitido e comestível tornava a situação ainda mais incômoda. Felizmente após algumas semanas conclui o tratamento e dei baixa no regime militar obrigatório. Mas, para aqueles precisam e tentam permanecer na dieta (geralmente começando na segunda-feira e nem sempre chegando no sábado), por quanto tempo conseguirão se manter firmes nessa batalha?
      Afinal de contas, que diabos de vontade tão grande é essa de comer? Sem precisar mistificar a situação, precisamos voltar mais uma vez para a história da nossa espécie. Como já repetido em outras postagens, a forma atual do nosso cérebro praticamente não mudou nos últimos cem mil anos. Lá trás vivíamos num ambiente extremamente hostil, inseguro, onde não só éramos caçadores, mas também a caça. Não havia feiras nem supermercados com alimentos sortidos ao alcance das mãos. Precisávamos fazer longas e perigosas caminhadas para matar a fome. Assim, era necessário comer o máximo possível, pois não havia a certeza de que no dia seguinte haveria alimento. A espécie humana, como todos os seres vivos, precisava se adaptar ao ambiente para evitar a extinção. Para isso o tecido adiposo, presente na pele, armazenava em forma de gordura a energia excedente do que comíamos, para ser utilizada na época das vacas magras - esta mesma gordura que nos dias de hoje é a grande vilã, um verdadeiro problema de saúde pública. Nesse contexto de intensa imprevisibilidade, mutações genéticas já vinham acontecendo no cérebro para configurar o ato de se alimentar como prioridade na motivação humana. Para incentivar o comportamento de procurar comida, pequenas áreas encefálicas se especializaram em despertar em nós a sensação de prazer na ingestão de alimentos (entre outras coisas), tornando-nos sedentos de lamber os beiços.
      O tempo passa, o tempo voa, e a comida continua sendo uma boa... Seja em casa (assistindo à tv, usando o computador) ou na rua (estudando, trabalhando, divertindo-se), sempre procuramos algo para mastigar. Em todas as comemorações - aniversários, casamentos, formatura, natal, páscoa, festa de bonecas - raramente ficamos sem comer. E com ajuda da tecnologia, novos sabores estão sempre surgindo nas prateleiras, provocando incessantemente nossos desejos com as quase irresistíveis propagandas a que somos expostos todo instante. E o que dizer do conforto proporcionado pela modernidade, que vem aumentando a ociosidade e reduzindo drasticamente a natural e necessária movimentação do corpo? Na compreensão do relacionamento entre indivíduo e o alimento devemos incluir também o histórico genético de cada pessoa - que o predispõe ou não à obesidade -,  e o nível de stress vivenciado por ele no cotidiano (alterando os níveis de cortisol - hormônio engordativo). Por fim não devemos esquecer dos pensamentos e sentimentos que nutrimos a cada momento em nós mesmos - nem sempre de maneira consciente -, a partir das escolhas que realizamos. Eles delineiam a nossa forma... de agir.
      Se o objetivo é emagrecer, precisamos considerar - além da quantidade e qualidade dos alimentos - todos esses ingredientes: o cognitivo, o nível de stress, o grau de ociosidade, a genética familiar e a filogênese. Não é a toa que emagrecer, ou melhor, manter-se magro é tão difícil. Por isso não precisamos nos sentir tão culpados por não conseguirmos fechar a boca por muito tempo. Porque é lutar contra  forças biológicas, psicológicas  e sociais muito intensas. Acredito ser insustentável, para a maioria das pessoas, permanecer no peso desejado apenas com dieta e exercícios físicos, desconsiderando completamente aqueles ingredientes. Estou convencido de que a escolha do emagrecimento como uma meta maior instiga uma guerra consigo mesmo e, por isso, tem grande possibilidade de fracasso a longo prazo. É inatural e improdutiva. Por outro lado, priorizar a saúde e o bem estar como objetivos a serem almejados parece ser mais apropriado e agregador, embora seja mais trabalhoso, pois implica numa reeducação não só alimentar, mas das atividades, dos relacionamentos, emoções e pensamentos. Então nos sirvamos disto, e bon appétit!

domingo, 29 de setembro de 2013

Hiperatividade

      Eles são muito, mas muito inteligentes! Aprendem rapidamente e não esquecem de nada. Não param e são extremamente inquietos, podendo fazer mil coisas até se esgotarem. Além disso são muito disponíveis e companheiros: em qualquer situação eles estão presentes (há quem diga que até quando se vai no banheiro eles querem acompanhar).  Têm na socialização a sua principal característica, com uma imensa capacidade de relacionar pessoas - com os mais íntimos dizem cada coisa... Mas também estão frequentemente futucando quem estiver ao seu alcance e estão quase sempre querendo falar, interrompendo conversas e atividades dos outros. São intrometidos e impacientes. Estão o tempo todo ligados. Não é raro a impulsividade e a inconveniência, por tumultuar o ambiente com o seu barulho e interromper o silêncio alheio. Podem até fazer os mais próximos se afastarem. Mas, mesmo querendo chamar a atenção o tempo todo - inventando sempre novidades -,  parece não haver quem não goste deles pois, onde estiverem, praticamente só se fala neles. A capacidade e a versatilidade que demonstram mantém todos envolvidos, impedindo muitas vezes que seus defeitos sejam percebidos.
      Mas, recentemente tenho escutado vários pais reclamarem deles, pelos excessos e  prejuízos ocorridos em casa e na escola. Pacientes também têm relatado conflitos no relacionamento afetivo com namoradas (os) ou esposas (os) devido à hiperatividade e pouca atenção que conseguem. Infelizmente os resultados das pesquisas científicas ainda não são conclusivos sobre os déficits ocasionados, não existindo até o momento orientação específica para lidar com os  excessos. Aí parece estar o grande problema: relacionar-se com o que demonstra virtudes inquestionáveis e apaixonantes mas, por outro lado, limitações não compreendidas. Além do risco que tais comportamentos se estabeleçam como um novo padrão, fazendo com que se perca o bom senso e a tranquilidade. Como sempre, cabem aos responsáveis a reflexão e orientação adequadas para que os aparelhos celulares permaneçam apenas como um equipamento a nos servir, e que não lhe sejam atribuídas características e virtudes humanas. Que continuem a facilitar enormemente as nossas vidas, mas sem causar interferência na interação com o que nos rodeia e sem produzir ruídos que impossibilitem nos ouvirmos.         

