domingo, 9 de outubro de 2011

Como será?


Como será
quando vivermos mais tempo no mundo da lua,
quando soubermos observar melhor,
quando pudermos refletir destemidamente,
quando aceitarmos a nossa evidente ignorância,
quando compreendermos nossas motivações mais íntimas,
quando soubermos realmente escolher,
quando pudermos agir sem a imperiosa necessidade de conciliar tantos desejos,
quando conseguirmos desvencilhar de sentimentos e impulsos desnecessários,
quando soubermos distinguir claramente o que é agradável do que faz bem,
quando aprendermos a buscar o que é melhor e não só o que mais nos agrada,
quando tivermos mais tempo para menos ocupações,
quando precisarmos consumir menos,
quando conseguirmos desenvolver o desapego do corpo e da mente,
quando não precisarmos temer para ajudar,
quando, ao invés de amor pelos nossos, tivermos cuidado com tudo e com todos,
como será?

domingo, 2 de outubro de 2011

Idoso, vá procurar a sua turma!

      No auditório da Santa Casa de Misericórdia de Maceió, dezenas de pessoas, a maioria entre sessenta e setenta anos, demonstraram disposição juvenil no Curso de Envelhecimento Ativo, perguntando sobre memória, atenção, Alzheimer e outros distúrbios psiquiátricos. Isto ocorreu na quarta-feira passada, quando apresentava a disciplina Memória e Envelhecimento. Como professor do curso de psicologia que fui, sempre me entusiasmei com a motivação da turma, mas o interesse manifestado por esses alunos foi tão numeroso quanto a idade deles. Durante a apresentação uma estudante me perguntou como evitar a perda da memória e aproveitei para dizer que, entre outras coisas, o fato de estarem ali buscando conhecimento já seria também um comportamento protetor para a retenção, permanecendo conectados à vida. Lembrei que há pouco tempo atrás a realidade do idoso era outra: para a maioria com mais de sessenta anos, a vida se apagava rapidamente na aposentadoria, restando apenas algumas visitas a familiares e médicos e sentar no trono do apartamento, com a boca escancarada, cheia de dentes, esperando a morte chegar (Raul Seixas). Nos últimos cinquenta anos não só a expectativa de vida aumentou (em 1960 era de 54 anos e 2010 de 73 anos), mas principalmente a expectativa da vida também cresceu, ou seja, as pessoas fazem mais planos, estudam, viajam e trabalham (embora, como toda turma, existem os que ficam alheios ao novo conhecimento e se isolam nos seus pensamentos e frustrações). E apesar de enfrentarem dificuldades - familiares, financeiras, na saúde -, estão vivendo mais e com melhor qualidade. Assim é a minha turma do Envelhecimento Ativo, que faz parte do grupo que mais cresceu na última década, segundo os resultados do Censo de 2010 (IBGE), correspondendo a 12 % da população brasileira, sendo mais de 20 milhões de pessoas. Detalhe: muitos deles são responsáveis financeiramente pelo domicílio que residem, tendo sob seus cuidados filhos, netos e outros parentes. A tendência é que assumam, cada vez mais, um papel de destaque na sociedade brasileira, transformando-se numa força trabalhadora, eleitoral e de consumo, influenciando mais decisivamente não só nas decisões políticas, mas também na produção e serviços oferecidos. Provavelmente teremos então produtos mais saudáveis nas prateleiras dos supermercados, programas de televisão com entretenimento e informação responsáveis, edificações e vias públicas adaptadas, além de uma maior cobrança das políticas públicas (saúde, educação, transporte, segurança). Isso não quer dizer o envelhecimento santifica as pessoas e que seremos felizes para sempre, até porque existem aqueles que, segundo minha mestra gaúcha Mirna Português, "apodrecem mas não amadurecem" - Paulo Maluf foi acusado, ao setenta anos, de desviar cerca de um bilhão de reais de obras; no interior de Alagoas um grupo de idosos foi preso acusado de pedofilia. Mas acredito intensamente que o aumento da população idosa venha favorecer os avanços sociais no Brasil e atitiudes mais consequentes no mundo  - já que é um fenômeno que vem acontecendo em vários países. Por isso, jovens que cresceram sem veículos na garagem, televisão, celular, computador e internet, juntem-se, continuem aprendendo e sendo atuantes, porque nós precisamos de vocês!

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Convivência harmônica

     Neste último domingo participei de uma cavalgada com mais 14 pessoas, entre filhos e amigos, nos povoados de Marechal Deodoro, por aproximadamente 30 km. Foi um passeio muito agradável, embora cansativo, ao ponto de não conseguir realizar - embora tentado - a também agradável postagem dominical. Hoje, totalmente recuperado das 6 horas da cavalgada, senti a necessidade de comentar alguns momentos interessantes vividos naquele dia. Selamos os cavalos às 09:00h da manhã e saímos da Barra Nova em direção à praia do Francês, passando por outros povoados do mesmo município. Apesar de conhecer a região há aproximadamente vinte anos, montado no cavalo conheci lugares nunca antes visitados, desde as trilhas na capoeira e galopes com emoção nas dunas, até as paradas rápidas em lugares simples e aconchegantes, para descansar os animais e degustar uma saborosa comida. Tudo isso acompanhado de uma conversa animada e descontraída. Tudo isso proporcionado por uma antiga e intensa parceria: o homem e o cavalo. Uma dupla que desbravou continentes, participou de caçadas, preparou a terra para o plantio, transportou pessoas e enfrentou batalhas sanguinolentas. Ainda hoje, apesar dos avanços tecnológicos e sociais, esse animal ainda é essencial na batalha da vida de muitas famílias, seja na cidade ou no campo. E para crianças com transtornos do desenvolvimento, o movimento rítmico, preciso e tridimensional do equino - frente/trás, direita/esquerda, cima/baixo - permite uma intensa estimulação proprioceptiva (percepção do próprio corpo), favorecendo o aprimoramento das habilidades motoras, cognitivas e emocionais (equoterapia). Não é a toa que o cavalo desperte tanto entusiasmo nas pessoas, demonstrado no olhar curioso e atento de crianças e adultos quando a tropa passa. Não há quem consiga ficar indiferente a ele. A sua imponência, robustez e elegância hipnotizam qualquer espectador. Já para os cavaleiros, a segurança da montada, a força dos seus mais de trezentos quilos, a andadura em todo o tipo de terreno, a excitação do galope e o vento batendo no rosto fazem sentir um prazer sem tamanho, pisoteando todas as preocupações e aborrecimentos, restando apenas o cansaço de uma atividade plenamente satisfeita. É a harmonia entre a força e a sutileza, o concreto e o abstrato, a emoção e a razão...

domingo, 18 de setembro de 2011

Como é mesmo o seu nome?

