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quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Emagrecimento sustentável

      A diminuição do rendimento escolar, principalmente pela falta de atenção nos estudos, é a reclamação mais frequente dos pacientes e familiares que procuram a avaliação neuropsicológica. Desinteresse, ambiente familiar desfavorável e a presença de transtornos são as causas mais comuns do problema cognitivo, sem esquecer das alterações emocionais.  Foi por este motivo que uma jovem retornou ao consultório, após ter realizado uma avaliação há algum tempo, quando se queixou de dispersão nas aulas e  diminuição da performance na faculdade. Apesar de não ter sido identificado transtorno de aprendizagem, ela demonstrou sintomas de ansiedade e foi encaminhada à psicoterapia - havia uma intensa preocupação e expectativa com o peso do corpo, responsável por grande parte da sua angústia.
      Passado alguns meses ela voltou para reavaliação e a vi de uma maneira bem diferente: entusiasmada. Com um conhecimento maior sobre suas habilidades e dificuldades, além de uma imprescindível cumplicidade consigo mesma. Contou-me porém da árdua missão em se manter na dieta do emagrecimento e persistir nos exercícios físicos: "é uma luta constante entre o anjinho e o diabinho".  À medida que ela falava da sua determinação em resistir às apetitosas tentações cotidianas, da frustração de eventuais recaídas, mas da sua persistência em continuar na batalha, fiquei me perguntando se teria que ser sempre assim e lembrei de tantas outras pessoas que estão no mesmo front. Parece realmente uma grande e interminável batalha, pelo menos para a maioria das pessoas com quem já conversei. Lembrei também que quando tive gastrite e precisei restringir inúmeros alimentos - os mais saborosos -, só vivia pensando... naquilo. Nos restaurantes e eventos sociais, a dificuldade para encontrar algo permitido e comestível tornava a situação ainda mais incômoda. Felizmente após algumas semanas conclui o tratamento e dei baixa no regime militar obrigatório. Mas, para aqueles precisam e tentam permanecer na dieta (geralmente começando na segunda-feira e nem sempre chegando no sábado), por quanto tempo conseguirão se manter firmes nessa batalha?
      Afinal de contas, que diabos de vontade tão grande é essa de comer? Sem precisar mistificar a situação, precisamos voltar mais uma vez para a história da nossa espécie. Como já repetido em outras postagens, a forma atual do nosso cérebro praticamente não mudou nos últimos cem mil anos. Lá trás vivíamos num ambiente extremamente hostil, inseguro, onde não só éramos caçadores, mas também a caça. Não havia feiras nem supermercados com alimentos sortidos ao alcance das mãos. Precisávamos fazer longas e perigosas caminhadas para matar a fome. Assim, era necessário comer o máximo possível, pois não havia a certeza de que no dia seguinte haveria alimento. A espécie humana, como todos os seres vivos, precisava se adaptar ao ambiente para evitar a extinção. Para isso o tecido adiposo, presente na pele, armazenava em forma de gordura a energia excedente do que comíamos, para ser utilizada na época das vacas magras - esta mesma gordura que nos dias de hoje é a grande vilã, um verdadeiro problema de saúde pública. Nesse contexto de intensa imprevisibilidade, mutações genéticas já vinham acontecendo no cérebro para configurar o ato de se alimentar como prioridade na motivação humana. Para incentivar o comportamento de procurar comida, pequenas áreas encefálicas se especializaram em despertar em nós a sensação de prazer na ingestão de alimentos (entre outras coisas), tornando-nos sedentos de lamber os beiços.
      O tempo passa, o tempo voa, e a comida continua sendo uma boa... Seja em casa (assistindo à tv, usando o computador) ou na rua (estudando, trabalhando, divertindo-se), sempre procuramos algo para mastigar. Em todas as comemorações - aniversários, casamentos, formatura, natal, páscoa, festa de bonecas - raramente ficamos sem comer. E com ajuda da tecnologia, novos sabores estão sempre surgindo nas prateleiras, provocando incessantemente nossos desejos com as quase irresistíveis propagandas a que somos expostos todo instante. E o que dizer do conforto proporcionado pela modernidade, que vem aumentando a ociosidade e reduzindo drasticamente a natural e necessária movimentação do corpo? Na compreensão do relacionamento entre indivíduo e o alimento devemos incluir também o histórico genético de cada pessoa - que o predispõe ou não à obesidade -,  e o nível de stress vivenciado por ele no cotidiano (alterando os níveis de cortisol - hormônio engordativo). Por fim não devemos esquecer dos pensamentos e sentimentos que nutrimos a cada momento em nós mesmos - nem sempre de maneira consciente -, a partir das escolhas que realizamos. Eles delineiam a nossa forma... de agir.
      Se o objetivo é emagrecer, precisamos considerar - além da quantidade e qualidade dos alimentos - todos esses ingredientes: o cognitivo, o nível de stress, o grau de ociosidade, a genética familiar e a filogênese. Não é a toa que emagrecer, ou melhor, manter-se magro é tão difícil. Por isso não precisamos nos sentir tão culpados por não conseguirmos fechar a boca por muito tempo. Porque é lutar contra  forças biológicas, psicológicas  e sociais muito intensas. Acredito ser insustentável, para a maioria das pessoas, permanecer no peso desejado apenas com dieta e exercícios físicos, desconsiderando completamente aqueles ingredientes. Estou convencido de que a escolha do emagrecimento como uma meta maior instiga uma guerra consigo mesmo e, por isso, tem grande possibilidade de fracasso a longo prazo. É inatural e improdutiva. Por outro lado, priorizar a saúde e o bem estar como objetivos a serem almejados parece ser mais apropriado e agregador, embora seja mais trabalhoso, pois implica numa reeducação não só alimentar, mas das atividades, dos relacionamentos, emoções e pensamentos. Então nos sirvamos disto, e bon appétit!