domingo, 1 de setembro de 2013

A psicologia na sala de aula

      É comum pessoas me questionarem se o mais desgastante no trabalho do psicólogo é ouvir, o dia todo, os problemas dos outros.  Embora merecesse considerações, escutar constantemente as queixas cognitivas (esquecimento, desatenção) e emocionais (ansiedade, desânimo) não é necessariamente tão angustiante como se imagina. O contato continuado com o conhecimento (aprendizado dos métodos e técnicas psicológicas) instrumentaliza e habilita o profissional a intervir adequadamente, assim como acontece com o advogado, engenheiro, professor e médico.
      Entretanto, há uns dias atrás tivemos um momento difícil, ao tentarmos informar um pai sobre o transtorno de aprendizagem que seu filho apresentava e as habilidades e desvantagens identificadas no garoto. Tentamos ainda relacionar as atitudes e hábitos importantes no tratamento. Provavelmente motivado por questões subjetivas, o responsável resistiu a quase toda informação que lhe era fornecida, detendo-se no irrelevante e desconsiderando o essencial. Fiquei, por um tempo, assistindo àquela pessoa, percebendo o seu sofrimento e, consequentemente, a sua defesa por trás da armadura (o fato de possivelmente apresentar o mesmo transtorno do filho deve ter fortalecido sua resistência). As palavras, ditas de várias maneiras e por diferentes pessoas, não encontravam brecha na trincheira emocional daquele pai. Mesmo acreditando que talvez ainda não tenha sido o momento dele lidar adequadamente com a situação, considero - esta sim! - uma situação bastante incômoda na prática psicológica, pelas consequências, geralmente danosas, ao paciente e à própria família.
      Aproveitando que nesta semana foi comemorado o dia do psicólogo (27 de agosto), não poderia deixar de levantar outras possibilidades, não apenas sobre o que foi relatado, mas também  as dificuldades que todos enfrentamos no cotidiano, diante da nossa inabilidade em lidar com certas situações. Diferente da medicina, que é milenar,  a psicologia é uma ciência bastante recente e, no Brasil, tem apenas 51 anos. Entretanto já vem ocupando espaço em praticamente todas as áreas de atividade  humana, como na saúde (psicologia clínica, hospitalar, neuropsicologia), educação (psicologia escolar, psicopedagogia), transporte (psicólogo do trânsito), segurança (psicologia jurídica), esporte (psicologia do esporte), comunidade (psicologia social). Até nos postos municipais de saúde encontramos profissionais que realizam atendimento psicológico gratuito. Mas ainda há muito o que fazer como, por exemplo, popularizar o conhecimento da mente. Não se trata de ensinar técnicas psicológicas as pessoas em geral, transformando-as em discípulas de Freud e cia, mas sim de disponibilizar para a população informações gerais - mas acredito, de grande utilidade - dos fenômenos psicológicos como a motivação, atenção, percepção, decisão e memória.
      Mais uma vez é interessante citar a história da medicina, que aperfeiçoou seus procedimentos, aumentou a expectativa de vida das pessoas, ao mesmo tempo em que disponibilizou alguns de seus conhecimentos, através da educação. O estudo dos sistemas do corpo humano, seus órgãos e funcionamento faz parte do conteúdo programático de todo estudante, de forma repetitiva. Nas disciplinas escolares aprendemos não só como funciona o estômago, coração e cérebro, mas também sobre os alimentos saudáveis e hábitos  adequados ao organismo. Ao final do ensino médio informações suficientes nos foram dadas para formarmos uma compreensão apropriada do nosso corpo, aumentando a possibilidade de realizarmos escolhas mais acertadas com relação a nossa saúde física. E da mente, o quanto somos informados sobre seu funcionamento? Quantas vezes na sala de aula o professor falou sobre os tipos de memória e de atenção, bem como as várias manifestações de inteligência? Algum texto sobre a relação entre as emoções e o "branco" na hora da prova? Alguém já realizou no colégio uma prova cujo assunto incluísse as situações psicologicamente saudáveis e insalubres, ou participou de uma atividade de classe cujo objetivo era como lidar com a frustração? Como podemos melhorar o desempenho atencional e de memorização se desconhecemos as características das funções cognitivas?  Como esperar que - com 10, 15 ou 20 anos - realizemos escolhas adequadas nos relacionamentos, profissão e aquisições se ignoramos totalmente as peculiaridades da mente emocional e racional de interpretarem um estímulo?
       Convencido de que " a educação é o grande motor do desenvolvimento pessoal" (frase atribuída a Nelson Mandela), proponho a inclusão do  estudo da mente humana na formação escolar dos estudantes, com o objetivo de fazê-los conhecer e vivenciar os fenômenos subjetivos desde cedo (assim como o estudo formal possibilita uma visão de mundo mais ampla, e a prática regular de uma atividade física favorece à consciência corporal, possivelmente o conhecimento e a vivência continuada dos fenômenos psicológicos também proporcione o surgimento de uma outra consciência: a mental). Com a psicologia na sala de aula, talvez na disciplina de ciências, quem sabe não aumentaríamos as chances  de formar gerações de pessoas mais conscientes do que sentem e pensam, mais habilidosas em lidar com a própria mente e, possivelmente, mais serenas, flexíveis e evoluídas? Capazes de perceber e distinguir em si mesmas alterações emocionais e cognitivas precocemente, evitando alguns quadros maiores de destatenção, impulsividade, agressividade e ansiedade.   Quanto a nós, psicólogos, ficaríamos com menos opções de trabalho, mas plenamente realizados, pois o sucesso foi alcançado - por nos tornarmos desnecessários.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Os exageros na educação dos nossos filhos


    Hoje amanhecemos bastante apreensivos com a hospitalização de uma pessoa muito amiga da família - um adolescente que, numa dose elevada de imprudência, sofreu um traumatismo craniano. Felizmente as primeiras notícias indicam uma melhora e estamos torcendo muito para uma rápida recuperação. Mas, diante do ocorrido, de outras situações caseiras e de ter presenciado esta semana, num mercadinho do bairro, uma mãe com grandes dificuldades para administrar os desejos dos filhos na compra do lanche da escola, novamente surgiram algumas perguntas: o que estamos fazendo com os nossos filhos? Como distinguir entre o que é fundamental, interessante e  irrelevante para estimular na educação dos nossos meninos? 
      As pessoas de mais idade dizem a uma só voz que "a educação das crianças está muito mudada". Segundo eles, antigamente, menino mal falava diante dos adultos. Quase não manifestava a sua preferência e muito menos decidia alguma coisa. Cabiam aos pais tomar todas as decisões que envolviam a vida do menor, seja na alimentação, vestimenta, passeios e hábitos (estudo, sono, brincadeira, boas maneiras). De quebra, um sistema disciplinar muito presente, que incluía palmadas, surras com cinto, castigos, estudo em colégio interno, entre outros. Havia a compreensão de que uma criança era incapaz de tomar decisões e, por isso, necessitava da experiência e autoridade do adulto. Além disso, os pais transferiam sua autoridade às escolas e professores, que também mantinham um rígido controle dos alunos, podendo utilizar até castigos físicos (palmatória, ajoelhar-se no milho). Entretanto havia também importantes limitações afetivas nas relações, com uma reduzida demonstração de carinho entre os familiares.
     Não sei se influenciada pelo fortalecimento da democracia no país e pelas mudanças econômicas e sociais ocorridas nas últimas décadas, mas a realidade é que a família mudou. Antes verticalizada, as relações passaram a ser horizontais, com uma maior distribuição das necessidades, desejos, opiniões e autoridade. O temor e o distanciamento deram lugar ao companheirismo e à cumplicidade. A reciprocidade afetiva entre pais e filhos foi construída. Progressivamente a prole vem tendo uma participação cada vez maior nos acontecimentos e decisões familiares - sem falar das decisões que lhe dizem respeito! Em casa e na rua, menores estão decidindo o que e como fazer. É crescente a dificuldade dos pais em estabelecerem um cardápio cotidiano diante da recusa dos filhos em se alimentar de frutas, verduras e até carnes. O local das refeições, pelo gosto deles, tem se tornado itinerante - na sala, no quarto, na varanda - e, a  companhia mais frequente, é a televisão. O sono, embora fartamente demonstrada a sua importância no equilíbrio físico e mental, vem perdendo relevância nos lares, com as crianças dormindo muito tarde. Nas festas, eles decidem e comunicam aos pais o entretenimento a ser utilizado, a roupa que irá vestir, a maquiagem desejada e a hora de começar e terminar (sem esquecer o consumo precoce de bebidas alcoólicas pelos adolescentes que, na impotência ou concordância dos pais, potencializa a impulsividade peculiar da idade, deixando-os mais inclinados a atitudes inconsequentes e, algumas vezes, desastrosas).  Com o poder de compra que adquiriram, os pequenos são vistos pelos anunciantes da tv como um novo nicho de mercado e, nas lojas, são tratados como clientes especiais, sendo-lhes oferecida uma quantidade interminável de produtos. É um pequeno adulto.
      Se as gerações anteriores cometeram alguns exageros e conseguimos, agora, que nossas famílias tenham se tornado mais descontraídas e carinhosas, permitindo, entre outras coisas, que o pai desenvolvesse um contato  mais próximo e afetivo com o filho - antes restrito à mãe -,  parece também que estamos exagerando. Se antes havia intransigência com o comportamento pueril, hoje há permissividade, passando de uma ditadura adulta para uma infantil; se o controle era ostensivo, atualmente nos aproximamos da omissão, deixando que menores de idade tomem decisões as quais não estão preparados biológica e emocionalmente; se a valorização da autoestima não era uma prioridade no passado, passamos a estufar o ego das nossas crianças, deixando-as exageradamente vaidosas, também por não as repreender oportunamente; se algumas vezes o sofrimento era utilizado de forma desnecessária como um instrumento pedagógico, invertemos a situação e estamos ensinando a nossos filhos serem fóbicos a tudo o que os incomode e lhes cause frustração, impedindo-os de vivenciarem sofrimentos naturais da vida. O momento está exigindo reflexão de todos nós - pais, avós, tios, primos, filhos, amigos. Precisamos pensar mais, para não sermos apenas repetidores do que está acontecendo. É prudente desfrutarmos os avanços recentes sem esquecermos a experiência passada. Mas é fundamental estarmos sempre lembrados de que, ao evitarmos um incômodo necessário no presente, corremos um risco de uma dor maior no futuro.