      Ontem pela manhã, chegando na academia, encontrei um irmão de um amigo que há muito tempo não o via. Após cumprimentá-lo, recordamos alguns episódios da nossa infância, mas não lembrei do nome dele. Durante a conversa, relembrando os eventos remotos, tentei fisgar alguma pista que me levasse ao nome do rapaz, sem sucesso até agora. À tarde, chegando numa festa de aniversário para buscar o meu caçula, fui me despedir do pai do aniversariante - que, por sinal, já esteve em minha casa - mas, novamente o nome não saiu. Que chatisse! Ouvir o outro pronunciar o nosso nome geralmente é muito agradável, mas perceber que ele esqueceu, não. Parentes, amigos e inúmeros pacientes  também relatam o mesmo problema: gravar o nome das pessoas!
      Em Os Sete Pecados da Memória, Schacter explica que o nome de uma pessoa, expontaneamente, revela muito pouco sobre o indivíduo. Saber que fulano é Igor, Artur ou Luciana não indica imediatamente característica alguma delas, dificultando associações e comprometendo a memorização. Consequentemente, não se forma uma exuberante rede semântica, ficando apenas um único e penoso caminho para a recordação. Diferente do substantivo comum - computador, casa -, que é possível estabelecer facilmente uma representação visual e conceitual: computador é algo retangular, resistente, elétrico e serve para digitar dados. Além disso, os substantivos comuns têm os sinônimos, que suprem no esquecimento: na falta de casa, posso falar residência ou moradia. Já Igor é totalmente diferente do Artur, que contrasta com a Luciana. Dois pecados da memória podem explicar este fenômeno: o bloqueio e a distração. No bloqueio o nome foi memorizado mas, por falta de atalhos, sua recordação se torna trabalhosa. Expressões como "tá na ponta da língua" ilustram o ocorrido. Na distração a pessoa, sem perceber, não prioriza a escuta do nome, direcionando sua atenção para outra situação mais urgente ou interessante, tendo como resultado a falha na codificação da informação e a ausência do armazenamento. Ansiedade, alterações do humor, stress e débito de sono podem intensificar tais situações. E pra complicar um pouco mais a busca da palavra, existe ainda o fenômeno chamado "irmãs feias" (em referência à história da Cinderela, quando as irmãs feiosas, filhas da madrasta, tentam impedir que a moça calce o sapato, escondendo-a e se antecipando forçosamente para o principe): quando tentamos arduamente lembrar do nome do conhecido, sugem outras palavras intrusas na cabeça, dando uma falsa sensação de verdadeira. Aí chamamos Amanda de Ana ou João de Adão. Geralmente são palavras com alguma semelhança na forma ou na sonoridade. 
     Mesmo considerando a imensidão de relacionamentos reais e virtuais estabelecidos atualmente, é possível minimizar esses incovenientes, evitando um possível constrangimento. Inicialmente é necessário prestar mais atenção no momento da apresentação, demonstrando um esforço cognitivo de criar intencionalmente uma associação entre o nome da pessoa com alguma característica dela (física, emocional) ou com algo/alguém conhecido (Adão - bigodão; Ana - mesmo nome de uma tia; João - nome de um grande papa). É essencial também repetir várias vezes o nome do indivíduo durante os primeiros segundos da conversa de apresentação, facilitando a retenção. Desta forma se ativa mais intensamente a região do giro frontal inferior esquerdo do cérebro, aprimorando a codificação e, consequentemente, a memória. Porém, parece que o mais difícil é se conscientizar que é preciso fazer algo e não acreditar - como eu - que os nomes vão surgir por geração espontânea ou fazendo força, para não correr o risco de ser forçado a pronunciar aquela desagradável pergunta: como é mesmo seu nome?

domingo, 11 de setembro de 2011

Pessoas inteligentes, mas indiferentes?

     Há vários dias a imprensa vem divulgando repetidamente  os atentados terroristas do dia 11 de setembro de 2001, nos EUA, apresentando detalhes dos sequestros dos aviões, da destruição total das torres gêmeas e parcial do pentágono. Desde as características dos sequestradores, com a preparação (técnica e emocional) até o planejamento e execução das ações. Foi realmente impressionante! Como um grupo de pessoas consegue invadir a casa do inimigo e, com as suas próprias armas, ocasionar tamanho estrago? Como uma organização consegue causar um dano tão intenso na maior potência econômica e bélica do planeta? Como superar um país com a maior tecnologia do mundo e com um check in tão rigoroso nos aeroportos? Com inteligência! Quanto mais nos informamos dos bastidores dos atentados, mais evidente fica a refinada elaboração dos planos de Bin Laden e cia. Com criatividade, capacidade de planejamento, flexibilidade mental, operacionalidade, controle de impulsos e monitoramento, eles executaram uma das ações  mais audaciosas dos últimos tempos. Sim, realmente eles foram muito espertos! Com inteligência, eles mataram quase três mil pessoas, afundaram os americanos num gasto de bilhões de dólares em dez anos e intensificaram o medo na população (pesquisas indicaram um aumento dos casos de transtornos depressivos e de ansiedade após os atentados nos EUA). Para muitos estas considerações podem ser absurdas e insensíveis - "isto não é inteligência, e sim maldade!" - mas, infelizmente isso é inteligência, ou pelo menos corresponde a alguns tipos, já que parece que temos vários (Gardner identificou a existência de múltiplas inteligências, como a lógico-matemática, linguística, cinestésica, interpessoal, intrapessoal, entre outras). 
      Assim como a inteligência, as outras habilidades cognitivas - memória, linguagem, funções executivas - são amorais, ou seja, destituídas de valores de conduta. São ferramentas a serviço de algo estrutural no comportamento humano: as emoções. Sendo assim, podem ser usadas tanto para construtir como para destruir, agregar ou separar, criar ou matar, apaziguar ou aterrorizar. Historicamente as habilidades cognitivas têm servido ao primitivo e intenso desejo de poder da humanidade, não só nas grandes batalhas, guerras, roubos e atentados, mas também no cotidiano de muitos adultos e crianças. Da África ao nordeste brasileiro, milhões de pessoas sofrem diariamente com a miséria, a violência e a indiferença de homens inteligentes. Aqui, bem perto da gente, mais de um milhão de alagoanos sobrevivem sem alimentação adequada, assistência médica e educação. E muitos dos nossos representantes e gestores têm altas habilidades cognitivas - inteligência privilegiada, memória prodigiosa, fluência verbal invejável -, com passagem em bons colégios e um currículum impecável. Outros, menos afortunados nestas capacidades, possuem um carisma contagiante ou um espantoso poder de articulação. Com tudo isso, os frequentes desvios de verbas e merendas, os assassinatos, os serviços públicos sucateados e a corrupção fazem com que o nosso estado permaneça eternamente na turma do fundão nas avaliações sociais e econômicas, sendo comparado pela revista inglesa The Economist com o Afeganistão, país devastado e acusado de ter abrigado Osama Bin Laden. Em nossas casas também nos deparamos com as brigas e mentiras dos nossos habilidosos e promissores filhos, pelo poder da nossa atenção. Na escola comportamentos agressivos, apelidos constrangedores com colegas, a chacota com o diferente, a resistência em obedecer regras, o desinteresse pela história. E nós, pais, estimulando cognitivamente nossos filhos com aulas particulares, cursinhos, intercâmbio, escola de línguas,  para que eles fiquem bem preparados para o competitivo mercado de trabalho. Mas, o que estamos realmente preparando? Será que estudantes, profissionais, gestores inteligentes, mas pessoas indiferentes? Determinados e competentes em progredir e atingir metas, em detrimento do prejuízo e sofrimento alheio? Empreendedores, porém descontrolados? Desejo ardentemente que esta postagem xiita se exploda pelos exageros cometidos!