domingo, 1 de setembro de 2013

A psicologia na sala de aula

      É comum pessoas me questionarem se o mais desgastante no trabalho do psicólogo é ouvir, o dia todo, os problemas dos outros.  Embora merecesse considerações, escutar constantemente as queixas cognitivas (esquecimento, desatenção) e emocionais (ansiedade, desânimo) não é necessariamente tão angustiante como se imagina. O contato continuado com o conhecimento (aprendizado dos métodos e técnicas psicológicas) instrumentaliza e habilita o profissional a intervir adequadamente, assim como acontece com o advogado, engenheiro, professor e médico.
      Entretanto, há uns dias atrás tivemos um momento difícil, ao tentarmos informar um pai sobre o transtorno de aprendizagem que seu filho apresentava e as habilidades e desvantagens identificadas no garoto. Tentamos ainda relacionar as atitudes e hábitos importantes no tratamento. Provavelmente motivado por questões subjetivas, o responsável resistiu a quase toda informação que lhe era fornecida, detendo-se no irrelevante e desconsiderando o essencial. Fiquei, por um tempo, assistindo àquela pessoa, percebendo o seu sofrimento e, consequentemente, a sua defesa por trás da armadura (o fato de possivelmente apresentar o mesmo transtorno do filho deve ter fortalecido sua resistência). As palavras, ditas de várias maneiras e por diferentes pessoas, não encontravam brecha na trincheira emocional daquele pai. Mesmo acreditando que talvez ainda não tenha sido o momento dele lidar adequadamente com a situação, considero - esta sim! - uma situação bastante incômoda na prática psicológica, pelas consequências, geralmente danosas, ao paciente e à própria família.
      Aproveitando que nesta semana foi comemorado o dia do psicólogo (27 de agosto), não poderia deixar de levantar outras possibilidades, não apenas sobre o que foi relatado, mas também  as dificuldades que todos enfrentamos no cotidiano, diante da nossa inabilidade em lidar com certas situações. Diferente da medicina, que é milenar,  a psicologia é uma ciência bastante recente e, no Brasil, tem apenas 51 anos. Entretanto já vem ocupando espaço em praticamente todas as áreas de atividade  humana, como na saúde (psicologia clínica, hospitalar, neuropsicologia), educação (psicologia escolar, psicopedagogia), transporte (psicólogo do trânsito), segurança (psicologia jurídica), esporte (psicologia do esporte), comunidade (psicologia social). Até nos postos municipais de saúde encontramos profissionais que realizam atendimento psicológico gratuito. Mas ainda há muito o que fazer como, por exemplo, popularizar o conhecimento da mente. Não se trata de ensinar técnicas psicológicas as pessoas em geral, transformando-as em discípulas de Freud e cia, mas sim de disponibilizar para a população informações gerais - mas acredito, de grande utilidade - dos fenômenos psicológicos como a motivação, atenção, percepção, decisão e memória.
      Mais uma vez é interessante citar a história da medicina, que aperfeiçoou seus procedimentos, aumentou a expectativa de vida das pessoas, ao mesmo tempo em que disponibilizou alguns de seus conhecimentos, através da educação. O estudo dos sistemas do corpo humano, seus órgãos e funcionamento faz parte do conteúdo programático de todo estudante, de forma repetitiva. Nas disciplinas escolares aprendemos não só como funciona o estômago, coração e cérebro, mas também sobre os alimentos saudáveis e hábitos  adequados ao organismo. Ao final do ensino médio informações suficientes nos foram dadas para formarmos uma compreensão apropriada do nosso corpo, aumentando a possibilidade de realizarmos escolhas mais acertadas com relação a nossa saúde física. E da mente, o quanto somos informados sobre seu funcionamento? Quantas vezes na sala de aula o professor falou sobre os tipos de memória e de atenção, bem como as várias manifestações de inteligência? Algum texto sobre a relação entre as emoções e o "branco" na hora da prova? Alguém já realizou no colégio uma prova cujo assunto incluísse as situações psicologicamente saudáveis e insalubres, ou participou de uma atividade de classe cujo objetivo era como lidar com a frustração? Como podemos melhorar o desempenho atencional e de memorização se desconhecemos as características das funções cognitivas?  Como esperar que - com 10, 15 ou 20 anos - realizemos escolhas adequadas nos relacionamentos, profissão e aquisições se ignoramos totalmente as peculiaridades da mente emocional e racional de interpretarem um estímulo?
       Convencido de que " a educação é o grande motor do desenvolvimento pessoal" (frase atribuída a Nelson Mandela), proponho a inclusão do  estudo da mente humana na formação escolar dos estudantes, com o objetivo de fazê-los conhecer e vivenciar os fenômenos subjetivos desde cedo (assim como o estudo formal possibilita uma visão de mundo mais ampla, e a prática regular de uma atividade física favorece à consciência corporal, possivelmente o conhecimento e a vivência continuada dos fenômenos psicológicos também proporcione o surgimento de uma outra consciência: a mental). Com a psicologia na sala de aula, talvez na disciplina de ciências, quem sabe não aumentaríamos as chances  de formar gerações de pessoas mais conscientes do que sentem e pensam, mais habilidosas em lidar com a própria mente e, possivelmente, mais serenas, flexíveis e evoluídas? Capazes de perceber e distinguir em si mesmas alterações emocionais e cognitivas precocemente, evitando alguns quadros maiores de destatenção, impulsividade, agressividade e ansiedade.   Quanto a nós, psicólogos, ficaríamos com menos opções de trabalho, mas plenamente realizados, pois o sucesso foi alcançado - por nos tornarmos desnecessários.

terça-feira, 21 de maio de 2013

Sem (ou cem) consciência (s)?

     A leitura de assuntos relacionados à neurociência e o contato com pessoas que apresentam disfunções cerebrais devido a traumas cranianos, uso de drogas, epilepsia refratária e síndromes demenciais nos colocam diante de alguns quadros tristes, alegres e outros interessantes. Recentemente, procurando artigos sobre níveis de processamento cognitivo e construção da consciência, reli algo sobre a habilidade de ver coisas não estando consciente delas. É a visão cega: quando uma pessoa, demonstrando consciência em perceber todos os estímulos, exceto os visuais, consegue desviar dos obstáculos a sua frente. Ocorre quando há lesões bilaterais do córtex visual primário do cérebro, onde a visão é experimentada conscientemente. Na visão cega, a capacidade de evitar tropeços e quedas é atribuída a região subcortical - provável vestígio de um sistema visual primitivo, cujo objetivo era simplesmente favorecer à sobrevivência e não apreciar as obras de Picasso (Carter, R. 2003). Entretanto, esse fenômeno sugere mais: que o pensamento, assim como a percepção sensorial, apresenta estágios ou níveis de processamento, mas nem todos conscientes.
     Diariamente produzimos uma quantidade imensa de pensamentos - dizem que entre 40 a 60.000 -, impossível de vivenciá-los, em sua totalidade, de forma consciente. Para otimizar o processamento de informações e, consequentemente, a adaptação e a sobrevivência da espécie, foi desenvolvido um tratamento diferenciado para os estímulos novos e repetitivos. Quando iniciamos um novo aprendizado - dirigir um veículo, por exemplo -, precisamos estar bem conscientes e atentos. Nas primeiras aulas temos que perceber vários estímulos (visuais, sonoros, táteis), planejar e decidir ações (ligar o carro, passar a marcha, acionar a seta, acelerar) e monitorar eventos (motorização do veículo, posicionamento em relação à via e aos outros, etc). Isto implica no funcionamento de várias regiões cerebrais (principalmente os lobos frontais), com uma ampla e dispendiosa atividade nervosa. Entretanto, à medida que o estímulo se repete e a aprendizagem é estabelecida, a resposta tende a ser facilitada, não necessitando mais de tanta concentração mental e, consequentemente, de todo aquele maquinário cerebral. O comportamento torna-se automatizado. Em geral, quanto mais desenvolvida a aprendizagem de um determinado procedimento ou assunto, menos concentrados precisamos estar para realizá-lo ou debatê-lo, respectivamente. Se assim não fosse, ao conduzirmos nosso veículo para o trabalho ou passeio, precisaríamos estar, todo dia, muito conscientes e atentos aquele conjunto de providências relativas à condução veicular. Imagine se acontecesse a mesma coisa com todas as atividades que fazemos cotidianamente e que achamos tão simples realizá-las (e são porque as fazemos "sem pensar"). Provavelmente na metade do dia já estaríamos bem desgastados mentalmente e a nossa aparência não seria uma pintura.  Porque é impossível processar toda a demanda diária de estímulos e respostas com o mesmo nível de consciência e prontidão mental.
      Na década de 90, LeDoux  já apontava para a existência de dois principais circuitos da emoção: o trajeto rápido, com um menor percurso neuronal entre o tálamo e a amigdala, que interpreta estímulos e desencadeia comportamentos emotivos sem a participação da consciência; e o trajeto lento, com um maior percurso de neurônios entre o tálamo e o córtex, com uma percepção detalhada e comportamentos mais elaborados. Segundo o pesquisador "não é necessário que saibamos exatamente o que uma coisa é para que saibamos que ela pode ser perigosa". Em outros tempos, num ambiente extremamente selvagem e imprevisível, se não fosse o trajeto rápido da emoção provavelmente a espécie humana seria encontrada apenas fossilizada ou em pinturas rupestres.
      A partir destes eventos - visão cega, comportamento automático e circuitos da emoção - fica caracterizada a  nossa capacidade de responder a estímulos sem estar plenamente consciente deles, ou melhor, fica evidenciada a atividade mental num espectro de consciência. Ou ainda como uma sobreposição progressiva de percepções, emoções, lembranças e decisões que, ao longo da evolução, nos proporcionou habilidades - como a de responder de forma rápida e precisa ("reflexos"), ter reações inesperadas em momentos de perigo extremo -, mas também limitações, como a exagerada programação de automatizar comportamentos, comprometendo a memória, e a vulnerabilidade de perder o controle e agir de forma desnecessariamente agressiva. Sem ignorar, endeusar ou demonializar, é possível tirar proveito desse aspecto ancestral de humanidade, lembrando de escutá-lo no silêncio e considerá-lo cotidianamente. Senão, teremos realmente uma visão cega.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Renovando o ar