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Desenvolvimento humano

     Nesta última quarta-feira, numa passagem rápida na casa de meus pais, após alguns minutos escutando  meu idoso relatar, escandalizado, as notícias da criminalidade do jornal da cidade, fui tentar identificar o problema com o telefone celular de minha mãe, que não funcionava. Quando desmontei o aparelho e peguei o chip na mão, o patriarca - uma pessoa naturalmente avessa a equipamentos eletrônicos - comentou espantado: "mas como pode algo tão pequeno conter tantas informações?!" Depois de rápidas elucubrações e dos cumprimentos me despedi deles, mas não da perplexidade do meu pai diante da crueldade e da genialidade humana. Fui embora com a desigualdade dos comportamentos humanos ocupando meus pensamentos.
      No decorrer deste dia as informações de centenas de mortos nos conflitos sociais no Egito, a eterna guerra entre palestinos e israelenses e o atentado no Líbano, de um lado, e a descoberta de novos  medicamentos para o câncer, a tecnologia empregada na extração do petróleo do pré-sal brasileiro e o início do recrutamento de candidatos para colonizar marte, de outro, fomentaram ainda mais a minha inquietação frente a condutas humanas tão díspares. É uma intensa e progressiva habilidade em compreender e manusear o ambiente externo, contrastando com um manejo rústico e desajeitado do ambiente interno. Modificamos paisagens, transformamos o dia e a noite, prorrogamos a morte, mas pouco alteramos nossa realidade subjetiva, e continuamos ainda reféns das nossas necessidades ancestrais (protagonizadas pelo prazer e poder).
      No oriente e no ocidente várias religiões e correntes filosóficas surgiram para nos disponibilizar reflexões e opções comportamentais mais refinadas - geralmente indicando as vantagens de se renunciar alguns desejos - mas, realmente, nossas inclinações pouco mudaram nos últimos milhares de anos. Talvez por isto muitos já perderam as esperanças na humanidade, percebendo-a perversa e condenada ao fracasso. Mas, se considerarmos a evolução das espécies, quantas mudanças biológicas ocorreram ao longo de 5 ou 10.000 anos num animal complexo? Como leigo, mas curioso no assunto, acredito que nenhuma.  No pouco que li e nos documentários a que assisti só me recordo de ter identificada a expressão "milhões de anos", e não milhares. Então como podemos esperar que mudanças estruturais do comportamento humano - que também implicam em mutações genéticas - aconteçam em breves milhares de anos?  E o que dizer da nossa pretensão de testemunhar tais transformações numa piscadela de 70 ou 90 anos da nossa efêmera vida?
    O tempo que vivemos é pouco para o muito que queremos. Mas se amenizarmos a nossa ansiedade, iremos identificar no horizonte o surgimento de um novo paradigma (principalmente em países com melhor qualidade de vida). Haverá um tempo - se não houver um possível cataclismo - em que a ignorância e o preconceito que temos contra a história filogenética da humanidade darão lugar à compreensão do processo evolutivo do comportamento humano. Assim poderemos realizar nossas escolhas com serenidade e lucidez, exercendo efetivamente o livre arbítrio. Mesmo sabendo que não estarei mais aqui quando lá chegarmos, comemoro só em imaginar.

domingo, 11 de agosto de 2013

Pai nosso...

       Há várias semanas sem escrever, hoje me determinei a sentar e rabiscar qualquer coisa, nem que depois deletasse tudo. Desde o final do ano passado, por exigência de um vínculo empregatício, tenho sido obrigado a permanecer grande parte do meu tempo num setor cujas atribuições não exigem a minha presença durante todo este período. Até então, durante onze anos, pessoas que se interessaram em conhecer efetivamente as responsabilidades do serviço  - diretores, chefes, funcionários - constataram, sem muito esforço, que esta atual exigência não era essencial para a prestação de um atendimento com excelência. 
       Deixando de lado a discussão sobre as obrigações legais e a diferença entre meios e finalidade do serviço público, o que pretendo agora é apenas descrever a situação para melhor visualiza-la, tentando amenizar o persistente incômodo e facilitar uma provável decisão. Desde o último natal, a permanência num ambiente de trabalho progressivamente insalubre, com algumas relações bem desgastadas e mudanças significativas no modus operandi do setor tem sido acompanhada de uma insidiosa insatisfação, culminando num tratamento de gastrite no mês passado e crises de labirintite nos últimos dias. Não é a toa que dirigindo, conversando com familiares e amigos ou simplesmente repousando, repetidamente me percebo pensando ou falando sobre o assunto (como se não bastasse a perda desnecessária de tantas horas do meu dia, preencher também grande parte dos meus pensamentos é um desperdício da minha vida!).
       Mesmo sabendo que deveria agradecer por estar empregado, que esta pode ser apenas uma fase transitória e que o serviço público é assim mesmo, o incômodo parece progredir... Será que a segurança de um emprego justifica a constante insatisfação no ambiente profissional? O salário no final do mês, protagonizado pela assiduidade e pontualidade, compensa os gastos  com os tratamentos e o mal estar vivenciado? A garantia de uma aposentadoria na velhice ameniza a sensação de esvaziamento nos dias, meses e anos que se seguem? "Pois onde estiver o seu tesouro, aí também estará o seu coração"(Mateus 6:21).
      Deletar, publicar, deletar...

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Manifestações: abram os olhos!