domingo, 4 de setembro de 2011

O cultivo da cognição

      Segunda-feira passada estive num colégio infantil para observar um garoto que, segundo seus pais, já apresentava dificuldades escolares no jardim II. Como geralmente faço, após algumas informações com a equipe técnica da escola, permaneci por alguns momentos na sala, acompanhando silenciosamente as atividades desenvolvidas pela professora. À medida que a tia realizava as atividades - rodinha, leitura da estória da Chapeuzinho Vermelho, lanche coletivo -, pude identificar restrições importantes no desenvolvimento do garoto, principalmente na linguagem, atenção e na socialização. Apesar da intensa plasticidade cerebral presente nos primeiros anos da criança, ocasionando mudanças constantes no seu comportamento, bem como do início cada vez mais antecipado da vida escolar do estudante, alguns distúrbios - transtornos globais do desenvolvimento -, principalmente o espectro autista, precisam ser precocemente diagnosticados e estimulados, a fim de diminuir possíveis prejuízos cognitivos, sociais e funcionais. Entretanto, o diagnóstico dos transtornos de aprendizagem - dislexia, tda/h, discalculia, etc - precisa aguardar um pouco mais de tempo, sendo adequado por volta dos sete ou oito anos de idade.
      Voltando à sala de aula, havia outra coisa que me chamava a atenção naquele ambiente: eu estava presenciando a preparação do solo e a semeadura das funções mentais! A professora oferecia aos alunos atividades ricas em estímulos sensoriais e motores: antes de iniciar a estória, entoava uma música para os alunos ficarem em silêncio; durante a leitura da Chapeuzinho provocava variações no timbre da voz e na sua expressão facial, emocionando a turma; em determinados momentos solicitava que os alunos fizessem movimentos com os braços e pernas, fazendo-os vivenciarem a atividade; depois, no lanche coletivo, pedia que estudantes imaginassem os alimentos contidos nas embalagens, em seguida mostrava-os, pedindo que fossem cheirados, nomeados e degustados. Durante todas as tarefas ela aproveitava para incluir noções de espaço, tempo, quantidade e formas.  Embora não tenha permanecido até a hora do banquete, fiquei plenamente satisfeito e encantado em presenciar as funções cognitivas sendo preparadas e semeadas, através da variada e repetida sequência de atividades sensóriomotoras, adubando a mente com percepções visuais, auditivas, táteis, cinestésicas, olfativas, gustativas e emotivas. A partir de uma fértil percepção brotarão ou se desenvolverão as habilidades cognitivas - memória, inteligência, linguagem, funções visuoespaciais, visuoconstrutivas e executivas -, fazendo florescer a aprendizagem, tendo como frutos a interação - com o outro e com o mundo -  e o conhecimento.

sábado, 27 de agosto de 2011

Uma difícil jornada

      Ontem, fomos - eu, Adriana, Marília e Lucas - a Recife realizar o PAC (Processamento Auditivo Central) na minha filha. Concluído o exame e após ouvir  algumas informações pouco esclarecedoras, frustrado e irritado,  dirijo-me ao  estacionamento e, na saída, colido levemente com um carro de duas senhoras. Após tranquilizá-las e realizados os acertos dos pequenos arranhões nos veículos, desistimos de passear no shopping e decidimos voltar imediatamente para Maceió, às 16:15h. Por não trafegar há alguns anos na BR 101 fiquei entusiasmado com a duplicação da rodovia até Palmares, num trajeto seguro, agradável e confortável. No entanto, anoitecendo, confundi-me e segui na direção errada. Após alguns minutos e 12 km rodados desnecessariamente, desconfiei do engano, procurei orientação e retornei a Palmares para seguir pela 101. Escuro, deserto e sem indicação, o trevo oferecia  várias opções de estradas, deixando-nos por alguns instantes preocupados, até identificarmos o caminho certo. Aliviados, seguimos pela rodovia e, após alguns quilômetros, encontramos um grande engarrafamento de veículos: uma ponte estava destruída e só havia uma via de passagem para os dois sentidos. Como não havia o que fazer, ficamos observando o jeito de viver das pessoas ali presentes: casas simples, idosos sentados na calçada vendo o tempo passar e poucos estudantes andando à beira da pista, em direção à escola. Ficamos impressionados como elas conseguiam viver com tantas restrições e manifestar contentamento. Na escuridão os minutos foram passando lentamente e tentei preenchê-los contemplando o imenso céu estrelado. Após esperararmos mais de uma hora, conseguimos finalmente atravessar a ponte improvisada. Novamente nos sentimos aliviados, mas a estrada que encontramos a seguir era muito esburacada e exigia muita atenção. No trajeto encontramos vários carros danificados no acostamento, com as pessoas trocando os pneus ou fazendo outros reparos. Continuamos a seguir lentamente na rodovia, com um trânsito intenso e, finalmente às 21:30h chegamos bem cansados, mas confortados por estarmos em casa.
      O cansaço não foi suficiente para antecipar o sono porque outros incômodos mais agudos alimentavam os mais variados pensamentos e recordações, sendo apaziguado apenas pelo sorriso iluminado e o abraço caloroso da minha princesa na despedida de boa noite. Comecei a lembrar das histórias de  alguns pacientes, principalmente daqueles com intensas limitações em compreender, comunicar, interagir, etc. Aqueles que, na bagagem, guardam inúmeras situações desagradáveis pelas dificuldades apresentadas, pelos fracassos, cobranças, reclamações, exclusão e até discriminação. Eles, apesar de  progredirem na aprendizagem, continuarão a apresentar desvantagens nas atividades familiares, escolares e sociais. Por outro lado, seus pais, como nós, teremos uma estrada escura, longa e difícil, irritando-se com comentários pouco esclarecedores ou inadequados de determinados profissionais, curiosos e até conhecidos, entusiasmando-se com a evolução e com novas possibilidades, arrependendo-se de certas decisões e atitudes tomadas, angustiando-se na solitária e eterna espera, porém aprendendo com outras famílias mais prejudicadas, alegrando-se com detalhes e encontrando conforto em casa. 