      Após um longo período longe dos rabiscos, retorno - mais enferrujado e endurecido no manejo com as palavras - a comentar certas informações e acontecimentos. Foram mais de dois meses sem escrever uma linha, embora não faltassem assuntos que me provocassem questionamentos, incômodo ou encantamento. Andando nas ruas, lendo algo, assistindo à tv, convivendo com familiares e amigos, e atendendo no consultório: várias vezes fiquei fora do ar por alguns instantes diante de algo que merecia uma maior atenção e ponderação. Mas, mais uma vez, no meio da multidão fiquei mergulhado no fluxo de atividades do dia-a-dia. Na correria de final de ano, foram várias providências, festividades, viagem, férias,  preguiça... E tive momentos bem agradáveis, rodeado de pessoas queridas, cenários paradisíacos, mas sentindo também falta dos meus outros momentos, com os meus botões... É quando aspiro outros ares e tento visualizar o horizonte. Semelhante a uma baleia que, para viver bem embaixo d'água, precisa regularmente emergir para respirar. É um afastamento da correnteza cotidiana. E parece que está cada vez mais veloz e difícil de não ser engolido por ela. Será pelo acúmulo de atividades, sejam físicas ou mentais, que estamos acrescentando no nosso dia? Ou pelo volume aparentemente excessivo de informações que dizem que precisamos obter? De vez em quando escuto alguém dizer que gostaria que o seu dia tivesse mais de 24 horas ou ainda que seria muito interessante se ela fosse duas pessoas ao mesmo tempo, para poder realizar todos os projetos idealizados. Estamos impregnados de velocidade: na crescente dificuldade de permanecermos sossegados quando não há o que fazer, quando não conseguimos controlar o volume e rapidez dos nossos pensamentos, na impossibilidade de suportar a espera da vitória, no breve período que saboreamos as sensações agradáveis e na pressa angustiante que desejamos o término do sofrimento (existem coisas que estão fora do nosso controle e tem o seu ritmo próprio). E é bom lembrar que, na nossa mente, um evento (estudar, trabalhar, viajar, comprar) não é simples e rapidamente salvo numa pasta, como num computador. A situação é primeiro vivenciada emocionalmente e compreendida cognitivamente. Em seguida é editada e vagarosamente memorizada, associada a outros eventos semelhantes. A conotação afetiva (alegria, tristeza, raiva, medo) que atribuímos a cada episódio  não só influencia a percepção e memorização dessa experiência, mas repercute no funcionamento geral da mente, interferindo nas percepções e decisões que ocorrerão em seguida. De alguma forma todo conteúdo adquirido por nós passa a fazer parte da gente. Sendo assim, precisamos ficar mais atentos à qualidade do que presenciamos, seja nos relacionamentos, na mídia ou nos escritos. Porém, na rapidez com que passamos nossos dias é pouco provável que consigamos refletir e selecionar. Por isso, temos que evitar permanecer muito tempo na vazão dos episódios, para não ficarmos presos às correntes. Que cada um encontre o seu jeito de emergir e respirar, aproveitando para contemplar a paisagem.

domingo, 23 de setembro de 2012

De olhos bem abertos

      Quando fui estudante de psicologia fiquei muito entusiasmado com as leituras de PNL (Programação Neurolinguística), principalmente com o estudo dos movimentos dos olhos, que indicavam recordação, criatividade e até mentiras. Apesar do meu entusiasmo inicial ter se deteriorado por não encontrar sustentação nas publicações científicas, continuei olhando... Em 2000 fui para Porto Alegre fazer pós-graduação em Neuropsicologia, em um programa de cirurgia de epilepsia no Hospital São Lucas. Os pacientes candidatos à cirurgia geralmente apresentavam lesões no lobo temporal mesial e tinham como principal queixa cognitiva o esquecimento - pela importante participação do hipocampo na retenção de estímulos a longo prazo. Durante as avaliações  observei inúmeros pacientes demonstrarem o que parecia ser um padrão de movimento ocular durante a evocação nos testes de memória. Por volta de 2004 assisti a uma reportagem sobre a EMDR -Dessensibilização e Reprocessamento através dos Movimentos dos Olhos -, técnica psicoterapêutica inicialmente aplicada em pacientes com stress pós traumático e atualmente utilizada em outros transtornos. Embora não tenha formação neste método, a leitura de alguns artigos serviu para aumentar a convicção de que a movimentação ocular tem bem mais utilidades do que a vista alcança. Até quando dormimos nossos olhos se movimentam e ajudam a mente (fase REM do sono, caracterizada por movimentos rápidos dos olhos, intensa atividade cerebral, ocorrência de sonhos, relaxamento muscular acentuado e consolidação da memória). Ao longo dos últimos anos, avaliando o desempenho de idosos nos testes de memória declarativa, continuo a observar diariamente uma sugestiva relação entre os movimentos que os olhos executam quando a pessoa está tentando se lembrar, e os resultados alcançados nos instrumentos. Sem tempo e estrutura para fazer pesquisa, tenho então tentado acompanhar a literatura sobre o assunto e, felizmente, vários trabalhos tem apontado que os movimentos bilaterais dos olhos efetivamente têm efeito na memória (Parker A., Dagnall N., 2012, 2009; Samara, Z., Elzinga, B.M., 2011; Gunter, R.W., Bodner G.E., 2008; Ehrlichman H., Micic D., Sou A., Zhu J., 2006). Segundo os artigos, os movimentos que os olhos realizam quando uma pessoa busca uma recordação servem para aumentar a ativação da região pré-frontal, estimulando ainda a interação entre os hemisférios cerebrais. Como consequência, um melhor desempenho da memória de longa duração (episódica). As publicações afirmam que a evocação de um episódio é melhorada quando a pessoa realiza tais movimentos (quando comparada com a ausência deles); que a memória das crianças e adultos são mais precisas quando precedidas desta coreografia ocular. Já existem até equipamentos de rastreamento ocular (eye tracker), que são utilizados no estudo de dificuldades cognitivas - esquecimento, dislexia -, bem como no desenvolvimento de sites, disposição adequada de produtos nas prateleiras de supermercados e vitrines de lojas. Os olhos já são utilizados ainda para comandar (vídeogames e computadores que reconhecem movimentos oculares e os transforma em comandos).
      Embora não seja possível identificar a mentira no olhar de uma pessoa - como propagavam alguns palestrantes de PNL -, há evidências que indicam que os olhos não servem apenas para captar estímulos visuais (convertendo-os em impulso nervoso) e expressar a emoção no olhar: seus movimentos ativam áreas cerebrais contralaterais, favorecendo o funcionamento cognitivo. Mas será que a partir  dos movimentos oculares é possível inferir sobre o desempenho da memória episódica de um indivíduo? Até que ponto o movimento dos olhos reflete o movimento (dinâmica) da mente?  Havendo movimento mental, haverá consequentemente um espaço cognitivo? Com passos geralmente lentos e curtos - apesar de firmes - a ciência encontrará as respostas para estes e outros questionamentos. Até lá irei acompanhando as pesquisas - tentando implementar alguma - mas, como não estou num ambiente exclusivamente científico, não posso deixar de dizer: os olhos são realmente as janelas da alma, ou seja, são a interface entre ambientes e realidades distintas; a abertura que permite a passagem de elementos... Por enquanto é melhor fechar, ou melhor, parar por aqui.