      Nas últimas semanas as manifestações populares que ocorreram nas cidades brasileiras ocuparam grande parte da programação televisiva. O que começou como reação ao aumento da passagem dos ônibus tomou outras direções, com variadas reivindicações: falta de prioridade no uso de verbas públicas, baixa qualidade dos serviços oferecidos à população, projetos de lei inadequados, etc. O que era para ser um evento pacífico terminou resultando em depredações e conflitos entre manifestantes e policiais. Embora atualmente em menor intensidade, durante vários dias os protestos foram, provavelmente, o assunto mais discutido nas empresas, famílias e entre amigos: todos tentando entender este amplo e raro fenômeno social ocorrido no país.  De uma forma geral, o que temos escutado são palavras de apoio às manifestações, porém com críticas aos atos mais agressivos em relação aos policiais (e vice-versa) e ao patrimônio, seja ele público ou privado. A pichação, destruição de placas e semáforos,  saques de lojas, o arremesso de paus e pedras nos policiais, uso de coquetel molotov para incendiar veículos, orelhões e prédios causaram indignação da imprensa e da população em geral.
      Neste mesmo período - não sei se pela presença das milhares de pessoas nas ruas e a imprevisibilidade do comportamento da massa, ou ainda pela proximidade das eleições (2014) - tem ocorrido um surto de consciência coletiva no poder executivo e legislativo, ensaiando algumas providências exigidas nas ruas: diminuição do preço das passagens, arquivamento de projetos de lei impopulares e colocação na pauta de votação de outros com benefícios sociais, idealização de uma consulta popular....Aqueles que até um mês atrás pouco (ou nada) enxergavam os reclames sociais, embriagados pela sensação de poder que os altos cargos propiciavam, repentinamente aprimoraram sua acuidade visual e desceram rapidinho as escadas da realidade. O interessante foi que praticamente todos os gestores falaram mais como um manifestante do que como um co-responsável pelas ausências do Estado. Faltou pouco para eles irem também para as manifestações, com cartazes nas mãos e as caras pintadas.
      Tirando esta quase manifestação dos gestores, de lá para cá já ocorreu a dos caminhoneiros, profissionais da saúde, professores universitários, moradores de conjuntos residenciais. Provavelmente virão muitas outras. Acredito - e torço - que estamos descobrindo a força da coletividade, formando multidões não apenas nos estádios de futebol e shows musicais, mas nas ruas, reclamando e intimidando os que assumiram o compromisso com o bem comum. Isso mesmo, intimidando! Não se trata de uma apologia à baderna e à anarquia, nem uma concordância ou incentivo à destruição ocorrida, mas da constatação do surgimento de um fenômeno comportamental coletivo, que apresenta tendências inevitavelmente primitivas e imprevisíveis. E com os recursos tecnológicos atuais, que estimulam a formação de grupos virtuais e a expressão de opiniões, dificilmente este comportamento social desaparecerá. Ao contrário, o que vemos no mundo são manifestações frequentes e com importantes impactos políticos. Então, aos representantes  do povo, um aconselhamento psicológico: embora estejamos no século 21 - sendo educados com valores morais e religiosos, rodeados de tecnologia em casa, no trabalho e nas relações, usufruindo de um ambiente com significativa liberdade de opção e expressão, tendo acesso constante a um volume imenso de informações -, a força e, consequentemente, o medo ainda fazem parte da essência humana, seja ela manifestada individual ou coletivamente. Por isso, abram os olhos, porque parece que a massa sentiu levemente o gosto do poder!

terça-feira, 21 de maio de 2013

Sem (ou cem) consciência (s)?

     A leitura de assuntos relacionados à neurociência e o contato com pessoas que apresentam disfunções cerebrais devido a traumas cranianos, uso de drogas, epilepsia refratária e síndromes demenciais nos colocam diante de alguns quadros tristes, alegres e outros interessantes. Recentemente, procurando artigos sobre níveis de processamento cognitivo e construção da consciência, reli algo sobre a habilidade de ver coisas não estando consciente delas. É a visão cega: quando uma pessoa, demonstrando consciência em perceber todos os estímulos, exceto os visuais, consegue desviar dos obstáculos a sua frente. Ocorre quando há lesões bilaterais do córtex visual primário do cérebro, onde a visão é experimentada conscientemente. Na visão cega, a capacidade de evitar tropeços e quedas é atribuída a região subcortical - provável vestígio de um sistema visual primitivo, cujo objetivo era simplesmente favorecer à sobrevivência e não apreciar as obras de Picasso (Carter, R. 2003). Entretanto, esse fenômeno sugere mais: que o pensamento, assim como a percepção sensorial, apresenta estágios ou níveis de processamento, mas nem todos conscientes.
     Diariamente produzimos uma quantidade imensa de pensamentos - dizem que entre 40 a 60.000 -, impossível de vivenciá-los, em sua totalidade, de forma consciente. Para otimizar o processamento de informações e, consequentemente, a adaptação e a sobrevivência da espécie, foi desenvolvido um tratamento diferenciado para os estímulos novos e repetitivos. Quando iniciamos um novo aprendizado - dirigir um veículo, por exemplo -, precisamos estar bem conscientes e atentos. Nas primeiras aulas temos que perceber vários estímulos (visuais, sonoros, táteis), planejar e decidir ações (ligar o carro, passar a marcha, acionar a seta, acelerar) e monitorar eventos (motorização do veículo, posicionamento em relação à via e aos outros, etc). Isto implica no funcionamento de várias regiões cerebrais (principalmente os lobos frontais), com uma ampla e dispendiosa atividade nervosa. Entretanto, à medida que o estímulo se repete e a aprendizagem é estabelecida, a resposta tende a ser facilitada, não necessitando mais de tanta concentração mental e, consequentemente, de todo aquele maquinário cerebral. O comportamento torna-se automatizado. Em geral, quanto mais desenvolvida a aprendizagem de um determinado procedimento ou assunto, menos concentrados precisamos estar para realizá-lo ou debatê-lo, respectivamente. Se assim não fosse, ao conduzirmos nosso veículo para o trabalho ou passeio, precisaríamos estar, todo dia, muito conscientes e atentos aquele conjunto de providências relativas à condução veicular. Imagine se acontecesse a mesma coisa com todas as atividades que fazemos cotidianamente e que achamos tão simples realizá-las (e são porque as fazemos "sem pensar"). Provavelmente na metade do dia já estaríamos bem desgastados mentalmente e a nossa aparência não seria uma pintura.  Porque é impossível processar toda a demanda diária de estímulos e respostas com o mesmo nível de consciência e prontidão mental.
      Na década de 90, LeDoux  já apontava para a existência de dois principais circuitos da emoção: o trajeto rápido, com um menor percurso neuronal entre o tálamo e a amigdala, que interpreta estímulos e desencadeia comportamentos emotivos sem a participação da consciência; e o trajeto lento, com um maior percurso de neurônios entre o tálamo e o córtex, com uma percepção detalhada e comportamentos mais elaborados. Segundo o pesquisador "não é necessário que saibamos exatamente o que uma coisa é para que saibamos que ela pode ser perigosa". Em outros tempos, num ambiente extremamente selvagem e imprevisível, se não fosse o trajeto rápido da emoção provavelmente a espécie humana seria encontrada apenas fossilizada ou em pinturas rupestres.
      A partir destes eventos - visão cega, comportamento automático e circuitos da emoção - fica caracterizada a  nossa capacidade de responder a estímulos sem estar plenamente consciente deles, ou melhor, fica evidenciada a atividade mental num espectro de consciência. Ou ainda como uma sobreposição progressiva de percepções, emoções, lembranças e decisões que, ao longo da evolução, nos proporcionou habilidades - como a de responder de forma rápida e precisa ("reflexos"), ter reações inesperadas em momentos de perigo extremo -, mas também limitações, como a exagerada programação de automatizar comportamentos, comprometendo a memória, e a vulnerabilidade de perder o controle e agir de forma desnecessariamente agressiva. Sem ignorar, endeusar ou demonializar, é possível tirar proveito desse aspecto ancestral de humanidade, lembrando de escutá-lo no silêncio e considerá-lo cotidianamente. Senão, teremos realmente uma visão cega.