domingo, 21 de agosto de 2011

Receita - memória à moda da casa

Ingredientes
1 situação ou evento completo
300g de motivação
1 litro de atenção
3 colheres de sopa de emoção
pitadas de compreensão

Modo de preparar
Retire toda a parte externa da situação e coloque o miolo numa panela, com  200g de motivação, 1/2 litro de atenção, uma pitada de compreensão e 1 colher de sopa de emoção (preferência agradável). Mexer repetidamente até reter na panela. Deixe a massa adormecer por um bom tempo... Em seguida coloque na forma untada com 2 colheres de emoção e leve ao forno, em fogo brando, por algumas horas. Antes de resgatar do forno acrescente  mais 100g de motivação e o restante da atenção. Está pronta a Memória à Moda da Casa!

Modo de servir
Deixe esfriar e sirva sozinha ou acompanhada de outros pratos quentes ou frios. Deve ser conservada em lugar aberto e arejado, com prazo de validade indeterminado, porém com algumas alterações no sabor no decorrer do tempo.

Observação  
Evite exageros: a abstinência ocasiona alienação e a ingestão exagerada pode provocar mal estar, indigestão, insônia e diminuição dos reflexos.

domingo, 14 de agosto de 2011

Preservando a família

     Saboreando os olhares e  os abraços carinhosos dos meus três filhos neste domingo dos pais, fiquei quieto e me divertindo ao ver alguns comportamentos neles que acredito serem meus: o interesse por instrumentos musicais, a intensa necessidade de frutas na alimentação,  dormir com os olhos vendados, o prazer do contato com cavalos e com a natureza. Ainda bem que na socialização "puxaram à mãe", porque se dependessem da minha habilidade social... É claro que vários outros comportamentos deles têm  influência dos pais - genética ou psicológica -, favorecendo não só as suas virtudes mas também as suas limitações mas, sendo hoje o meu dia, sinto-me no direito de me embriagar com algumas doses de vaidade paterna, comentando apenas algumas influências que considero positivas. Mesmo morando na cidade, em apartamento, o gosto pelo ambiente rural - contato com animais e plantas - é uma das características mais marcantes da minha família. Já no meu tempo de criança o quintal da casa e as árvores eram o playground, e os animais - galinhas, cágado, mocó, peixe, cachorro, sagui - faziam parte do entretenimento, mas também das responsabilidades (alimento, banho, limpeza). Possivelmente nesta fase nasceu o meu interesse em observar comportamentos. Lembro que certo dia, querendo enfeitar o aquário com vários peixes e ornamentos, um criador experiente me falou da importância de se criar um ambiente equilibrado quimicamente (evitasse materiais e objetos que tornassem a água muito ácida ou muito alcalina) e no relacionamento entre os peixes (optasse por espécies que convivessem sem agressividade). Foi a primeira vez que ouvi alguém destacar a dificuldade e a importância de se criar e manter um ambiente em harmonia. Mais tarde, iniciando o curso de biologia, o equilíbrio e a influência mútua voltaram a ser os destaques no estudo  da biodiversidade. Nesses últimos anos, assistindo aos vários documentários sobre mamíferos e primatas, a complexidade das relações entre os membros num determinado habitat, seja nas árvores, em tocas ou num determinado território da savana africana tem me deixado perplexo. Comportamentos tradicionalmente classificados como exclusivos de pessoas, dos mais egoístas aos altruistas,  são cada vez mais identificados nos animais.
     Como pai e psicólogo, acompanhando as inúmeras mudanças que vêm acontecendo na família, tenho frequentemente me questionado sobre aquele equilíbrio e as repercussões nesse primeiro núcleo social formado, primeiramente, por duas pessoas com histórias de vida diferentes, condutas distintas, pensamentos e sentimentos nem sempre convergentes, e que precisarão de um tempo para se ajustarem. Quando nasce o filho, uma nova ordem se estabelece em casa, com novos objetivos, desejos e interações, formando então um ambiente complexo - psicodiversidade - que, como todo ambiente, irá buscar o equilíbrio. No entanto, outras situações, às vezes inevitáveis, podem provocar alterações: a saída do pai (ou da mãe) e a entrada do padrasto (ou madrasta) na separação, com a inclusão dos enteados no mesmo ambiente;  a permanência dos filhos na casa de familiares (tios, avós) por turnos, dias e até semanas, num ambiente diferente, com pessoas e costumes próprios; o espaçamento das reuniões familiares diante do excesso de atividades dos responsáveis e da correria do cotidiano; a extinção de hábitos alimentares, de estudo e de sono pela crescente terceirização das responsabilidades do lar. E o equilíbrio da psicodiversidade? Se a capacidade de planejar e modificar o próprio comportamento através da reflexão é uma realidade no comportamento do indivíduo, a história evolutiva da humanidade e a consequente arqueologia mental também  não podem ser ignoradas. Sendo assim, continuemos a procurar um local seguro para os nossos filhotes, a lamber a nossa cria rotineiramente, a coçar sua cabeça e retirar os piolhos, a ensiná-la a caçar, a orientá-la a fugir quando preciso e lutar quando necessário, e procurar uma boa sombra para ficarmos amontoados. E, como pai, deixemos também florescer o sentimento de posse e cuidado: esta é a minha família! Em seguida sejamos decisivos, embora com a colaboração de parentes e até funcionários, na construção do equilíbrio do nosso canto, adaptá-lo quando necessário, mas sobretudo defender, com unhas e dentes, a preservação da intimidade familiar.