domingo, 11 de março de 2012

Cutucando a onça com vara curta

       No final da manhã dia 29 de fevereiro, quarta-feira, precisamente às 11:30h, recebi um telefonema da minha esposa: com a voz embargada, disse que tinha sido assaltada naquele momento, na entrada do banco, e que eu fosse imediatamente para lá. No trajeto, aprisionado entre um semáforo e outro, tentava imaginar a situação ocorrida com ela, lembrando de outros episódios ocorridos com familiares e amigos. Ao entrar na agência, encontrei Adriana sentada na cadeira, angustiada, com a gerente ao lado confortando-a e tomando algumas providências - bloqueando os cartões, sustando os cheques. Outras pessoas em volta, solidários, lamentavam mais um assalto a mão armada e criticavam a falta de segurança em nosso estado (embora o desenvolvimento das grandes cidades - infraestrutura, maior oferta de serviços e empregos - demore décadas para iniciar, suas mazelas chegaram rapidamente). Quando saímos, passando pela cena do crime e conversando com algumas testemunhas, comecei a vivenciar emoções e pensamentos bem pouco civilizados, perdendo a tranquilidade no resto do dia.
       Uma semana depois, durante a entrevista inicial de uma avaliação neuropsicológica, os pais de um paciente relataram, após se queixarem do prejuízo escolar do garoto, que a residência deles havia sido invadida por três indivíduos fortemente armados. Por várias horas ficaram sob a mira de pistolas - mãe, pai, filho - sendo ameaçados de morte constantemente. Embora não seja delegado nem trabalhe num ambiente policial, não é raro que assaltos, furtos e assassinatos sejam comentados pelos pais e pacientes nas consultas, misturando-se às queixas de dificuldades de atenção ou de memória. Se acrescentar as notícias diariamente divulgadas pela imprensa, tendo a violência como arma principal, chegarei facilmente a conclusão que estamos vivendo novamente num ambiente selvagem, como há milhares de anos. Cada vez mais amedrontados, desconfiados e ansiosos, estamos perdendo gradativamente o direito de ir e vir; nossos filhos estão trancafiados em apartamentos, casas eletrificadas ou televisionadas; forçosamente temos que aumentar os gastos com serviços e equipamentos de segurança e, acima de tudo, somos obrigados a conviver com uma intensa e patológica sensação de insegurança.
       Como se não bastasse, este estado psicológico implica em intensas alterações hormonais e de neurotransmissores que, se prolongadas, resultam ou intensificam doenças (hipertensão, diabetes, acidente vascular encefálico, cancer, gastrite, dermatite, dores em geral) e transtornos (ansiedade, humor, stress pós-traumático). Além disso, desperta tendências comportamentais bizarras, utilizadas nos primórdios da humanidade. A agressividade é tão antiga no ser humano quanto o seu cérebro, e foi essencial na sobrevivência da espécie num ambiente hostil; ambos têm uma longa história de mudanças e adaptações, mas a tendência animalesca continua potencialmente presente em cada um de nós. Existem áreas e redes neurais relacionadas com a brutalidade das nossas condutas: giros temporais e o sistema límbico, região presente nos mamíferos em geral, onde são processadas as emoções e formada pelo tálamo, hipotálamo, hipocampo, amígdala e giro do cíngulo. São estruturas como a amígadala, sentinela cerebral que confere conteúdo emocional aos estímulos captados - classificando-os como perigosos ou não -, e o hipotálamo, responsável também pela expressão e manifestação somática da emoção. A visão de uma pessoa desconhecida, a percepção de que se trata de um assaltante, a sensação de medo, o aumento dos batimentos cardíacos e as reações de lutar, fugir ou fingir-se de morto acontecem em segundos, nessa área profunda do sistema nervoso, antes mesmo que possamos refletir sobre o assunto (fenômeno que envolve principalmente o córtex cerebral, cujo trajeto neuronal é mais longo e, consequentemente, mais lento).
       O problema é que o sistema límbico foi desenvolvido para um contexto primitivo, perigoso, desprovido de linguagem verbal e de princípios éticos, com relações interpessoais provavelmente pouco cordiais. Permitir que nas esquinas, ônibus, metrôs, morros e residências prolifere a insegurança e o medo é atiçar tendências que devem ser sublimadas. A História está repleta de períodos de intensa violência e crueldade, praticada isolada ou coletivamente - o holocausto na segunda guerra, atentados terroristas, matança atual de civis na Síria,  tortura e morte do ex ditador da Líbia, Muamar Kadafi, e os milhares de homicídios praticados em Alagoas nos últimos anos.
       Precisamos urgentemente reagir de alguma forma, senão cedo ou tarde seremos vítimas ou agressores! E pouco adianta blindar veículos, comprar equipamentos com alta tecnologia, contratar seguranças 24h, ter direito a proteção policial, pois o predador tem tempo e sempre aguarda um momento de descuido da presa ou do filhote que, em algum momento, acontecerá. Poderíamos então utilizar uma outra área cerebral, o córtex, em especial as áreas pré frontais (região essencialmente humana), para reconhecer o problema, identificar as possíveis causas do aumento da criminalidade - como a também primitiva e desenfreada sede de poder presente na maioria dos nossos políticos, semelhante à dos macacos, lobos e leões -, com o objetivo de planejar  e executar estratégias (aprimorar os critérios de escolha dos nossos representantes e monitorá-los sistematicamente, preferir açoes coletivas às individuais, provocar as secretarias de estado, Ministério Público, OAB, imprensa nacional e internacional, etc). Nos últimos milênios o homem vem adquirindo conhecimentos, criando novas tecnologias e transformando o mundo. Está na  hora de priorizar as mudanças no meio interno, abandonando tendências desnecessárias e inadequadas. Mas, para isto, temos que deixar o bicho quieto!

domingo, 4 de março de 2012

Os novos desafios da escola

      Com o objetivo de desenvolver umas considerações sobre os transtornos que comprometem a aprendizagem apresentei, ontem pela manhã, uma palestra no Colégio Santa Madalena Sofia, refletindo também sobre as implicações na dinâmica educacional. Numa agradável surpresa, encontrei um auditório repleto de professores - do ensino infantil ao médio - ávidos em discutir o tema, participando ativamente do encontro, não só na compreensão das informações, mas também questionando e relatando suas experiências em sala de aula. Nunca é demais destacar que a aprendizagem é um fenômeno complexo, onde distintas variáveis interferem: orgânico, com destaque para o adequado amadurecimento e funcionamento das redes neurais; cognitivo, com a participação coletiva das faculdades mentais, como a inteligência; motivacional, caracterizando o desejo e a atitude do estudante em direção ao conhecimento;  social, das influências mútuas nem sempre explícitas; e pedagógico, com o modelo teórico utilizado pela escola, bem como a relação desenvolvida com o professor. Apesar do potencial intelectual, interesse pela aprendizagem, aparente contexto familiar e social favoráveis, bem como um ambiente escolar propício, têm alunos que demonstram comprometimento significativo para aprender.
         Há 30 anos, acredito que estes alunos só tinham três possibilidades de diagnóstico: inteligente, doente mental (e não deficiente) e preguiçoso. Ou seja, se o garoto era esperto para conversar, brincar e desenvolver outras atividades, mas não conseguia aprender, era preguiçoso! Era a lei do tudo ou nada. O tratamento incluía humilhações de alguns professores, "perda de pontos" (diminuição quantitativa nas avaliações antes mesmo de tê-las realizado) e reclamações frequentes aos pais. Se formos um pouco mais atrás encontraremos punições ainda mais severas: palmatória, ajoelhar-se no milho, ficar no canto da sala, em pé, bem próximo da parede, escrever inúmeras vezes frases pouco estimuladoras no quadro ou no caderno, dentre outras. Já nos últimos tempos o comportamento humano, seja no aspecto cognitivo, moral, afetivo vem sendo compreendido num espectro, numa decomposição gradativa de níveis de intensidade, que vai desde o retardo mental, por exemplo, até indivíduos com altas habilidades (antes chamados de superdotados).
         Na capacidade de priorizar estímulos e manter-se numa atividade (atenção concentrada) também temos um contínuo de possibilidades, desde aqueles que são hiper focados, até os que têm intenso prejuízo no controle de estímulos irrelevantes, principalmente quando desenvolvendo atividade que exige esforço mental prolongado. Do mesmo modo, podemos caracterizar a habilidade de ler, escrever, calcular, realizar movimentos coordenados e lidar com as emoções. A maioria das pessoas apresenta desempenho na parte intermediária do espectro, estando nos pólos aqueles que fogem da norma, seja para mais (altas habilidades) ou para menos (deficitárias). Os transtornos correspondem à performance significativamente abaixo do esperado: dislexia (para a leitura), Transtorno do Déficit de Atenção/Hiperatividade (para a atenção), Discalculia (para o cálculo), Disgrafia (para a escrita), Transtornos Afetivos (para a inteligência emocional). Estes transtornos podem existir isoladamente (apenas dislexia) ou comorbidades (dislexia e disgrafia, TDA/H e discalculia, disgrafia, discalculia e depressão). Diferentemente da dificuldade de aprendizagem, que é circunstancial (motivacional e ambiental), o transtorno - ou distúrbio - corresponde a uma disfunção no sistema nervoso central e resulta numa grande desvantagem para estudante, podendo ocasionar não só comprometimento na vida acadêmica, mas também no desenvolvimento profissional, afetivo e social.
      Além do diagnóstico e tratamento multiprofissional (médico, psicólogo, fonoaudiólogo), é essencial que a família e a escola também participem ativamente, com adaptações e modificações. Um ambiente familiar afetuoso, organizado, ritualizado e com monitoramento sistemático potencializa e mantém os ganhos do tratamento. Na escola, antes de qualquer alteração na estratégia de exposição e avaliação utilizada pelo professor, é decisivo que compreenda e aceite que o aluno com transtorno tem realmente uma desvantagem em relação aos demais.
           Ao final da calorosa e inquietante conversa que tivemos no auditório, com muitas perguntas e algumas respostas, ficou claro que além das informações - sintomas, diagnóstico, tratamento, intervenções - precisamos realmente aprender a aceitar e tolerar as limitações, sejam nossas ou dos outros, com as suas consequências. Procurar considerar o sofrimento da família e, principalmente, do estudante é semear a possibilidade de uma nova atitude, para duas novas pessoas - o educando e o educador. 