segunda-feira, 22 de abril de 2013

A influência da vida moderna na qualidade dos relacionamentos



       A convite do meu irmão mais velho, estive no último dia 13 com um grupo de casais, que escolheu o título desta postagem como assunto do encontro. Ele também me pediu que incluísse na apresentação o uso dos recursos tecnológicos e das mídias sociais, percepção e uso do tempo, entre outras coisas atuais. O interessante é que também nesses dias vinha lendo a edição especial da Revista Mente e Cérebro, intitulada " O Segredo da Decisão", que descreve algumas pesquisas recentes de como realizamos as pequenas e grandes escolhas, seja no amor, na família, no trabalho, na vida social, na hora de comprar e na alimentação. No dia do encontro, após aguardar alguns minutos a chegada dos participantes - que foram transportados em modernos automóveis - e saborear um lanche com uma grande variedade de pratos - provavelmente proporcionado por sofisticados eletrodomésticos - iniciei a palestra solicitando que o grupo descrevesse a vida moderna. Correria, inúmeros equipamentos eletrônicos, comprometimento da interação entre pais e filhos, falta de tempo... Foram muitas as características atribuídas, porém todas negativas! As pessoas só relataram aspectos prejudiciais e inadequados do momento histórico que vivemos. Ninguém levantou a possibilidade de haver, na vida moderna, algo de benéfico ou adequado.
      Não há como negar o exagero contemporâneo - estimativas indicam que estamos expostos a 30 mil anúncios de tv por ano, 7,3 bilhões de emails comerciais (spam), além de uma quantidade avassaladora de informações jornalísticas e científicas, acrescida de uma infinidade de novos produtos e serviços constantemente oferecidos -, nem a dificuldade de se fazer escolhas em meio a uma oferta tão abundante. No nosso cotidiano não faltam situações que prometem prazer imediato, exigindo consequentemente uma maior capacidade de resistir a tentação e manter o autocontrole (a conhecida batalha entre o impulso e a reflexão; anjinho x diabinho). O problema, entretanto, é que o ato de refletir, em termos neurofisiológicos, é complexo, lento e dispendioso, o que já não acontece com a atitude impulsiva (que necessita apenas do "tico e teco"). Por isso somos mais vulneráveis aos desejos. E diante de tantos desafios e atividades que a modernidade nos impõe, o tempo e a disposição mental - fundamentais para a reflexão - são cada vez mais raros. Em relação a isto, a Mente e Cérebro destaca que "os impulsos influem mais em nosso comportamento quando dispomos de poucos recursos mentais para a reflexão". Um dos artigos da revista ilustra que é mais difícil para uma pessoa resistir a um almoço calórico após algumas horas envolvida numa entrevista de trabalho, do que se a manhã fosse menos sobrecarregada psicologicamente. Ou seja, a diminuição da reflexão - olhar para dentro - traz grandes prejuízos ao comportamento humano, pois compromete as metas de longo prazo, não só na reeducação alimentar, mas na aprendizagem em geral,  seja ela acadêmica, social, existencial. Na edição "O Segredo da Decisão" as pesquisas indicam que a reflexão é essencial para construir memórias e conferir sentido aos acontecimentos, assimilar valores morais e digerir o que foi aprendido. Diz ainda que preencher o tempo com tarefas como internet e tv atrapalha a dispersão natural e necessária do cérebro (crianças motivadas a desfrutar o tempo livre tem menos problemas de ansiedade, melhor desempenho escolar e demonstram melhor capacidade de planejar o futuro).
          Por outro lado, não há como negar também os ganhos que a vida moderna vem nos proporcionando, tanto no plano individual  como no coletivo: equipamentos que promovem a comodidade e o conforto sensorial, tratamentos mais eficientes para doenças, aumento da expectativa de vida, democratização do acesso a informações e serviços, encurtamento de distâncias, maior variedade de opções de trabalho, compartilhamento de idéias, mudança de paradigmas, interação e mobilização sociais... Neste contexto, a grande protagonista das modificações tem sido a tecnologia, que embora está geralmente associada a complexos equipamentos, significa essencialmente um jeito especial de se fazer algo ou um conjunto de técnicas e conhecimentos usados para resolver problemas ou, ao menos, facilitar a solução deles.
        Escrevendo esta postagem e lendo a definição de tecnologia foi que atentei para o maior desperdício de oportunidade no encontro de que participei: os casais que estavam presentes faziam parte de um grupo religioso (católico). Mesmo considerando o meu desconhecimento no assunto, poderia ter aproveitado o momento para arriscar a dizer que os ensinamentos de Cristo foram, provavelmente, o instrumento tecnológico de maior impacto na humanidade. Sua divulgação ocorreu numa época em que o padrão era ser impiedoso, amedrontador, hipócrita ou subserviente. Com a proposta de resolver problemas humanos, Ele apresentou a técnica e os conhecimentos com a mais alta tecnologia em inteligência emocional: através da palavra - e não da violência - demonstrou o que há de mais moderno na área do comportamento, ao ensinar a perdoar e amar ao próximo. Sendo assim, não precisamos temer as tecnologias, nem crucificá-las. Umas mais, outras menos, com reflexão podemos utilizá-las para proporcionar qualidade aos nossos relacionamentos. Porém difícil, às vezes, é entender o manual e seguir as instruções!