domingo, 7 de agosto de 2011

Felicidade é poder

      Vi pessoas sorrindo no setor de radioterapia de um hospital, outras entristecidas; numa associação de deficientes fisicos, uns demonstrado revolta, outros consertando a própria vida; no consultório, alguns idosos que tiveram grandes perdas estão em paz, e outros bem sucedidos financeiramente, angustiados. De alguma forma pessoas infelizes geralmente se sentem impotentes. Será que a felicidade, entre outras coisas, envolve poder de escolher e decidir? Perceber possibilidades e efetivamente optar na satisfação de algumas necessidades? Se for assim, sentir-se-á feliz exercendo algum poder, em algumas necessidades. Felicidade então é poder?! De se movimentar (para os que estão limitados fisicamente)? Desempenhar (para os inexperientes)? Consumir (para os mais contaminados com a atmosfera social)? Vivenciar (para os que estão aprisionados)? De sentir-se vivo (para os que perderam a esperança)? Infeliz, com certeza, é a tarefa de escolher e priorizar estas necessidades sem que tenha se passado grande parte da existência, ou pior, toda a vida. Mas apesar dos inúmeros momentos de dúvida e insegurança durante a jornada, vai valer a pena e haverá dias de motivação e grande entusiasmo.

domingo, 31 de julho de 2011

Consumidores na vida

      Recentemente numa festa de família dois irmãos conversavam sobre os acontecimentos da semana, falavando o que tinha ocorrido em casa, no trabalho, bem como os fatos mais noticiados envolvendo  política, violência, economia. Em seguida, de uma maneira mais entusiasmada, começaram a falar dos eventos mais interessantes, das suas aventuras recentes: um deles, radiante, falou que fez um passeio de 400 km com os dois filhos, numa tarde de sexta-feira, após sair do trabalho e os filhos da escola, para adquirir celas e arreios para os três cavalos que comprara há duas semanas. O outro, eufórico, disse que iniciou um novo rumo nos seus investimentos, procurando pela primeira vez uma agência ligada à bolsa de valores e comprando ações por um preço baixo e que, segundo ele, poderá ter bons rendimentos com esses títulos. Na mesma mesa parentes e amigos trocavam experiências agradáveis ou o desejo de tê-las: viagens, compras (vestuário, eletrônicos), bens (veículos, imóveis), etc. À medida que relatavam as experiências, também comentavam os problemas ocorridos na aquisição do bem ou na utilização do serviço, como objetos com defeitos, extravio de bagagens, mau atendimento de funcionários, dentre outros, ao ponto de alguns terem procurado instituições para reivindicarem os direitos de consumidor, como o Procon. Observando o desejo e a satisfação dessas pessoas pelos produtos e também pelas experiências, gostaria de ampliar a compreensão da palavra consumidor, a fim de incluir não só as relações comerciais, mas também as existenciais. Vejamos: todo dia levantamos e consumimos alimento nas refeições, sensação de pertenciamento nas interações sociais, conhecimento na escola, realização e prestígio no trabalho, diversão no lazer. Passamos a vida toda, através das nossas escolhas, consumindo - ou tentando consumir - alimentos, sexo, conhecimento, emoções, relacionamentos, ascenção, etc.  Como seria se  antes de qualquer experiência tivéssemos acesso à descrição dos ingrediantes ou componentes, orientações de uso, resolução de problemas, garantia e validade? Se diante de uma situação prazerosa fosse dito com letras garrafais que ela causaria doença grave da existência? Ou que na bula de um determinado sofrimento ou decepção tivesse a descrição das propriedades medicinais do evento? Sonhamos e planejamos novos consumos para a semana seguinte, ano que vem ou, para quem sabe, um dia... Após algumas décadas envelhecemos agradecidos, saudosos ou frustrados pelo que consumimos durante a vida.  A realidade é que a vida não vem com manual de instruções, nem com um "código do consumidor". Reclamações também não modificarão a situação. Talvez então fosse interessante estimularmos a consciência de que somos sempre consumidores, seja quando compramos uma televisão ou escolhemos uma profissão, ao contratarmos um mecânico ou planejarmos nosso final de semana, quando direcionamos capital para investimentos ou nos dedicamos ao autoconhecimento. Quem  sabe se desta forma não ficaremos mais habilidosos em perceber, nos acontecimentos cotidianos, a qualidade do que estamos consumindo?

segunda-feira, 27 de junho de 2011

É hora de dormir!

     Não consigo dormir cedo! Dormir é perda de tempo! Afirmações como estas vem sendo pronunciadas não só por adultos, mas também por adolescentes e até crianças, indicando uma mudança nos hábitos noturnos das famílias. A vida moderna, com novos serviços e produtos, avança no horário antes destinado ao sono, adiando cada vez mais o adormecer das pessoas. Apesar de ser suspeito em recomendar dormir bem, porque "sou bom de cama" - gosto de me deitar, adormeço serenamente e amanheço entusiasmado -, as pesquisas mostram que o sono é essencial à sobrevivência humana, porque nele são executados processos biológicos fundamentais à reparação e ao equilíbrio (homeostase) do corpo. O humor e o desempenho cognitivo, principalmente a atenção, memória e a aprendizagem também têm seu funcionamento dependente do que acontece durante as horas em que permancemos dormindo. A Irritabilidade, a distração, o esquecimento e a diminuição da prontidão mental são algumas das consequências da privação do sono.
     A aparência de uma pessoa adormecida - olhos fechados, imobilidade, resposta reduzida a estímulos - parece transmitir uma falsa impressão de marasmo, inoperância e "perda de tempo". Mas se pudéssemos assistir aos fenômenos que se desenvolvem quando fechamos os olhos, ficaríamos impressionados com a complexidade dos acontecimentos ali encobertos. Muita coisa acontece nos bastidores do sono, dividido em fases com ou sem movimentos dos olhos, atividade elétrica cerebral variada, sonhos mais ou menos bizarros, alterações cardíacas, do tônus muscular, etc, repetindo-se em ciclos de aproximadamente 70 minutos, durante toda a noite. Se a arquitetura for executada adequadamente, sem várias interrupções (despertares), acordaremos reparados fisiológicamente, dispostos cognitivamente e tranquilos emocionalmente. Em se tratando de crianças, este processo se torna ainda mais relevante, necessitando elas de um sono em maior quantidade e qualidade (horários regulares, dormir sem tv ligada, sem respirar pela boca, temperatura adequada no quarto).
     Então, como conciliar a necessidade fisiológica de dormir, aprimorada em milhares de anos, com as peculiaridades da modernidade - uma programação "infantil" ininterrupta na televisão, intermináveis conversas na internet, jogos eletrônicos com intrincadas e excitantes estratégias? Como permitir que crianças e adolescentes ocupem as noites com atividades de entretenimento, dormindo após às 22 ou 23:00h, em detrimento de uma necessidade psicobiológica e, no outro dia, acordem às 06:00h, espontaneamente e com disposição para as demandas escolares, esportivas, sociais e  familiares do dia? Como esperar que eles consigam, sem respeitar o próprio funcionamento, tirar o melhor de si para aprender o que é extensamente falado pelos professores?
     Embora ainda não esteja "tirando o meu sono", inquieta-me ver tal situação, pela crescente dificuldade familiar de se estabelecer horários de sono, mas sobretudo de distinguir atividades, eventos e comportamentos infantis, dos adultos. 