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Pequenas escolas, melhores oportunidades, grandes cidadãos

      Antes de entrar no lava jato, precisando dá um destino para umas moedas que tanto barulho faziam no carro, parei numa barraquinha de balas e pipocas e ofereci as pratas em troca de cédulas, acreditando que o vendedor teria interesse nelas para facilitar o troco. Estranhei quando ele me respondeu que não queria as moedas (geralmente os comerciantes as procuram), mas impressionado mesmo fiquei quando ele me justificou, respondendo  que não tinha ainda R$ 6,00 (seis reais) para trocar comigo. No caminho, ainda envergonhado com aquela realidade social, trafegando numa rua de casas bem simples, observei outros inúmeros pequenos comerciantes na própria casa, transformando a garagem, a sala ou o jardim num balcão de negócios. Encontrei de tudo: lanches, bebidas alcoólicas, cigarros, gás, água mineral, miudezas, frutas, verduras, entre outras coisas. Porém, mais do que a variedade de produtos oferecidos, o que me chamou atenção foi a quantidade de vendas (local de pequeno comércio) encontradas numa única rua; a concorrência era acirrada! Rapidamente me lembrei das pesquisas do Sebrae sobre a falência prematura de empresas nos primeiros anos, por falta de planejamento, conhecimento do mercado... Fiquei imaginando então a fragilidade destas “empresas caseiras” e, embora desconhecesse os dados estatísticos deste contexto, apostei que a maioria era insustentável economicamente. Com os meus botões, tentei enfatizar o esforço das pessoas em tentar aumentar a renda familiar, mas não foi suficiente para impedir o pesar do provável fracasso comercial de tantas famílias. E pensar que outras pessoas, recebendo indenizações, PDV, empréstimos, FGTS iniciam repentinamente um negócio e, pouco tempo depois, lucram apenas dívidas e frustrações. Não raro a reduzida escolaridade e transtornos cognitivos não diagnosticados também são encontrados neste grupo de trabalhadores. Vale lembrar que as capacidades mentais – inteligências, linguagem, memórias, funções visuoespaciais e executivas – são necessárias não só na resolução de problemas matemáticos e filosóficos na sala de aula, mas também na identificação de problemas, no planejamento, execução e monitoramento das soluções da vida, sendo decisivas no desenvolvimento das relações afetivas, sociais e profissionais. E vai mais além: na edição de fevereiro da Revista Mente e Cérebro, o artigo “inteligência para viver mais” afirma que “quanto mais baixo o nível intelectual de uma pessoa, maior o risco de ela ter uma vida mais curta, desenvolver doenças físicas e mentais e morrer de problemas cardiovasculares, suicídio ou acidente”.  Já nas pesquisas sobre Demência de Alzheimer, não é novidade que a baixa escolaridade é um fator de risco para o desenvolvimento da síndrome. Por isso a escolarização, além de promover justiça social - permitindo um ganho superior aos míseros  R$ 6,00 por meia diária -, é a maior possibilidade de aprimoramento das habilidades mentais e, sua restrição resulta em vulnerabilidades físicas e psicológicas; provoca um grande desperdício de economias e, sobretudo, de potencial humano.
                                                                               


domingo, 27 de novembro de 2011

A lembrança da demência

      "Eu não quero continuar vivendo assim; dessa forma não vale a pena viver!" Estas frases foram ditas por um paciente esta semana mas, de alguma forma, continuo a escutá-las. Ele tem 67 anos e vem - há uns dois anos - apresentando mudanças significativas na sua personalidade, com ênfase na impulsividade e agressividade. Discussões frequentes com familiares, amigos e até com estranhos nas ruas, por motivos insignificantes, mas com  intensidade, segundo ele, preocupante - "vontade de agredir qualquer um que me chame de feio". Alterações na alimentação (excesso), dificuldade acentuada para se concentrar e desenvolver leituras também foram mencionadas, assim como limitações recentes em algumas atividades cotidianas (gerenciamento das contas bancárias). Angustiado, disse ainda que a esposa e os familiares não mereciam seu comportamento e que estava evitando situações sociais. Trata-se de uma pessoa com trinta anos de casado - com aparente qualidade -, intelectualmente diferenciada, com alta escolaridade (mestrado), tendo desenvolvida atividade profissional de elevada complexidade, sem histórico psiquiátrico e com uma aposentadoria que incluía frequentes viagens. Na avaliação neuropsicológica seu desempenho cognitivo foi adequado à idade e escolaridade, exceto nas funções executivas (funções relacionadas às regiões anteriores do cérebro - frontais - e que envolvem o planejamento, execução, monitoramento e flexibilidade mental). A disfunção executiva, associada às modificações acentuadas da personalidade e outros sintomas sugerem, segundo as avaliações (médica, neuropsicológica)  uma síndrome demencial - fronto temporal (apesar dos raros momentos de insight). Muito menos frequente que a Demência de Alzheimer, destaca-se  pela preservação inicial das funções cognitivas, mas com mudanças acentuadas no comportamento. Apesar dos avanços científicos no diagnóstico e no tratamento, como toda síndrome demencial, ela também cursa no  comprometimento cognitivo progressivo e irreversível, relacionado com as alterações patológicas que acontecem nos neurônios (formação de placas senis). No final, com a perda neuronal excessiva, evidencia-se uma atrofia cerebral difusa acentuada, com um prejuízo cognitivo devastador, onde a pessoa "esquece" não só as lembranças (episódios da vida, conhecimento acumulado, nome de parentes), mas também as crenças, os hábitos e até os movimentos. Como aquele meu paciente, que vivenciou milhares de momentos alegres e tristes na vida, estudou anos a fio, trabalhou por décadas, criou os filhos e, agora na velhice, provavelmente esquecerá de tudo. A demência aparentemente destrói um dos principais patrimônios (ilusões?) do ser humano:  sua individualidade. O indivíduo perde as características que o tornaram único no mundo, ao ponto dos familiares dizerem: "este não é o meu pai", "ela não é a pessoa com quem casei". E como ainda não podemos evitar ou prevenir a demência, é possível pelo menos ter alguma proteção, monitorando a pressão arterial, realizando atividade física regular, tomando um bom vinho e querendo aprender coisas novas, mas sempre lembrando que desta vida não se leva nada, nada mesmo!