sexta-feira, 15 de março de 2013

Máquina do tempo

      Neste último sábado me reuni com um grupo de pessoas que há muito tempo não encontrava: meus colegas de faculdade. O motivo foi a comemoração do aniversário de 18 anos da nossa formatura em psicologia. Durante todo este período encontrei, em raras oportunidades, apenas com algumas pessoas. Por isso, reencontrá-los, após quase duas décadas, foi muito bom! E mesmo não sendo possível juntar toda a turma, foi muito agradável receber em casa os que puderam ir, tornando aquele dia inesquecível!
      A tarde que passamos juntos foi repleta de alegria, compartilhamento de fotos e lembranças, brincadeiras, altas gargalhadas, algumas fofocas inevitáveis e muita, mas muita descontração (sem falar do sururu, filé de siri, camarão, churrasco  e outros quitutes que aumentaram a nossa plenitude). Foram recordadas tantas coisas já vividas que o passado e o presente se misturaram na minha cabeça e, em alguns momentos, fiquei sem saber se estava lá ou aqui. Pois, com as lembranças, vieram também emoções e comportamentos juvenis, tornando-me (e acredito que os colegas) - por algumas horas - novamente um universitário.
       Foi possível também se aproximar um pouco da vida de cada um: alguns casados, outros solteiros; uns com filhos e outros não; os que permaneceram na psicologia e os que encontraram diferentes caminhos profissionais. Interessante também foi possibilitar que meus filhos conhecessem um pouco da minha  história de maneira diferente, tendo um contato mais próximo com os personagens e acontecimentos ocorridos, despertando neles a curiosidade (Por que te chamavam de gg, perguntou o mais velho? O que vocês faziam na faculdade, questionou o meu caçula? Aquele Roberto é muito engraçado, disse a minha garota).
      À noite, após nos despedimos, ainda envolvido por aquele momento, comecei a lembrar de outras turmas que convivi e lugares que frequentei:  a escola pública (CEPA), onde cursei o ensino infantil e fundamental, o Colégio Marista de Maceió, onde fiz o ensino médio, o grupo do quartel (NPOR - Núcleo de Preparação de Oficiais da Reserva), o curso de Neuropsicologia, na Puc de Porto Alegre. À medida que ia recordando estes períodos, pude perceber o quanto ficou para trás, principalmente aquelas situações de grande expectativa, como o período de provas, proximidade dos jogos e viagens, apresentações escolares, acampamentos militares, etc. Sem falar das pessoas, que não as encontro há mais de 10, 20 ou 30 anos e que, possivelmente, nunca mais as verei. Onde estarão os meus amigos do time de futebol da 4a. série, os atletas do handebol e os companheiros do quartel? Embora poucos, mas felizmente tenho uns amigos que têm me acompanhado ao longo da vida, ajudando-me a tornar mais fortes determinadas  lembranças da minha história.
      E por isso, repito que foi muito bom reencontrar os amigos da faculdade! E foi bom também porque pude reencontrar comigo mesmo, só que bem mais jovem. Reviver o meu jeito de pensar e sentir a vida com vinte e poucos anos.   Imagine se pudesse me reunir com aquelas minhas outras turmas do passado e dizer um alô  para o Jerônimo de 5, 10 e 15 anos.  Seja com comemorações, psicoterapia ou simples reflexões, é salutar - e bastante agradável - que possamos contactar com a nossa história, seja para desfrutar ou para amenizar certas experiências, numa ajuda mútua entre o passado e o presente.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Renovando o ar

      Após um longo período longe dos rabiscos, retorno - mais enferrujado e endurecido no manejo com as palavras - a comentar certas informações e acontecimentos. Foram mais de dois meses sem escrever uma linha, embora não faltassem assuntos que me provocassem questionamentos, incômodo ou encantamento. Andando nas ruas, lendo algo, assistindo à tv, convivendo com familiares e amigos, e atendendo no consultório: várias vezes fiquei fora do ar por alguns instantes diante de algo que merecia uma maior atenção e ponderação. Mas, mais uma vez, no meio da multidão fiquei mergulhado no fluxo de atividades do dia-a-dia. Na correria de final de ano, foram várias providências, festividades, viagem, férias,  preguiça... E tive momentos bem agradáveis, rodeado de pessoas queridas, cenários paradisíacos, mas sentindo também falta dos meus outros momentos, com os meus botões... É quando aspiro outros ares e tento visualizar o horizonte. Semelhante a uma baleia que, para viver bem embaixo d'água, precisa regularmente emergir para respirar. É um afastamento da correnteza cotidiana. E parece que está cada vez mais veloz e difícil de não ser engolido por ela. Será pelo acúmulo de atividades, sejam físicas ou mentais, que estamos acrescentando no nosso dia? Ou pelo volume aparentemente excessivo de informações que dizem que precisamos obter? De vez em quando escuto alguém dizer que gostaria que o seu dia tivesse mais de 24 horas ou ainda que seria muito interessante se ela fosse duas pessoas ao mesmo tempo, para poder realizar todos os projetos idealizados. Estamos impregnados de velocidade: na crescente dificuldade de permanecermos sossegados quando não há o que fazer, quando não conseguimos controlar o volume e rapidez dos nossos pensamentos, na impossibilidade de suportar a espera da vitória, no breve período que saboreamos as sensações agradáveis e na pressa angustiante que desejamos o término do sofrimento (existem coisas que estão fora do nosso controle e tem o seu ritmo próprio). E é bom lembrar que, na nossa mente, um evento (estudar, trabalhar, viajar, comprar) não é simples e rapidamente salvo numa pasta, como num computador. A situação é primeiro vivenciada emocionalmente e compreendida cognitivamente. Em seguida é editada e vagarosamente memorizada, associada a outros eventos semelhantes. A conotação afetiva (alegria, tristeza, raiva, medo) que atribuímos a cada episódio  não só influencia a percepção e memorização dessa experiência, mas repercute no funcionamento geral da mente, interferindo nas percepções e decisões que ocorrerão em seguida. De alguma forma todo conteúdo adquirido por nós passa a fazer parte da gente. Sendo assim, precisamos ficar mais atentos à qualidade do que presenciamos, seja nos relacionamentos, na mídia ou nos escritos. Porém, na rapidez com que passamos nossos dias é pouco provável que consigamos refletir e selecionar. Por isso, temos que evitar permanecer muito tempo na vazão dos episódios, para não ficarmos presos às correntes. Que cada um encontre o seu jeito de emergir e respirar, aproveitando para contemplar a paisagem.

domingo, 18 de novembro de 2012

Fazendo história

        Nas duas últimas vezes que fui ao cinema com a esposa, na expectativa de assistir a um bom filme, voltei extremamente frustrado - e até irritado -, diante das produções medíocres apresentadas.  Como frequentemente assistimos à sessão das 21 horas (período que geralmente estou concluindo as atividades para realizar uma outra prazerosa atividade  - dormir ), fico torcendo para que as horas perdidas do meu saboroso sono sejam compensadas com momentos de emoção e reflexão. Entretanto, neste último mês as escolhas foram terríveis, ao ponto de decidir voltar para a casa assim que terminou ... a pipoca (bem antes do final do filme). Bastante desconfiado - pensei até em não comprar a pipoquinha - resolvi nesta última quinta-feira arriscar novamente: comprei o bilhete, entrei na sala, sentei-me na H7, assisti... E foi fantástico! "De Pai Para Filho", um filme realmente arretado, e emocionante! Na biografia de Luiz Gonzaga, a pobreza, a discriminação, as frustrações, as dificuldades, o sucesso, o fracasso e o reencontro com o filho me fizeram até parar de mastigar para acompanhar o desenrolar de uma grande história. Além de ouvir belas canções, relembrar alguns fatos históricos e presenciar uma formidável interpretação do elenco. Fui lembrando também da minha adolescência, quando escutava as músicas do Gonzagão e dançava quadrilha nas ruas e nas escolas, "guardando as recordações" de onde passei e "dos amigos  que lá deixei". A vida de Luiz Gonzaga foi realmente uma grande história, digna de um grande filme, que teve como protagonistas a rudeza, a paixão e o perdão.
        Há algum tempo venho observando com maior interesse as histórias das pessoas e as mudanças de enredo ocorridas nas últimas gerações (ver postagem anterior - Parabéns). Ao assistir à biografia do maior cantor nordestino, bem como de outras pessoas anônimas (pacientes), imagino que certos eventos e comportamentos parecem ser importantes na construção de uma história. Por isso, desejo (e espero estar contribuindo) que meus filhos tenham mais que momentos agradáveis nos seus dias: que eles tenham experiências, pois acredito que estas contribuirão para a formação de alguns valores e atitudes que nortearão os seu caminhos. Que venham as alegrias e tristezas, mas que não falte paixão - pelas pessoas, mas também pelas idéias. E que, como Gonzaguinha, saibam perdoar e ver "que a vida devia ser bem melhor e será, mas isso não impede que eu repita, é bonita, é bonita e é bonita". 