domingo, 15 de maio de 2011

Lembrar e esquecer: faces de uma mesma memória

                Quando alguém comenta que está com problemas de memória sempre imaginamos que ele esteja se queixando de esquecimento, seja do nome de pessoas conhecidas, do local onde guardou algum objeto ou de um compromisso. Estes episódios são incômodos pelo constrangimento, perda de tempo e prejuízos que provocam. Numa escala progressiva podem indicar um processo neurodegenerativo que, além desses e outros esquecimentos, também corrói a individualidade. Precisamos da memória para sabermos e sermos quem somos e, uma vez iniciada a demolição da capacidade de se lembrar, serão identificadas destruições na estrutura da personalidade, com mudanças no jeito de pensar, sentir e agir. A possibilidade de desenvolver uma síndrome demencial tem sido a maior preocupação quando se fa la em esquecimento - para pessoas com mais de 50 anos -, aumentando o interesse por exercícios e estratégias para facilitar as lembranças, como a leitura, palavras cruzadas, cursos, etc. Ter uma memória saudável significaria então demonstrar uma exuberante capacidade de evocar eventos. Mais ou menos. Para realizarmos as atividades diárias - manuais, intelectuais, afetivas, sociais - precisamos realmente ter disponíveis recordações recentes e remotas, e os exercícios cognitivos aumentam a prontidão mental. Porém ter uma memória saudável implica também em...esquecer! Por incrível que pareça o esquecimento, em determinado nível, contribui para uma excelente memória, ou melhor, para uma memória funcional. Pacientes com uma excelente memória conseguem, infelizmente, lembrar-se de quase todos os episódios ocorridos há décadas: propagandas de tv, visitas recebidas, discussões, noticiários, aborrecimentos, refeições realizadas. Tais pessoas, embora poucas,  procuram médicos e especialistas para ensiná-las a esquecer. Não conseguem desfrutar o presente por serem inundadas pelo passado, com um fluxo avassalador de lembranças inúteis. Com uma retenção menos prodigiosa, pessoas rancorosas e depressivas também desperdiçam momentos relembrando, detalhadamente, raivas e frustrações. Na memória funcional a habilidade de lembrar (algo relevante) é proporcional à de esquecer (trivialidades). E se pararmos  para lembrar e refletir um pouco veremos que, por melhor que tenha sido a nossa história, de um modo geral os fatos irrelevantes, repetitivos ou até mesmo desagradáveis foram mais numerosos. Precisamos, sem maiores preocupações, lembrar de esquecer algumas coisas para que possamos evocar não só lembranças, mas a sensação de estar vivo, para vivenciarmos novas - e de preferência agradáveis - experiências. 

terça-feira, 10 de maio de 2011

Contágio Social - primeira parte

      Há dois dias venho tentando digerir o conteúdo do artigo Contágio Social (Mente Cérebro - maio/2011) que, embora tenha sido publicado numa revista com alguma credibilidade, identificadas as referências bibliográficas que fundamentaram o artigo, comentado sobre alguns detalhes das inúmeras pesquisas, com milhares de pessoas, não tem sido fácli absorver as informações apresentadas. Por isso separei alguns trechos que me impressionaram e que venho, ao longo destas 48 horas, ruminando:
1 -"...não apenas agentes patogênicos são transmitidos de uma pessoa para outra, mas também comportamentos - seja o riso ou atos suicidas, decisões sobre compras ou costumes alimentares. Esse contágio social, domina várias áreas de nossa vida, frequentemente sem que tenhamos consciência disso";
2 - "Que o bem-estar das pessoas depende fortemente de quão os outros que estão à sua volta sejam felizes foi comprovado em 2009 pelos economistas John Knight, da Universidade de  Oxford...";
3 -"... a felicidade individual não podia ser explicada apenas por fatores sociais: condições materiais para o bem-estar, trabalho que trouxesse satisfação e principalmente a saúde física desempenhavam importante papel. A isso, acrescenta-se o fato de que redes sociais são estruturas complexas, nas quais vários sentimentos são transmitidos ao mesmo tempo";
4 -"Não apenas sentimentos, mas desejos e planos de vida aparentemente são também contagiosos";
5 - "Quando as pessoas podem fazer o que querem, em geral imitam as outras";
6 -"O ato de imitação mútua tem como base a semelhança entre os membros de um determinado grupo. Similaridades criam confiança e compreensão mútua. Principalmente por esse motivo, médicos tendem mais a ser amigos de médicos e pedreiros de pedreiros";
7 - "Apesar de quase sempre nos propormos a agir de forma autônoma, frequentemente assumimos o ponto de vista daqueles que estão próximos";
8 - "O objetivo máximo dos membros de uma rede de convivência é provar que pensam, sentem e agem da mesma forma que os outros - embora não tenham consciência dessa tendência. Isso fortalece a identidade do grupo, estimula a cooperação e a sensação de pertenciamento...";
9 - "Inúmeros estudos comprovam que o isolamento social representa um risco à saúde".
     Embora o senso comum já tenha alertado, com os seus ditados populares, para a importância e o impacto das companhias no comportamento do indivíduo("Dizei-me com quem andas e eu te direi quem és"), e a sociologia - de uma maneira mais estruturada - pesquisando sobre os fenômenos sociais e analisando  as relações de interdependência entre os homens, minha ignorância sobre o assunto foi determinante para o estado de perplexidade diante da intensidade e amplitude dos argumentos. A priori vislumbro que, havendo algo de real nesse artigo, as implicações na compreensão do comportamento individual e coletivo são imensas, bem como as possibilidades de  manipulação por entidades públicas e privadas. Espero não ter uma indigestão...