domingo, 20 de novembro de 2011

Contágio social - segunda parte

      Após uma manhã ensolarada, com direito a banho de mar na bela praia do Francês, resolvemos almoçar uma saborosa peixada de arabaiana, acompanhada de uma deliciosa fritada de camarão, à beira da lagoa Mundaú. Ao final,  quando recebemos a conta do garçom, vieram também  alguns confeitos - para os estrangeiros, balas - e começamos a disputá-los, quando um dos amigos levantou a hipótese de que aquela doce oferta teria como objetivo  amenizar uma possível indigestão do pagamento. Nos despedimos, cada um tentando ainda convencer o outro da sua tese sobre as intenções do restaurante com aquele mimo. Chegando em casa, a fim de facilitar o atendimento a outra necessidade, pego uma velha revista Mente e Cérebro e encontro um artigo que me deixou peristáltico: uma pesquisa do psicólogo social David Strohmetz, em 2002 (Nova Jersey), realizada num restaurante, para verificar a relação entre a distribuição de doces com os clientes e o tamanho da gorjeta. Sem muita surpresa, o grupo que foi premiado pelo garçom com um bombom deu gorjeta com um aumento de, em média, 3,3 % em relação aos clientes que não receberam o doce; o segundo grupo que recebeu duas guloseimas aumentou suas gorjetas em  14,1%. No entanto, o interessante foi o crescimento de 23% demonstrado pelas pessoas que receberam um bombom e outro em seguida, após alguns instantes. Com o título "O poder da persuasão", o artigo também relatou a pesquisa de outro psicólogo  - Robert Cialdini (Universidade Estadual do Arizona) -, sobre a influência social, afirmando que tomamos os outros como exemplo quando não temos certeza do que fazer e que valorizamos a opinião dos que estão em posição de poder. Algumas páginas à frente, um estudo descobriu que, "quando um arrecadador de doações mostrava aos moradores uma lista de vizinhos que haviam dado contribuições para uma instituição de caridade, o número de contribuições aumentava significativamente; quando maior a lista, maior o efeito". Algumas dessas tendências já tivemos oportunidade de sentir ou observar em crianças, copiando comportamentos nem sempre adequados de colegas de escola, adolescentes imitando o jeito de vestir e falar de seus ídolos, adultos tomando algumas "decisões" semelhantes às pessoas do seu grupo, seja no vestuário, lazer, compras ou filosofia de vida, e até idosos numa velada disputa pelo ranking de caridades. Não é a toa que restaurantes, hotéis e outros presenteiam seus clientes, que empresas de marketing e propaganda continuam a expor celebridades ou multidões utilizando um produto ou  serviço. Será que somos então uns ratos de laboratório, limitados a fugir de uns estímulos e se aproximar de outros? Ainda acredito que não, e que temos a possibilidade de aprender a realizar algumas escolhas. A ciência, entretanto, tem fornecido evidências de que a capacidade de tomar decisões imparciais é menor que imaginávamos ou gostaríamos (até neurônios especializados em imitar o comportamento de outra pessoa - seja no movimento, na linguagem e nos sentimentos - foram identificados em humanos, denominados neurônios espelho. Estas células, espalhadas em várias regiões do cérebro, são essenciais à aprendizagem). Mas, quem sabe assim - considerando a real, inevitável e nem sempre consciente influência social - poderemos aceitar o confeito do garçom, assistir ao comercial condicionante e ouvir a estratégia do vendedor ou do orador e, com serenidade, aprimorar a liberdade de escolha.

domingo, 30 de outubro de 2011

Conhecendo a memória

       "Meu filho tem uma ótima memória, ele lembra de cada coisa"; "não me esqueço do nome das ruas, nem das coisas que leio, por isso não posso dizer que sou esquecido". Afirmações como estas costumam ser ditas como garantias que não há prejuízo  na memorização, mesmo quando algumas atividades diárias, como o estudo e o trabalho estão prejudicadas. E geralmente refletem uma compreensão do funcionamento da mente humana: se uma pessoa tem habilidade para desenvolver uma atividade de forma adequada, consequentemente tem para realizar outras aparentemente semelhantes. É como se cada função mental - memória, inteligência, linguagem, etc - fosse uma unidade,  um monobloco. No entanto os estudos têm demonstrado que o juízo da gente é bem mais complicado e que esses instrumentos cognitivos se manifestam funcionalmente em módulos semi independentes e estão associados preferencialmente a determinadas regiões ou circuitos do cérebro. Em relação à memória, por exemplo, as áreas laterais profundas do encéfalo, próximas às orelhas, chamadas de regiões temporais mesiais, têm um papel decisivo na retenção de novas informações. O fato das funções cognitivas não serem totalmente dependentes umas das outras torna possível um idoso apresentar um déficit na memória com a inteligência e linguagem preservadas (fase inicial da Demência de Alzheimer) e uma criança com retardo mental ter uma satisfatória capacidade de memorização, com a linguagem restrita (espectro autista). Além disso, para uma compreensão um pouco mais detalhada da mente humana, é importante acrescentar que cada modalidade cognitiva é composta por sub modalidades: a habilidade de fixar estímulos e evocá-los ocorre de maneira temporária (memória de curta duração ou de trabalho)  e duradoura (memória de longa duração). Manter mentalmente e por alguns instantes um número do telefone de um conhecido e lembrar dos acontecimentos do último natal, respectivamente, ilustram tais fenômenos. Também podemos ter uma performance satisfatória na memória de longa duração com a de trabalho diminuída. Quando acontece com crianças, favorece à desorganização, lentifica a aprendizagem - leitura, idiomas, problemas matemáticos - e, nos adultos diminui a produtividade, dificulta a execução de algumas atividades diárias e atenua a capacidade de formar novas lembranças. Stress, débito de sono, ansiedade e depressão geralmente são as responsáveis por estas alterações. Mas quando, ao invés da memória de trabalho, a pessoa tem a diminuição ou incapacidade na memória de longa duração (também chamada de memória declarativa) as desvantagens são bem maiores, com prejuízos sociais e  funcionais importantes. E mais uma vez podemos ter duas situações distintas: diante de um acidente com trauma craniano, um paciente não consegue evocar acontecimentos anteriores ao acidente (amnésia retrógrada) e outro indivíduo, num processo neurodegenerativo, não consolida novas lembranças e esquece rapidamente os acontecimentos ocorridos após o problema (amnésia anterógrada). O primeiro não lembra do passado e o segundo não grava o presente. Apesar de existirem vários outros aspectos a considerar sobre esse assunto, eles serão cenas dos próximos capítulos. No momento o importante é que da próxima vez que comentarmos que temos uma boa memorização ou que um filho, pai, mãe ou sogra estão esquecidos, lembremo-nos de que temos vários tipos de memória e que a resolução do problema depende também da identificação de qual está comprometida.

domingo, 23 de outubro de 2011

São só garotos...

     Ontem e hoje foram realizadas as provas do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), onde milhares de jovens em Maceió - além de outros milhões no país -  finalizaram uma longa e penosa jornada, com meses de estudo, deixando de lado alguns prazeres cotidianos e arrastando o peso da concorrência. Com eles, os pais também percorreram ansiosos a trajetória, relembrando em alguns momentos a própria história. Na terra dos marechais, como em outros estados do nordeste, a ansiedade foi maior pela desvantagem de estarem numa região brasileira desfavorecida academicamente, tendo que disputar vaga para a universidade pública federal com  estudantes de centros privilegiados em termos educacionais. E nestes dois dias, enquanto os alunos usavam suas ferramentas cognitivas - linguagem, memória, inteligência - por várias horas,  compreendendo enunciados, recuperando informações  e resolvendo problemas, seus familiares torciam bastante, exercitando suas ferramentas emocionais - fé, controle da ansiedade e dos pensamentos automáticos.  As escolas, por outro lado, pressionadas pelos seus próprios resultados e pelos pais, tentaram corresponder os anseios dos seus clientes e diminuir a desigualdade regional, intensificando os conteúdos e tornando as avaliações mais complexas. Para incrementar a situação, o restrito leque de opções de trabalho que Alagoas oferece, com uma iniciativa privada incipiente, contribui para estreitar o funil de oportunidades, conferindo muitas vezes ao curso universitário o status ilusório de garantia de sucesso profissional. Quem já passou dos 30 sabe que a realidade é bem diferente e que, perto de outras situações que enfrentamos e que eles enfrentarão na busca do lugar ao sol, a prova do ENEM não é nada mais que uma prova. Precisando considerar estes e outros aspectos, os estudantes têm que optar rapidamente. Mas eles são muito jovens! São menores decidindo a vida profissional do adulto! Uma atitude que implica em autoconhecimento, desejo, compreensão da realidade, planejamento, controle de impulsos e flexibilidade mental. Habilidades associadas às regiões frontais do cérebro e raramente desenvolvidas plenamente antes dos 20 anos. Isso não quer dizer que a reflexão e o compromisso não devam ser estimulados e solicitados dos adolescentes, mas que não se pode exigir que eles realizem imediatamente escolhas desta complexidade sem dúvidas e correções, porque são só garotos... 

domingo, 18 de setembro de 2011

Como é mesmo o seu nome?