domingo, 4 de novembro de 2012

Parabéns


         Na quarta-feira passada, 31 de outubro, fui comemorar com familiares os oitenta anos do meu pai. Embora eu não tenha testemunhado praticamente a metada de sua vida - quando eu nasci ele tinha 37 anos - sei que foram anos de muitas dificuldades: família de poucos recursos financeiros e muitos filhos (mais de 10), com uma mãe especializada nos cuidados maternos e um pai muito habilidoso nos números e nas palavras - orgulhosamente, foi um dos pioneiros no jornalismo alagoano -, mas que precisava trabalhar os três horários para sustentar a casa. Sendo o mais velho dos homens, a responsabilidade com as necessidades do lar foram precocemente assumidas pelo meu velho, que transbordava de disposição e compromisso familiar. Num ambiente com fartura de informações, entusiasmou-se progressivamente pelas leituras diversas, culminando nas graduações de Filosofia e Direito. Nos últimos quarenta anos os desafios e obstáculos continuaram, com significativas perdas (emocionais) e alguns ganhos, mas ele sempre enfrentando com um imenso senso de honestidade e responsabilidade - suas principais características. Sem falar da admirável e inquietante inclinação pelas coisas simples e naturais, e do desapego a ideologias e modismos.
         Tirando as peculiaridades e outras limitações pessoais, a história de meu pai é semelhante à de muitos pacientes idosos por mim atendidos: um início de vida com muitas restrições, em famílias numerosas e geralmente pobres, longos momentos de sofrimento, participação precoce nos serviços de casa, forte espírito de coletividade entre os familiares, a honestidade como vaidade e o sucesso obtido de forma lenta e gradual. Entretanto, num outro grupo de pacientes, tenho escutado o relato de experiências familiares bem diferentes: lares com poucas crianças, com a geladeira e armários abarrotados de alimentos, parentes e funcionários geralmente tentanto satisfazer imediatamente a maioria dos desejos dos menores, um esforço acentuado para manter o filho alegre e impedir o seu sofrimento, pouca (ou nenhuma) colaboração das crianças e adolescentes nas atividades caseiras, a colocação da inteligência e da competitividade como objetivos maiores na formação da prole, e o ato de comprar adquirindo status de principal fonte de prazer.
        Pelo que percebo - e dizem os especialistas - as significativas mudanças econômicas ocorridas nas últimas décadas no país vêm, gradativamente, modificando o nosso comportamento. Embutidos nos novos produtos e serviços, estão os recentes valores sociais: a intensidade, a velocidade e a comodidade. Na relação com as pessoas, objetos e acontecimentos, temos sido influenciados a considerar como positivas as vivências intensas, rápidas e cômodas. Mas, qual o verdadeiro impacto destas modificações no nosso comportamento? Quais habilidades e dificuldades serão fortalecidas? A que tipo de distúrbios ou transtornos estaremos vulneráveis com tais alterações? Contribuirão para favorecer a serenidade e sabedoria, ou a ansiedade e a angústia? Com todos os exgeros e equívocos, parabéns a você meu pai, e a sua geração!
 

     

domingo, 7 de outubro de 2012

O grande encontro

      Quando estamos criança, ficamos de cara feia ou choramos quando nossos pais nos proibem de realizar todos os nossos desejos e fantasias. Na adolescência, mais fortes e inteligentes, discordamos de muitas idéias e atitudes dos coroas, chegando ao ponto de discutirmos e até nos revoltarmos; além disso, nos sentimos extremamente entediados com a lentidão dos dias, querendo que o tempo passe rápido para chegar a tão esperada maioridade e fazermos muitas coisas diferentes. Depois de uma longa espera estamos adultos e com liberdade de escolhermos nossos caminhos: de preferência que nos levem a experiências intensas e variadas. É a fase em que dispomos de um corpo rígido e uma mente flexível.
      Quando aprofundamos um relacionamento amoroso, progressivamente a outra pessoa começa a questionar e reclamar de certas atitudes nossas que não percebemos - mas que também nos desagradavam quando identificávamos em nossos pais. Com a chegada dos filhos, mesmo com os inúmeros livros lidos e entrevistas assistidas, sentimos a necessidade de repetir com os rebentos vários ensinamentos vividos na nossa infância, tornando-nos agora seus ardorosos defensores. Estando na meia idade, envolvidos em muitas atividades e responsabilidades, inclinamo-nos a ficar fortemente automatizados e pouco flexíveis. Se não aprendermos com as situações da vida, orientação religiosa ou com psicoterapia, caminhamos gradativamente para o enrijecimento, incorporando comportamentos que há algum tempo nos incomodavam . É a época em que o tempo passa mais rápido: tão veloz que chegamos na terceira idade sem perceber. Percebemos então as várias mudanças ocorridas em nós e no ambiente e, se não encontrarmos sentido nas atividades e ocupações, os ponteiros do relógio vão se arrastar lentamente. É o momento que ficamos mais apegados  - e até dependentes - a conceitos, sentimentos e hábitos antigos, alguns inadequados. É uma fase delicada porque, ao contrário da juventude, tendemos a ter um corpo maleável e uma mente rígida ("cabeça dura"); a nos relacionar mais intensamente com os conceitos do que com os estímulos do ambiente. Os valores podem petrificar e dificultar muito a nossa caminhada, tornando-a desnecessariamente pesada e dolorosa. Além disso, nossos filhos ficarão irritados, ansiosos ou tristes diante das nossas teimosias e, provavelmente, repetirão o mesmo padrão de comportamento com as futuras gerações.
      Não desperdicemos tempo e oportunidade; vamos interagir e compartilhar o que temos, seja a experiência ou a vivacidade, para seguirmos renovados e com alguma serenidade, pois as épocas e os costumes são diferentes, mas o percurso é o mesmo.
 