sábado, 16 de abril de 2011

Prestando atenção

       Há três dias, quando realizava uma palestra para os pais, no COC, falando sobre as características e alterações da atenção, bem como os prejuízos na vida escolar do estudante, algumas perguntas "me chamaram a atenção": quando devemos considerar preocupante um  comportamento de não prestar atenção, ficar alheio ou no "mundo da lua"? Em outras palavras, como diferenciar uma dificuldade de um transtorno de atenção? Perguntaram também:  como um estudante pode ser desatento para a a atividade acadêmica e concentrado para que o interessa(vídeo game, computador, etc)? Inicialmente é importante esclarecer que a quantidade de estímulos percebidos a cada segundo - visuais, auditivos, táteis, olfativos, gustativos -, e o fluxo de pensamentos e sentimentos presentes em cada momento são superiores à capacidade do cérebro  de processá-los conscientemente. Para isto é necessário selecionar os estímulos mais relevantes, ignorando os demais. É  atenção! Consequentemente, quando uma pessoa não consegue realizar a escolha e fica vagando entre os estímulos, disperso, alterando sua prontidão mental, dizemos que existe uma dificuldade na atenção. Noites mal dormidas, alterações hormonais, distúrbios ansiosos e de humor, alguns medicamentos e stress podem ocasionar um período menos concentrado nas atividades, diminuindo a aprendizagem, a produtividade e provocando até esquecimento . Porém, nestas situações o prejuízo não se restringe à atenção, atenuando também a memória, funções executivas, dentre outras habilidades mentais. Mas, quando uma pessoa apresenta um comportamento recorrente de intensa limitação em priorizar estímulos, discrepante com o potencial cognitivo demonstrado, produzindo desavantagem no desempenho de atividades escolares, familiares e sociais, desencadeando sofrimento psíquico no estudante, temos então o transtorno de atenção.
      E a diferença de atenção que o aluno manifesta entre a aula de matemática e o jogo no computador? Bem, aí já não é só atenção! O critério que o aprendiz utiliza para considerar uma tarefa relevante e, consequentemente, ficar concentrado, envolve aspectos cognitivos e emocionais.  E, lá nos porões da subjetividade, a lei dominante é a busca por sensações prazerosas e contíguas. Por isto, talvez para a maioria dos estudantes, a motivação em realizar uma atividade que propicia uma experiência imediatamente agradável (sites de relacionamento, jogos, festas) é bem mais intensa e impactante no comportamento que o interesse em desenvolver uma tarefa geralmente monótona, repetitiva e pouco palatável (estudo, aula). Cabe então à família, na rotina dos hábitos diários, geralmente também monótonos, repetitivos, contribuir para que o filho desenvolva a capacidade de adiar o prazer e tolerar a frustração.  Assim como é imprescindível a avaliação e o tratamento multiprofissional no Transtorno de Atenção/Hiperatividade (TDA/H), também é fundamental um ambiente familiar genuíno, onde os integrantes aprendam, entre outras coisas, a amansar o ímpeto e excitar o bom senso. Em tempos de tantas ofertas - brinquedos, entretenimentos, atividades, comportamentos, relacionamentos -, esta habilidade é essencial para se aprender os ensinamentos da escola e, principalmente, da vida

sábado, 9 de abril de 2011

Luto

        Desde o dia da tragédia na escola do Rio de Janeiro  tenho sentido um mal estar danado! É a raiva do cidadão - que presencia, no descaso dos representantes, a restrição crescente do direito à segurança -,  o medo do pai - que precisa ver na escola não só um ambiente seguro e de conhecimento, mas também de possíveis agressões aos filhos -,  e a tristeza do psicólogo  - em saber que dezenas de pessoas(pais, irmãos, parentes e amigos) irão amargar, por algum ou muito tempo  o sofrimento da perda precoce, com prováveis prejuízos em suas vidas. No momento não consigo prosseguir a postagem e fico apenas  desejando que as famílias suportem a dor da violência sofrida e consigam algum conforto, se for possível. Quanto a nós, expectadores, respeitemos o sofrimento alheio, controlando a nossa bizarra curiosidade pelos detalhes macabros do episódio.

terça-feira, 5 de abril de 2011

Meninos não são homens e meninas não são mulheres


          Nos finais de semana, feriados e durante as férias, tenho visto, de uma forma crescente e preocupante, crianças e adolescentes realizando atividades de adultos: pilotando moto, jet ski, dirigindo carro, quadriciclo, assistindo a todo tipo de programação e entretenimento, passando a madrugada no computador ou jogando vídeo game, decidindo o que, quando e quanto comer. Como pai de três filhos, sendo um deles adolescente, isso tem me sensibilizado de maneira significativa, não só pelo aspecto legal e pelos riscos à saúde e de acidentes, mas também por perceber a pressão social existente para caracterizar como natural e adequado tais comportamentos. Se estes iniciantes já estão tomando tantas decisões, tão precocemente, a função e a utilidade dos pais precisam ser questionadas e refletidas. Para que, então, servem o pai e a mãe atualmente? Seriam funcionários dos filhos, servindo-os em quase todas as atividades cotidianas? Seriam motoristas, transportando-os confortavelmente paras as inúmeras atividades? Um caixa eletrônico, para bancar suas intermináveis "necessidades"?  Seu "melhor amigo" para, principalmente, compartilhar segredos e intimidades? E será que a tecnologia, a internet, a rapidez do raciocínio e a conectividade desses jovens estão antecipando as etapas do amadurecimento individual, tornando os pais prescindíveis precocemente - como, de uma certa forma já vem acontecendo com os professores? Apesar dos possíveis exageros cometidos nestes comentários,  exagerada e danosa também é a precoce sensação de poder que muitos garotos vem experimentando, e o pior, com os aplausos ignorantes dos pais. O conhecimento neuropsicológico tem  demonstrado que, assim como a memória e a atenção, o controle da inibição se constitui numa  habilidade cognitiva - função executiva -, essencial no desempenho acadêmico, social e profissional. No processo de maturação cerebral é  a última das funções cognitivas a se desenvolver plenamente, ocorrendo - "para aqueles que têm mais juízo" - por volta dos 20 anos. Sendo assim, permitir e/ou estimular atividades adultas em menores é um ato abusivo, ou seja, contrário às leis, à saúde e ao desenvolvimento cerebral da criança!