      Ontem pela manhã, chegando na academia, encontrei um irmão de um amigo que há muito tempo não o via. Após cumprimentá-lo, recordamos alguns episódios da nossa infância, mas não lembrei do nome dele. Durante a conversa, relembrando os eventos remotos, tentei fisgar alguma pista que me levasse ao nome do rapaz, sem sucesso até agora. À tarde, chegando numa festa de aniversário para buscar o meu caçula, fui me despedir do pai do aniversariante - que, por sinal, já esteve em minha casa - mas, novamente o nome não saiu. Que chatisse! Ouvir o outro pronunciar o nosso nome geralmente é muito agradável, mas perceber que ele esqueceu, não. Parentes, amigos e inúmeros pacientes  também relatam o mesmo problema: gravar o nome das pessoas!
      Em Os Sete Pecados da Memória, Schacter explica que o nome de uma pessoa, expontaneamente, revela muito pouco sobre o indivíduo. Saber que fulano é Igor, Artur ou Luciana não indica imediatamente característica alguma delas, dificultando associações e comprometendo a memorização. Consequentemente, não se forma uma exuberante rede semântica, ficando apenas um único e penoso caminho para a recordação. Diferente do substantivo comum - computador, casa -, que é possível estabelecer facilmente uma representação visual e conceitual: computador é algo retangular, resistente, elétrico e serve para digitar dados. Além disso, os substantivos comuns têm os sinônimos, que suprem no esquecimento: na falta de casa, posso falar residência ou moradia. Já Igor é totalmente diferente do Artur, que contrasta com a Luciana. Dois pecados da memória podem explicar este fenômeno: o bloqueio e a distração. No bloqueio o nome foi memorizado mas, por falta de atalhos, sua recordação se torna trabalhosa. Expressões como "tá na ponta da língua" ilustram o ocorrido. Na distração a pessoa, sem perceber, não prioriza a escuta do nome, direcionando sua atenção para outra situação mais urgente ou interessante, tendo como resultado a falha na codificação da informação e a ausência do armazenamento. Ansiedade, alterações do humor, stress e débito de sono podem intensificar tais situações. E pra complicar um pouco mais a busca da palavra, existe ainda o fenômeno chamado "irmãs feias" (em referência à história da Cinderela, quando as irmãs feiosas, filhas da madrasta, tentam impedir que a moça calce o sapato, escondendo-a e se antecipando forçosamente para o principe): quando tentamos arduamente lembrar do nome do conhecido, sugem outras palavras intrusas na cabeça, dando uma falsa sensação de verdadeira. Aí chamamos Amanda de Ana ou João de Adão. Geralmente são palavras com alguma semelhança na forma ou na sonoridade. 
     Mesmo considerando a imensidão de relacionamentos reais e virtuais estabelecidos atualmente, é possível minimizar esses incovenientes, evitando um possível constrangimento. Inicialmente é necessário prestar mais atenção no momento da apresentação, demonstrando um esforço cognitivo de criar intencionalmente uma associação entre o nome da pessoa com alguma característica dela (física, emocional) ou com algo/alguém conhecido (Adão - bigodão; Ana - mesmo nome de uma tia; João - nome de um grande papa). É essencial também repetir várias vezes o nome do indivíduo durante os primeiros segundos da conversa de apresentação, facilitando a retenção. Desta forma se ativa mais intensamente a região do giro frontal inferior esquerdo do cérebro, aprimorando a codificação e, consequentemente, a memória. Porém, parece que o mais difícil é se conscientizar que é preciso fazer algo e não acreditar - como eu - que os nomes vão surgir por geração espontânea ou fazendo força, para não correr o risco de ser forçado a pronunciar aquela desagradável pergunta: como é mesmo seu nome?

domingo, 4 de setembro de 2011

O cultivo da cognição

      Segunda-feira passada estive num colégio infantil para observar um garoto que, segundo seus pais, já apresentava dificuldades escolares no jardim II. Como geralmente faço, após algumas informações com a equipe técnica da escola, permaneci por alguns momentos na sala, acompanhando silenciosamente as atividades desenvolvidas pela professora. À medida que a tia realizava as atividades - rodinha, leitura da estória da Chapeuzinho Vermelho, lanche coletivo -, pude identificar restrições importantes no desenvolvimento do garoto, principalmente na linguagem, atenção e na socialização. Apesar da intensa plasticidade cerebral presente nos primeiros anos da criança, ocasionando mudanças constantes no seu comportamento, bem como do início cada vez mais antecipado da vida escolar do estudante, alguns distúrbios - transtornos globais do desenvolvimento -, principalmente o espectro autista, precisam ser precocemente diagnosticados e estimulados, a fim de diminuir possíveis prejuízos cognitivos, sociais e funcionais. Entretanto, o diagnóstico dos transtornos de aprendizagem - dislexia, tda/h, discalculia, etc - precisa aguardar um pouco mais de tempo, sendo adequado por volta dos sete ou oito anos de idade.
      Voltando à sala de aula, havia outra coisa que me chamava a atenção naquele ambiente: eu estava presenciando a preparação do solo e a semeadura das funções mentais! A professora oferecia aos alunos atividades ricas em estímulos sensoriais e motores: antes de iniciar a estória, entoava uma música para os alunos ficarem em silêncio; durante a leitura da Chapeuzinho provocava variações no timbre da voz e na sua expressão facial, emocionando a turma; em determinados momentos solicitava que os alunos fizessem movimentos com os braços e pernas, fazendo-os vivenciarem a atividade; depois, no lanche coletivo, pedia que estudantes imaginassem os alimentos contidos nas embalagens, em seguida mostrava-os, pedindo que fossem cheirados, nomeados e degustados. Durante todas as tarefas ela aproveitava para incluir noções de espaço, tempo, quantidade e formas.  Embora não tenha permanecido até a hora do banquete, fiquei plenamente satisfeito e encantado em presenciar as funções cognitivas sendo preparadas e semeadas, através da variada e repetida sequência de atividades sensóriomotoras, adubando a mente com percepções visuais, auditivas, táteis, cinestésicas, olfativas, gustativas e emotivas. A partir de uma fértil percepção brotarão ou se desenvolverão as habilidades cognitivas - memória, inteligência, linguagem, funções visuoespaciais, visuoconstrutivas e executivas -, fazendo florescer a aprendizagem, tendo como frutos a interação - com o outro e com o mundo -  e o conhecimento.

domingo, 21 de agosto de 2011

Receita - memória à moda da casa

Ingredientes
1 situação ou evento completo
300g de motivação
1 litro de atenção
3 colheres de sopa de emoção
pitadas de compreensão

Modo de preparar
Retire toda a parte externa da situação e coloque o miolo numa panela, com  200g de motivação, 1/2 litro de atenção, uma pitada de compreensão e 1 colher de sopa de emoção (preferência agradável). Mexer repetidamente até reter na panela. Deixe a massa adormecer por um bom tempo... Em seguida coloque na forma untada com 2 colheres de emoção e leve ao forno, em fogo brando, por algumas horas. Antes de resgatar do forno acrescente  mais 100g de motivação e o restante da atenção. Está pronta a Memória à Moda da Casa!

Modo de servir
Deixe esfriar e sirva sozinha ou acompanhada de outros pratos quentes ou frios. Deve ser conservada em lugar aberto e arejado, com prazo de validade indeterminado, porém com algumas alterações no sabor no decorrer do tempo.

Observação  
Evite exageros: a abstinência ocasiona alienação e a ingestão exagerada pode provocar mal estar, indigestão, insônia e diminuição dos reflexos.