domingo, 23 de setembro de 2012

De olhos bem abertos

      Quando fui estudante de psicologia fiquei muito entusiasmado com as leituras de PNL (Programação Neurolinguística), principalmente com o estudo dos movimentos dos olhos, que indicavam recordação, criatividade e até mentiras. Apesar do meu entusiasmo inicial ter se deteriorado por não encontrar sustentação nas publicações científicas, continuei olhando... Em 2000 fui para Porto Alegre fazer pós-graduação em Neuropsicologia, em um programa de cirurgia de epilepsia no Hospital São Lucas. Os pacientes candidatos à cirurgia geralmente apresentavam lesões no lobo temporal mesial e tinham como principal queixa cognitiva o esquecimento - pela importante participação do hipocampo na retenção de estímulos a longo prazo. Durante as avaliações  observei inúmeros pacientes demonstrarem o que parecia ser um padrão de movimento ocular durante a evocação nos testes de memória. Por volta de 2004 assisti a uma reportagem sobre a EMDR -Dessensibilização e Reprocessamento através dos Movimentos dos Olhos -, técnica psicoterapêutica inicialmente aplicada em pacientes com stress pós traumático e atualmente utilizada em outros transtornos. Embora não tenha formação neste método, a leitura de alguns artigos serviu para aumentar a convicção de que a movimentação ocular tem bem mais utilidades do que a vista alcança. Até quando dormimos nossos olhos se movimentam e ajudam a mente (fase REM do sono, caracterizada por movimentos rápidos dos olhos, intensa atividade cerebral, ocorrência de sonhos, relaxamento muscular acentuado e consolidação da memória). Ao longo dos últimos anos, avaliando o desempenho de idosos nos testes de memória declarativa, continuo a observar diariamente uma sugestiva relação entre os movimentos que os olhos executam quando a pessoa está tentando se lembrar, e os resultados alcançados nos instrumentos. Sem tempo e estrutura para fazer pesquisa, tenho então tentado acompanhar a literatura sobre o assunto e, felizmente, vários trabalhos tem apontado que os movimentos bilaterais dos olhos efetivamente têm efeito na memória (Parker A., Dagnall N., 2012, 2009; Samara, Z., Elzinga, B.M., 2011; Gunter, R.W., Bodner G.E., 2008; Ehrlichman H., Micic D., Sou A., Zhu J., 2006). Segundo os artigos, os movimentos que os olhos realizam quando uma pessoa busca uma recordação servem para aumentar a ativação da região pré-frontal, estimulando ainda a interação entre os hemisférios cerebrais. Como consequência, um melhor desempenho da memória de longa duração (episódica). As publicações afirmam que a evocação de um episódio é melhorada quando a pessoa realiza tais movimentos (quando comparada com a ausência deles); que a memória das crianças e adultos são mais precisas quando precedidas desta coreografia ocular. Já existem até equipamentos de rastreamento ocular (eye tracker), que são utilizados no estudo de dificuldades cognitivas - esquecimento, dislexia -, bem como no desenvolvimento de sites, disposição adequada de produtos nas prateleiras de supermercados e vitrines de lojas. Os olhos já são utilizados ainda para comandar (vídeogames e computadores que reconhecem movimentos oculares e os transforma em comandos).
      Embora não seja possível identificar a mentira no olhar de uma pessoa - como propagavam alguns palestrantes de PNL -, há evidências que indicam que os olhos não servem apenas para captar estímulos visuais (convertendo-os em impulso nervoso) e expressar a emoção no olhar: seus movimentos ativam áreas cerebrais contralaterais, favorecendo o funcionamento cognitivo. Mas será que a partir  dos movimentos oculares é possível inferir sobre o desempenho da memória episódica de um indivíduo? Até que ponto o movimento dos olhos reflete o movimento (dinâmica) da mente?  Havendo movimento mental, haverá consequentemente um espaço cognitivo? Com passos geralmente lentos e curtos - apesar de firmes - a ciência encontrará as respostas para estes e outros questionamentos. Até lá irei acompanhando as pesquisas - tentando implementar alguma - mas, como não estou num ambiente exclusivamente científico, não posso deixar de dizer: os olhos são realmente as janelas da alma, ou seja, são a interface entre ambientes e realidades distintas; a abertura que permite a passagem de elementos... Por enquanto é melhor fechar, ou melhor, parar por aqui.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Memória de trabalho

      Quando uma colega - Karine Martins - me convidou para apresentar uma palestra na V Jornada Alagoana de Neuropsicologia, rapidamente me lembrei das crianças e adultos do consultório que reclamam da falta de memória (na escola, no trabalho e nas atividades cotidianas). Mas não estou falando dos grandes esquecimentos  - do que viu e ouviu -, mas sim dos pequenos (nem por isso desagradáveis) lapsos de memória. Aqueles que ocorrem quando estamos lendo um texto e deixamos a informação escapar, necessitando reiniciar a leitura, ou quando tentamos manter um número ou uma palavra na consciência para utilizarmos em seguida e a perdemos rapidamente. Por isso resolvi falar sobre a "memória de trabalho e o desempenho cognitivo", a fim de divulgar as características do seu funcionamento e os incômodos de um déficit nas atividades diárias. Foi aí também que percebi que, mesmo tendo escrito várias postagens sobre esquecimento, não dei atenção que a memória de trabalho merece.
      A quantidade de estímulos detectados pelos receptores sensoriais (olhos, ouvido, pele, músculos) e direcionados às regiões encefálicas é muito grande. A cada segundo, inúmeros dados visuais, auditivos, táteis, cinestésicos são sentidos, porém nem todos são percebidos (a percepção é a interpretação e compreensão consciente de parte do que foi captado pelos sentidos). Mesmo com esta primeira triagem efetuada pelo cérebro humano, o fluxo de informações é contínuo na vigília, oriundo das aulas diversas, informes dos letreiros, faixas e outdoors da cidade, momentos de conversas com familiares e amigos, tarefas e providências realizadas durante o período de trabalho, leitura de livros e revistas, conteúdo dos programas da tv (jornais, novelas, filmes), detalhes dos transeuntes que circulam no campo visual, informações da internet e muitas outras fontes. Durante as 16 ou 18 horas que passamos acordados, somos expostos a uma quantidade exagerada de informações, e não há como fixá-las totalmente. Ou melhor, não é necessário memorizar tudo, porque nem tudo é importante.
      A mente humana disponibiliza, principalmente, dois tipos de memorização: longo e curto prazos. São elas a memória declarativa (ver outras postagens anteriores) e a de trabalho, respectivamente. Na memória de trabalho (MT) o importante é manter uma pequena quantidade de estímulos disponível; lidar com alguns pedaços de informação simultaneamente; operacionalizar e proporcionar o trabalho mental. Dito de uma maneira diferente, é a nossa mesa de trabalho; "local" onde dispomos o material, nos debruçamos e trabalhamos. Em seguida, colocamos o refugo no lixo, limpamos a mesa para um próximo serviço. Quanto maior a bancada, mais material podemos organizar sobre ela e um trabalho de maior dimensão poderá ser realizado. Por outro lado, quanto menor, mais limitada a capacidade de manipulação dos elementos e, consequentemente, menor produção (poderíamos ainda chamá-la de "pulmão mental",  por proporcionar o fôlego necessário ao mergulho cognitivo - quanto maior o fôlego, mais profundo podemos ir na atividade e mais tempo conseguimos permanecer submersos). A memória de trabalho é então a habilidade cognitiva que nos possibilita assistir a uma aula, ouvir o professor e manter suas explicações encadeadas e disponíveis; propicia a realização de um cálculo mental, visualizando os números e as operações aritméticas no seu esboço visuoespacial; na leitura, sustenta a fixação das palavras até a finalização da frase, bem como da ideia, até o término do parágrafo, sem perder o fio da meada;  numa reunião de trabalho ou assistindo ao filme nos mantém prontos (com o auxílio da atenção) para, simultânea e repetidamente, escutar e ponderar; na necessidade de gravar um número de telefone - na ausência de um caderno -, essa memória utiliza sua alça fonológica e "anota" os números temporariamente (se não utilizarmos outras estratégias para transferir a informação da memória de curta duração  para a memória declarativa ou de longa duração, o conteúdo será "descartado na lixeira", esquecido - como o nome de uma pessoa que acabamos de conhecer). Na memória de trabalho a informação será eterna enquanto durar a atividade mental  - pelo menos é o que deve acontecer.
        Algumas pessoas porém demonstram restrições na memorização transitória, provavelmente decorrentes de problemas genéticos e/ou ambientais. Espectro autista, transtorno de atenção, dislexia, retardo mental, transtornos ansiosos e afetivos são alguns exemplos de distúrbios que podem manifestar dificuldades nesse tipo de memória. Nestes casos, o déficit na MT geralmente resulta em comprometimento importante na aprendizagem. Mas, mesmo nas crianças e adultos que não apresentam transtornos, a atenuação do seu funcionamento poderá reduzir o desempenho geral, comprometendo a produtividade na atividade acadêmica, no exercício profissional e nas providências cotidianas. A memória de trabalho é um dos principais termômetros do funcionamento mental; ela também é protagonista no cenário cognitivo e ...  sobre o que eu estava falando mesmo?