segunda-feira, 28 de março de 2011

Memória e envelhecimento

          Quando estamos numa fila de banco ou de supermercado podemos observar que talvez já não seja tão vantajoso para o idoso ter sua própia fila (ou apenas uma fila), pois frequentemente ela está bastante numerosa. Esta realidade tem sido enfatizada com os dados do IBGE, que aponta o aumento progressivo da população com mais de 65 anos. Além das filas, os idosos estão cada vez mais presentes nos shoppings, cinemas, teatros, excursões, faculdades e também nos consultórios médicos, para realizarem avaliações periódicas.
         No entanto, mais importante que viver muito é lembrar que está vivo. Os cuidados, inicialmente com a pressão arterial, glicemia ("açúcar no sangue") e níveis de colesterol tem, recentemente, incluída a avaliação da memória como algo também importante. As pessoas estão cada vez mais conscientes da importância da saúde cognitiva na funcionalidade e na qualidade de vida aos anos que estão ganhando. Por isso a atenção aos sintomas de esquecimento tem se intensificado, levando-as aos consultórios de geriatria para "tratar da memória". O medo do alemão (Alzheimer), como dizem alguns pacientes, também tem incrementada a procura do diagnóstico, principalmente quando apresentam antecedentes familiares de demência (denominada por alguns como esclerose e caduquice). Entretanto, para se avaliar a memória é essencial conhecer um pouco do seu funcionamento, algumas de suas características, tipos e limitações. Assim, será possível determinar se o esquecimento é normal ou patológico. Inicialmente  é importante esclarecer que uma boa memorização não significa a retenção total do ocorrido (aniversário, leitura, conversa, etc). Diante de um episódio, geralmente ocorre a fixação dos aspectos essenciais do evento, com mais alguns detalhes. Com o passar do tempo os detalhes tendem a serem esquecidos (transitoriedade), permanecendo o fato principal. O estado emocional no momento do episódio, bem como na hora da lembrança também em muito influencia a quantidade e a qualidade da evocação, realizando uma edição. Ou seja, se você estiver lendo um livro interessante, numa boa, a fixação será mais forte. Por outro lado, se estiver  triste ou deprimido, irá lembrar mais facilmente de fatos desagradáveis que ocorreram na sua vida.
         De uma maneira simples e prática, saber se a memória está adequada para a sua idade é, inicialmente, prestar atenção, isto é, observar a intensidade e a frequência dos esquecimentos (principalmente se está repetindo assuntos ou esquecendo fatos ocorridos). Analisar os prejuízos provocados nas suas atividades cotidianas (pagamento de contas, gerenciamento de casa, etc), nas relações com as pessoas e comparar com o seu desempenho dos últimos anos. Feito isso, terá uma significativa impressão do funcionamento da sua memória. Teria outros aspectos a comentar sobre a memória, mas como tenho uma fila de coisas pra fazer, deixarei para um outro momento, senão posso me esquecer do que tenho que fazer...

sábado, 26 de março de 2011

Mais que inteligente

Frequentemente quando estou iniciando uma avaliação neuropsicológica em crianças ou adolescentes, com problemas na aprendizagem, escuto os pais - principalmente o pai - afirmarem enfaticamente: "mas meu filho é muito inteligente!" Num processo avaliativo, seja ele acadêmico, profissional ou psicológico, é natural que ocorra um estado de apreensão, de ansiedade, levando a um comportamento de proteção dos genitores. Mas além desta e outras possíveis considerações subjetivas, percebo também em muitas famílias a crença que a atividade mental se resume na inteligência, e que ela é a protagonista  da qualidade do comportamento humano. É como se o fato de ser inteligente fosse o  mais importante para o sucesso do filho na vida. Mas a inteligência - geralmente a habilidade lógico-matemática - não é a única responsável por uma vida de realizações e feliz. Todos nós conhecemos ou ouvimos falar de pessoas "bem inteligentes", mas que não se deram muito bem. O comportamento humano adequado resulta da harmonia de várias habilidades emocionais e cognitvas, como a percepção, atenção, linguagem, funções visuoespaciais, memória, funções executivas, e inteligência. O refinamento funcional destas ferramentas mentais depende de fatores genéticos e ambientais, podendo - em algumas crianças - apresentar-se isoladamente ou amplamente prejudicadas. A dislexia, discalculina, disortografia, déficit de atenção, dentre outros, são transtornos focais, que envolvem uma ou poucas habilidades (leitura, cálculo, escrita e atenção, respectivamente), mas com a maioria das demais funções cognitivas preservadas. O retardo mental, por sua vez, apresenta comprometimento na maioria das funções (percepção, inteligência, funções executivas, funções visuoespaciais), com poucas habilidades sem manifestar déficit (memória e/ou linguagem). Mas, mesmo em pessoas que não apresentam transtorno ou retardo mental, a disposição das funções cognitivas é personalizada e não homogênea, ou seja, Marina pode ter a atenção e memória medianas, a inteligência superior e  a linguagem diminuídas, enquanto que Júlio a inteligência mediana, a atenção, funções executivas e memória superiores e funções visuoespaciais diminuídas. Uma outra característica fundamental do funcionamento mental é "hierarquia" das funções, onde um estímulo - uma aula - antes de ser memorizada, precisa da motivação, atenção e da compreensão (percepção). Percebe-se então a complexidade do comportamento humano e o fato de que, ser apenas inteligente não é suficiente para um desempenho satisfatório no ambiente familiar, escolar, social e profissional. Inúmeras pessoas, bem dotadas intelectualmente, com transtorno apenas na atenção e/ou na leitura, muitas vezes rotuladas de preguiçosas, tem sido excluídas pelo desconhecimento e pelo preconceito. O pior rótulo, o que causa dano efetivo à vida de uma pessoa, não é o de hiperativo ou disléxico, mas o de fracassado e incapaz. Sejamos então inteligentes o suficiente para percebermos o problema,  lidarmos com a frustração decorrente e buscarmos o conhecimento adequado.

quarta-feira, 16 de março de 2011

Chuva

Estou feliz porque está chovendo! Fico eufórico, infantil, querendo inventar, aprontar, reinar. A chuva transparece a minha curiosidade, floresce as fantasias de garoto.  E, da janela do consultório, fico quieto, observando o reboliço que ela provoca, mudando a cor do dia, sua temperatura, seu cheiro e seu jeito. Ela lava, ela suja; ela molha, ela inunda; ela acalma, ela tumultua; ela estimula, ela destrói. É impulsiva, é impossível, como um menino!

segunda-feira, 14 de março de 2011

Apresentação

Vivendo num mundo cada vez mais veloz, intenso, complexo, sofisticado e cheio de conforto; assistindo e sentindo as mudanças e inquietações decorrentes; observando uma corrida ofegante por uma melhor preparação acadêmica, diante da impressionante competitividade; avaliando pessoas com uma necessidade crescente de identificar deficiências e aumentar o desempenho - físico, sexual, cognitivo, emocional;  defrontando com uma quantidade assustadora de conhecimento proporcionado pela ciência; percebendo a tecnologização da vida, seja no estudo, no lazer, nas relações; temendo a quase iminente violência, que vem aprisionando os livres e deixando os algozes mais a vontade; irritando-se com a danosa ausência de espírito coletivo da maioria dos gestores públicos e com a aparente lerdeza social; desfrutando dos avanços locais (democracia, direitos trabalhistas, aumento da expectativa de vida) e gerais (a maioria das previsões apocalípitcas para o ano 2000 não aconteceram), mas, sobretudo, convicto de que estas e outras situações fazem parte do processo de amadurecimento da divina espécie humana.