domingo, 14 de agosto de 2011

Preservando a família

     Saboreando os olhares e  os abraços carinhosos dos meus três filhos neste domingo dos pais, fiquei quieto e me divertindo ao ver alguns comportamentos neles que acredito serem meus: o interesse por instrumentos musicais, a intensa necessidade de frutas na alimentação,  dormir com os olhos vendados, o prazer do contato com cavalos e com a natureza. Ainda bem que na socialização "puxaram à mãe", porque se dependessem da minha habilidade social... É claro que vários outros comportamentos deles têm  influência dos pais - genética ou psicológica -, favorecendo não só as suas virtudes mas também as suas limitações mas, sendo hoje o meu dia, sinto-me no direito de me embriagar com algumas doses de vaidade paterna, comentando apenas algumas influências que considero positivas. Mesmo morando na cidade, em apartamento, o gosto pelo ambiente rural - contato com animais e plantas - é uma das características mais marcantes da minha família. Já no meu tempo de criança o quintal da casa e as árvores eram o playground, e os animais - galinhas, cágado, mocó, peixe, cachorro, sagui - faziam parte do entretenimento, mas também das responsabilidades (alimento, banho, limpeza). Possivelmente nesta fase nasceu o meu interesse em observar comportamentos. Lembro que certo dia, querendo enfeitar o aquário com vários peixes e ornamentos, um criador experiente me falou da importância de se criar um ambiente equilibrado quimicamente (evitasse materiais e objetos que tornassem a água muito ácida ou muito alcalina) e no relacionamento entre os peixes (optasse por espécies que convivessem sem agressividade). Foi a primeira vez que ouvi alguém destacar a dificuldade e a importância de se criar e manter um ambiente em harmonia. Mais tarde, iniciando o curso de biologia, o equilíbrio e a influência mútua voltaram a ser os destaques no estudo  da biodiversidade. Nesses últimos anos, assistindo aos vários documentários sobre mamíferos e primatas, a complexidade das relações entre os membros num determinado habitat, seja nas árvores, em tocas ou num determinado território da savana africana tem me deixado perplexo. Comportamentos tradicionalmente classificados como exclusivos de pessoas, dos mais egoístas aos altruistas,  são cada vez mais identificados nos animais.
     Como pai e psicólogo, acompanhando as inúmeras mudanças que vêm acontecendo na família, tenho frequentemente me questionado sobre aquele equilíbrio e as repercussões nesse primeiro núcleo social formado, primeiramente, por duas pessoas com histórias de vida diferentes, condutas distintas, pensamentos e sentimentos nem sempre convergentes, e que precisarão de um tempo para se ajustarem. Quando nasce o filho, uma nova ordem se estabelece em casa, com novos objetivos, desejos e interações, formando então um ambiente complexo - psicodiversidade - que, como todo ambiente, irá buscar o equilíbrio. No entanto, outras situações, às vezes inevitáveis, podem provocar alterações: a saída do pai (ou da mãe) e a entrada do padrasto (ou madrasta) na separação, com a inclusão dos enteados no mesmo ambiente;  a permanência dos filhos na casa de familiares (tios, avós) por turnos, dias e até semanas, num ambiente diferente, com pessoas e costumes próprios; o espaçamento das reuniões familiares diante do excesso de atividades dos responsáveis e da correria do cotidiano; a extinção de hábitos alimentares, de estudo e de sono pela crescente terceirização das responsabilidades do lar. E o equilíbrio da psicodiversidade? Se a capacidade de planejar e modificar o próprio comportamento através da reflexão é uma realidade no comportamento do indivíduo, a história evolutiva da humanidade e a consequente arqueologia mental também  não podem ser ignoradas. Sendo assim, continuemos a procurar um local seguro para os nossos filhotes, a lamber a nossa cria rotineiramente, a coçar sua cabeça e retirar os piolhos, a ensiná-la a caçar, a orientá-la a fugir quando preciso e lutar quando necessário, e procurar uma boa sombra para ficarmos amontoados. E, como pai, deixemos também florescer o sentimento de posse e cuidado: esta é a minha família! Em seguida sejamos decisivos, embora com a colaboração de parentes e até funcionários, na construção do equilíbrio do nosso canto, adaptá-lo quando necessário, mas sobretudo defender, com unhas e dentes, a preservação da intimidade familiar.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

É hora de dormir!

     Não consigo dormir cedo! Dormir é perda de tempo! Afirmações como estas vem sendo pronunciadas não só por adultos, mas também por adolescentes e até crianças, indicando uma mudança nos hábitos noturnos das famílias. A vida moderna, com novos serviços e produtos, avança no horário antes destinado ao sono, adiando cada vez mais o adormecer das pessoas. Apesar de ser suspeito em recomendar dormir bem, porque "sou bom de cama" - gosto de me deitar, adormeço serenamente e amanheço entusiasmado -, as pesquisas mostram que o sono é essencial à sobrevivência humana, porque nele são executados processos biológicos fundamentais à reparação e ao equilíbrio (homeostase) do corpo. O humor e o desempenho cognitivo, principalmente a atenção, memória e a aprendizagem também têm seu funcionamento dependente do que acontece durante as horas em que permancemos dormindo. A Irritabilidade, a distração, o esquecimento e a diminuição da prontidão mental são algumas das consequências da privação do sono.
     A aparência de uma pessoa adormecida - olhos fechados, imobilidade, resposta reduzida a estímulos - parece transmitir uma falsa impressão de marasmo, inoperância e "perda de tempo". Mas se pudéssemos assistir aos fenômenos que se desenvolvem quando fechamos os olhos, ficaríamos impressionados com a complexidade dos acontecimentos ali encobertos. Muita coisa acontece nos bastidores do sono, dividido em fases com ou sem movimentos dos olhos, atividade elétrica cerebral variada, sonhos mais ou menos bizarros, alterações cardíacas, do tônus muscular, etc, repetindo-se em ciclos de aproximadamente 70 minutos, durante toda a noite. Se a arquitetura for executada adequadamente, sem várias interrupções (despertares), acordaremos reparados fisiológicamente, dispostos cognitivamente e tranquilos emocionalmente. Em se tratando de crianças, este processo se torna ainda mais relevante, necessitando elas de um sono em maior quantidade e qualidade (horários regulares, dormir sem tv ligada, sem respirar pela boca, temperatura adequada no quarto).
     Então, como conciliar a necessidade fisiológica de dormir, aprimorada em milhares de anos, com as peculiaridades da modernidade - uma programação "infantil" ininterrupta na televisão, intermináveis conversas na internet, jogos eletrônicos com intrincadas e excitantes estratégias? Como permitir que crianças e adolescentes ocupem as noites com atividades de entretenimento, dormindo após às 22 ou 23:00h, em detrimento de uma necessidade psicobiológica e, no outro dia, acordem às 06:00h, espontaneamente e com disposição para as demandas escolares, esportivas, sociais e  familiares do dia? Como esperar que eles consigam, sem respeitar o próprio funcionamento, tirar o melhor de si para aprender o que é extensamente falado pelos professores?
     Embora ainda não esteja "tirando o meu sono", inquieta-me ver tal situação, pela crescente dificuldade familiar de se estabelecer horários de sono, mas sobretudo de distinguir atividades, eventos e comportamentos infantis, dos adultos. 

domingo, 15 de maio de 2011

Lembrar e esquecer: faces de uma mesma memória

                Quando alguém comenta que está com problemas de memória sempre imaginamos que ele esteja se queixando de esquecimento, seja do nome de pessoas conhecidas, do local onde guardou algum objeto ou de um compromisso. Estes episódios são incômodos pelo constrangimento, perda de tempo e prejuízos que provocam. Numa escala progressiva podem indicar um processo neurodegenerativo que, além desses e outros esquecimentos, também corrói a individualidade. Precisamos da memória para sabermos e sermos quem somos e, uma vez iniciada a demolição da capacidade de se lembrar, serão identificadas destruições na estrutura da personalidade, com mudanças no jeito de pensar, sentir e agir. A possibilidade de desenvolver uma síndrome demencial tem sido a maior preocupação quando se fa la em esquecimento - para pessoas com mais de 50 anos -, aumentando o interesse por exercícios e estratégias para facilitar as lembranças, como a leitura, palavras cruzadas, cursos, etc. Ter uma memória saudável significaria então demonstrar uma exuberante capacidade de evocar eventos. Mais ou menos. Para realizarmos as atividades diárias - manuais, intelectuais, afetivas, sociais - precisamos realmente ter disponíveis recordações recentes e remotas, e os exercícios cognitivos aumentam a prontidão mental. Porém ter uma memória saudável implica também em...esquecer! Por incrível que pareça o esquecimento, em determinado nível, contribui para uma excelente memória, ou melhor, para uma memória funcional. Pacientes com uma excelente memória conseguem, infelizmente, lembrar-se de quase todos os episódios ocorridos há décadas: propagandas de tv, visitas recebidas, discussões, noticiários, aborrecimentos, refeições realizadas. Tais pessoas, embora poucas,  procuram médicos e especialistas para ensiná-las a esquecer. Não conseguem desfrutar o presente por serem inundadas pelo passado, com um fluxo avassalador de lembranças inúteis. Com uma retenção menos prodigiosa, pessoas rancorosas e depressivas também desperdiçam momentos relembrando, detalhadamente, raivas e frustrações. Na memória funcional a habilidade de lembrar (algo relevante) é proporcional à de esquecer (trivialidades). E se pararmos  para lembrar e refletir um pouco veremos que, por melhor que tenha sido a nossa história, de um modo geral os fatos irrelevantes, repetitivos ou até mesmo desagradáveis foram mais numerosos. Precisamos, sem maiores preocupações, lembrar de esquecer algumas coisas para que possamos evocar não só lembranças, mas a sensação de estar vivo, para vivenciarmos novas - e de preferência agradáveis - experiências.